HAITI
Faculdade de Medicina, Lausana, Suíça, verão de 1967, exame de Histologia e Embriologia: “ Entrez Monsieur Mendes, vous êtes portugais n’est ce pas? Dizia M.Bucher, o Professor da disciplina, com o seu típico sotaque suíço alemão. Depois prosseguiu: - No seu país o Ditador é médico, não é? Ah é verdade é formado em Direito, médico é o do país do senhor que o precedeu no exame.
Era o Jean Paul, estudante haitiano, e o Ditador a que o Professor se referia era o não menos sanguinário Papa Doc, François Duvalier, fantoche dos Estados Unidos que governava a ilha desde 1957 e que na década de sessenta exterminou toda a oposição e tornou-se tristemente célebre pelos famosos tontons macoutes (bichos papões) que espalhavam o terror em toda a ilha.
No meu curso, havia três estudantes do Haiti, dois rapazes e uma rapariga, e foi depois deste exame que os conheci melhor. Tínhamos em comum ser oriundos de dois países com ditadores, um com o curso de Medicina e outro com o curso de Direito, mas bem distantes, um nas Caraíbas e outro na Europa.
A história deste país nem sempre foi de desgraças, o Haiti que actualmente, ocupa parte da ilha de São Domingos, a primeira ilha da América onde atracou Cristóvão Colombo na sua viagem ao serviço dos Reis Católicos, regista tempos heróicos no sec. XIX, quando se torna a primeira república negra do Mundo.
País de escravos negros revolta-se em 1803 contra a França, potência colonial, e derrota as tropas de Napoleão Bonaparte ocupadas em guerras na Europa, esta humilhação custou-lhe cara, apesar disso, o Congresso de Viena, em 1815, formaliza a derrota da França e determina a extinção do tráfico de escravos, embora limitada a norte do Equador.
A Espanha invade a ilha em 1871, como consequência esta fica dividida em dois países: o Haiti e a actual República Dominicana. A Inglaterra apodera-se deste estado em 1877, por sua vez os Estados Unidos invadiram três vezes o Haiti: 1914, 1915 e novamente em 1969.
República de escravos livres, assente nos ideais da Revolução Francesa, acolhe Simão Bolívar, como refugiado e ajuda-o, quando foi derrotado pelos espanhóis, na sua luta pela independência.
O governo, deste país entregou-lhe navios, armas e soldados, com uma única condição, de que Bolívar libertasse os escravos em cada país que se tornasse independente do jugo colonial espanhol.
Em 1915 o Haiti é invadido pelos Estados Unidos, consequência da politica baseada na Doutrina Monroe: “ a América para os americanos” que propugnava a supremacia dos EUA sobre todo o continente. Tal política, na prática, traduziu-se na intervenção sistemática nos países da América Latina, tendo sido apelidada por Theodore Roosevelt de “ big stick”.
Os norte-americanos só deixaram este país em 1934, ou melhor só se retiraram quando cobraram as dívidas do City Bank e aboliram o artigo constitucional haitiano, que proibia vender plantações aos estrangeiros e voltaram a invadi-lo em 1969.
Cada invasão significa um novo terramoto com saques, ruínas, destruição e morte. As invasões isoladas não foram suficientes para exterminar o Haiti e nos intervalos o povo foi vítima de duas ditaduras sanguinárias: a do Papa Doc, o médico François Duvalier (1957 a 1971) e a do seu filho Jean Claude Duvalier apelidado de Baby Doc (1971 a 1986)
A população do Haiti são 9 milhões de habitantes, mas as imagens das televisões só nos mostrou o povo sacrificado, os assaltos selvagens aos bens que eram distribuídos pela ajuda internacional, a indiferença aparente perante os mortos, o acumular de cadáveres.
A tradição racista e xenófoba imperou nos media ou este não fosse o país de escravos negros que humilhou a Europa vencendo as tropas de Napoleão, tropas essas que por exemplo, obrigaram a nossa família real a abandonar Portugal e a refugiar-se no Brasil, ou este não fosse o país das religiões africanas do vudu que a Igreja Católica e os “ocidentais” tão hedionda nos apresentaram através de livros e de filmes medíocres.
Onde estavam os médicos haitianos, os professores, os engenheiros e outros profissionais ? Gostaria de os ter visto e ouvido falar do futuro, da reconstrução e da ajuda internacional necessária, do seu país independente desde 1803.
A imprensa internacional mostrou além das imagens violentas e comoventes de sobreviventes debaixo de destroços, de mães em transe aconchegando filhos mortos no seu colo, apresentou também ao Mundo um país, um Estado falido, uma nação desgovernada por completo.
A mensagem passada, à opinião pública, foi a de um país incapaz de se organizar e se governar por si só, em resumo ser Independente.
Que futuro espera este país? Poderá respeitar os velhos ideais da sua história ou estará condenado à subjugação de uma grande potência e acabar como país independente, tornando-se um protectorado de qualquer grande potência.
A esperança nasceu ao ler o texto do Professor de antropologia brasileiro, Omar Ribeiro Thomaz, que estava no Haiti a 12 de Janeiro e a tudo assistiu.
Texto que aconselho a ler. Aí ficamos a saber que a ajuda internacional chegou muito tarde e como ele diz, os membros da ONU ajudavam os membros da ONU e os haitianos ajudavam os haitianos. Os feridos foram assistidos por médicos, enfermeiros e freiras haitianas, seguramente os meus ex colegas estariam lá na primeira ajuda. As estruturas “primitivas” começaram a funcionar, os pequenos comerciantes, os chamados, madanm sara, expuseram nas ruas as suas bancas de víveres e água, sem especulações monetárias. Segundo este antropólogo os supermercados é que ruíram e foram assaltados por gente com fome, ao contrário dos pequenos comerciantes que não foram atacados nem tiveram de se defender com armas, como os soldados da ONU, estas estruturas nunca foram utilizadas pelas organizações de ajuda humanitária.
As imagens televisivas mostraram-nos também um povo crente, educado na influência e confluência das religiões Vudu e Católica, pedindo a graça de Deus. Quando alguém era salvo in extremis, a palavra milagre era pronunciada à exaustão.
A morte de 200 000 pessoas e a destruição total de Port-au-Prince, não foi por vontade de Deus. Há mais de 200 anos, quando em 1755, o terramoto, o fogo e depois o tsunami, destruiu Lisboa e matou cerca de 20 000 pessoas, horrorizou a Europa e perturbou alguns filósofos, na suas crenças religiosas.
Voltaire, no seu célebre poema sobre o desastre de Lisboa interrogava-se: “ Direz – vous “C’est l’effet des éternelles lois/ Qui d’un Dieu libre et bon nécessitent le choix » ?/Direz – vous, en voyant cet amas de victimes:/ «Dieu s’est vengé, leur mort est le prix de leur crime» ?/ Quel crime, quelle faute ont commis ces enfants/Sur le sein maternel écrasés et sanglants ?»
O sociólogo Zygmunt Bauman define esta data, 1755, como a gota de água que mudou toda uma concepção do Mundo fundada na Providência divina.
Tenho a esperança que depois do desastre que matou 200.000 pessoas e destruiu metade do país, os haitianos reconstruam a sua terra livre de tabus e construam uma sociedade livre de ingerências estrangeiras. O povo tem a memória da sua história e, libertado das crenças, pode deixar de ser o país mais pobre do Planeta.
domingo, 21 de março de 2010
quinta-feira, 4 de março de 2010
O CENTENARIO DA REPUBLICA
0 31 DE JANEIRO VISTO POR UM HEROI DA REPUBLICA
No dia 31 de Janeiro de 1891, na cidade do Porto, registou-se um levantamento militar contra as cedências do Governo (e da Coroa) ao ultimato britânico de 1890 por causa do Mapa Cor-de-Rosa, que pretendia ligar, por terra, Angola a Moçambique. Esta é a explicação mais comum da primeira tentativa de implantação da República em Portugal
Neste discurso, proferido numa efeméride da data, já durante a Ditadura, o Almirante Tito de Morais fala de outras causas, além desta, que deu origem à “ Portuguesa “, composta por Lopes de Mendonça e Alfredo Keil, que viria a ser o Hino Nacional.
Como estes documentos são de difícil leitura, passo a transcrever algumas partes do discurso que acho interessante sublinhar:
“ O movimento revolucionário de 31 de Janeiro de 1981 foi um brado da indignação colectiva contra os desmandos dos governos da Monarquia, agravados pela afronta recebida em 11 de Janeiro do ano anterior; traduzindo o anseio da consciência democrática do País pela mudança………………………………..”
“………..Os defensores da Monarquia não quizeram ou não souberam ver no seu verdadeiro significado aquele brado da Nação……………………………………..trataram, sim, de engrandecimento do poder real, enveredando por actos dictatoriais , falta de cumprimento da Lei e falta de respeito da Constituição, publicação de leis de excepção, repressão cada vez mais violenta da liberdade de reunião e da liberdade de Imprensa – com assaltos de policia às redacções dos jornais – e permitindo nova invasão jesuítica que, em breve, dominaria todas as actividades oficiais, verificando-se a resistência dos prelados ao poder civil.”
“……..escândalos era interminável: empréstimos a bancos e a outras instituições particulares, sem disponibilidades que as permitissem mas e cujas administrações alguns ministros não eram estranhos; a administração dos fundos públicos constantemente deficitária; a concessão de Mac – Murde, os “bonds” de Hersent, as cédulas de Burnay, o contracto dos Tabacos, o monopólio dos Fósforos, as jóias de D. Miguel, as questões dos Sanatóios e do açúcar da Madeira, a convenção com o Transvaal sem o “ ad referendum” do Governo, a partilha e venda das colónias tratadas na imprensa estrangeira, e defendidas por ministros, os desfalques elevadíssimos no Credito Predial e na Companhia Vinícola a cujas as administrações pertenciam os políticos mais em evidencia e, a mais importante de todas, a questão dos adiantamentos ilegais à Casa Real. ………………………………………………………………………………….”
O brado do 31 de Janeiro culminou com a Vitoria do 5 de Outubro”
No dia 31 de Janeiro de 1891, na cidade do Porto, registou-se um levantamento militar contra as cedências do Governo (e da Coroa) ao ultimato britânico de 1890 por causa do Mapa Cor-de-Rosa, que pretendia ligar, por terra, Angola a Moçambique. Esta é a explicação mais comum da primeira tentativa de implantação da República em Portugal
Neste discurso, proferido numa efeméride da data, já durante a Ditadura, o Almirante Tito de Morais fala de outras causas, além desta, que deu origem à “ Portuguesa “, composta por Lopes de Mendonça e Alfredo Keil, que viria a ser o Hino Nacional.
Como estes documentos são de difícil leitura, passo a transcrever algumas partes do discurso que acho interessante sublinhar:
“ O movimento revolucionário de 31 de Janeiro de 1981 foi um brado da indignação colectiva contra os desmandos dos governos da Monarquia, agravados pela afronta recebida em 11 de Janeiro do ano anterior; traduzindo o anseio da consciência democrática do País pela mudança………………………………..”
“………..Os defensores da Monarquia não quizeram ou não souberam ver no seu verdadeiro significado aquele brado da Nação……………………………………..trataram, sim, de engrandecimento do poder real, enveredando por actos dictatoriais , falta de cumprimento da Lei e falta de respeito da Constituição, publicação de leis de excepção, repressão cada vez mais violenta da liberdade de reunião e da liberdade de Imprensa – com assaltos de policia às redacções dos jornais – e permitindo nova invasão jesuítica que, em breve, dominaria todas as actividades oficiais, verificando-se a resistência dos prelados ao poder civil.”
“……..escândalos era interminável: empréstimos a bancos e a outras instituições particulares, sem disponibilidades que as permitissem mas e cujas administrações alguns ministros não eram estranhos; a administração dos fundos públicos constantemente deficitária; a concessão de Mac – Murde, os “bonds” de Hersent, as cédulas de Burnay, o contracto dos Tabacos, o monopólio dos Fósforos, as jóias de D. Miguel, as questões dos Sanatóios e do açúcar da Madeira, a convenção com o Transvaal sem o “ ad referendum” do Governo, a partilha e venda das colónias tratadas na imprensa estrangeira, e defendidas por ministros, os desfalques elevadíssimos no Credito Predial e na Companhia Vinícola a cujas as administrações pertenciam os políticos mais em evidencia e, a mais importante de todas, a questão dos adiantamentos ilegais à Casa Real. ………………………………………………………………………………….”
O brado do 31 de Janeiro culminou com a Vitoria do 5 de Outubro”
terça-feira, 2 de março de 2010
sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010
IN ILLO TEMPORE
IN ILLO TEMPORE
Quando saí do aconchego do lar, para iniciar os meus estudos, os meus pais inscreveram-me no Colégio Infante Sagres por ser um estabelecimento de ensino aonde não seria obrigado a receber aulas de religião e moral e de frequentar a mocidade portuguesa.
Nisso o meu pai fez uma boa escolha, pois eu e os meus irmãos, nunca fomos obrigados a vestir aquela farda esverdeada (tipo feijão verde) com um S de Salazar gravado no cinto. Quanto às aulas de religião e moral ministrada por um padre, o Padre Freitas, senti uma discriminação imprópria de um estado laico. Éramos apenas 3 alunos, na minha classe, que não frequentávamos essas aulas: eu, Salomão Benoliel e um Palma Carlos (pelos nomes percebe-se porquê).
A pressão sobre nós do Padre Freitas era de tal ordem violenta que uma vez o Dr. Manuel João da Palma Carlos entrou de rompante pelo portão do colégio para pedir satisfações ao dito padre pelos comentários que tinha feito ao filho.
In illo tempore, os exames da 3ª e da 4ª classe em estabelecimentos públicos eram obrigatórios. Como o Colégio Infante Sagres pertencia ao ensino privado realizei os exames da 3ª classe algures numa escola em São Sebastião da Pedreira e o da 4ª classe no liceu Camões.
Estas provas de entrada, para o ciclo liceal, eram uma verdadeira tortura para todas as crianças da minha idade, obrigados pela primeira vez a vestir fato e gravata.
As provas decorriam sempre durante o mês de Junho, normalmente em dias de grande calor.
In illo tempore, as esferográficas não existiam, o que nos obrigava a escrever com caneta tinta permanente, uma das prendas obrigatórias nos aniversários ou no Natal para grande desgosto nosso. Agradecíamos sempre com um sorriso amarelo, o estojo com a caneta de tinta-da-china, régua e esquadro que faziam também parte do arsenal obrigatório para o exame.
O mais difícil para mim foi sempre a prova de desenho, quando o esquadro esborratava espalhando a tinta-da-china, ainda não tinham sido inventadas as canetas Rotring, mas para algumas crianças o mais temível era a hipersudação das mãos, desvio fisiológico incontrolável, obrigando-os a limpar o suor regularmente com um lenço branco.
O dia do exame da 4ª classe chegou numa manhã quente daqueles anos em que o mês de Junho sugeria praia e mar e lá me vesti com o fato com calções, camisa branca e gravata a rigor.
O meu pai levou-me no seu carro até ao gradeamento do liceu Camões onde já estavam à nossa espera o professor primário e o director do Colégio.
No exame da 4ª classe, na prova de português, pedia-se para narrar uma história em que a figura principal fosse um cão.
Como citadino a única história que conhecia com cães era aquela, do Bob, que tantas vezes tinha ouvido do meu pai e acabava sempre com as gargalhadas gerais das visitas.
O Bob era um lobo de Alsácia que tinha sido oferecido ao meu pai e vivia numa quinta dos meus avós maternos na Cruz Quebrada.
O meu irmão mais velho tinha acabado de nascer e o cão, como acontece frequentemente com estes animais, vigiava o berço e o bebé e só deixava aproximarem-se os meus pais.
Um dia um amigo lá de casa foi visitá-los e quis ver o rebento da família. Não tendo feito caso dos avisos repetidos do meu pai, resolveu pegar no meu irmão ao colo. Num salto o Bob atacou-o e rasgou-lhe os fundilhos das calças, ao que ele retorquiu: - “ livra que este cão é fascista morde pelas costas”.
Ora aí estava na minha memória a história ideal para um exame de admissão aos liceus.
Quando o meu Professor da 4ª classe, o Professor Pimenta, alentejano e suspeito que também antifascista, viu a redacção, chamou o meu pai, o director do colégio e ainda um Professor do Liceu Camões, que nunca soube o nome, e lá resolveram da melhor forma o assunto.
Só me chamaram para dizer: - “Não sabes que fascista não se escreve com X?” Esse erro, de certeza, não mo tiraram.
Foi assim que entrei nos liceus e manifestei a minha primeira atitude antifascista.
terça-feira, 23 de fevereiro de 2010
quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010
COMISSÃO PRÓ ASSOCIAÇÃO DOS LICEUS
A COMISSÃO PRÓ ASSOCIAÇÃO DOS LICEUS
A maioria das associações de estudantes universitárias foi encerrada, nos anos cinquenta, por ordem da Ditadura. Exemplo disto foi o encerramento pela PIDE da Associação de Medicina, à época situada no Campo de Santana, com a destruição de todo o seu espólio. O ódio à cultura levava à destruição dos livros, considerados funesta influência da sociedade, o que o regime de Salazar fez sempre na boa tradição, da inquisição e do nazi-fascismo.
O associativismo em Portugal foi desenvolvido durante a primeira República, que neste ano se comemora o primeiro centenário. António Sérgio foi o grande divulgador e impulsionador da educação cívica nos liceus, exortando à participação dos alunos no governo das escolas através dos seus colegas eleitos, numa verdadeira preparação para a vida adulta em Democracia, habituando, como escreveu “as crianças à acção cívica, ao exercício dos futuros direitos de soberania…”
O seu livro “Educação Cívica “, escrito em 1915 e reeditado pela Editorial Inquérito, trinta e nove anos depois e ainda tão actual, dizia:
“ …o hábito escolar de obedecer a uma governação de que o estudante não participa amolda um futuro cidadão que aguentará apaticamente todos os desmandos, todos os abusos, todos os atropelos e traficâncias dos grandes senhores que todo lo mandam, sob políticos autoritários; ficam assim desde o tempo dos estudos determinados os nossos modos de procedimento para com o governo da comunidade….”
Salazar conhecia bem o perigo dos métodos de ensino moderno, por isso à imagem da juventude nazi e fascista italiana cria, por Decreto-Lei n.º 26 611, de 19 de Maio de 1936, a organização nacional Mocidade Portuguesa que pretendia abranger toda a juventude - escolar ou não - e atribuía-se, como fins, estimular o desenvolvimento integral da sua capacidade física, a formação do carácter e a devoção à Pátria, no sentimento da ordem, no gosto da disciplina, no culto dos deveres morais, cívicos e militares.
A ela deveriam pertencer, obrigatoriamente, os jovens dos sete aos catorze anos. Os seus membros encontravam-se divididos por quatro escalões etários: os lusitos (dos 7 aos 10 anos), os infantes (dos 10 aos 14 anos), os vanguardistas (dos 14 aos 17 anos) e os cadetes (dos 17 aos 25 anos). Estava dotada de um hino e fazia a saudação fascista de braço estendido.
A grande maioria dos jovens da minha geração (fim de anos 50 /60) era avessa a esta organização para militar, conhecida entre nós pela “ Bufa”, nome pejorativo que a identificava com um dos sentimentos mais baixos, a delação.
Foi neste ambiente que, em inícios de 1960 tive conhecimento da existência da Comissão Pró Associação dos Liceus, por um panfleto que propagandeava uma sessão de cinema no Instituto Superior Técnico. Na altura, frequentava o Liceu Francês Charles LePierre, que era uma das escolas mais liberais.
Influenciado pelos ideais de António Sérgio e com um irmão que já pertencia à Comissão Pró – Associação de Medicina, aderi rapidamente à ideia de criarmos uma Associação Liceal em Lisboa. O grupo inicial era muito pequeno, mas com jovens cheios de entusiasmo, desejosos de sair da “ paz podre” que era a vida nos liceus, onde qualquer iniciativa cultural era nado – morto.
Alguns deles já escreviam os seus textos no Juvenil do Diário de Lisboa, com a orientação de Costa Dias, outros tinham ligações ao Partido Comunista e eram mais politizados.
No verão de 1960, o Luís Garcia convidou – me para ser candidato à Presidência da Pró Associação, o que aceitei. Fui eleito numa reunião realizada na Associação de Direito, com cerca de vinte e tal estudantes. Durante o ano lectivo 60/61 o movimento cresceu muito, havendo delegados em quase todos os liceus de Lisboa, apesar da proibição imposta pela maioria dos Reitores. O ideal associativo estendeu-se também às escolas comerciais e industriais.
Abrimos uma sede numa sala do bairro S. Miguel, em Lisboa, fizemos inúmeras realizações de convívio, saraus culturais, participamos nas RIAs (reuniões inter - associações) e no Dia do Estudante de 1961, na Faculdade de Ciências, onde pela primeira vez ouvi e vi cantar o Zeca Afonso a balada do Bairro Negro.
Recordo as inúmeras viagens que fiz ao Porto, com o Carlos Mire Dores para incentivar o movimento associativo liceal nesta cidade. Hospedávamo-nos na casa do pai Barrias, que morava perto da sede da PIDE no Porto, e que acolhia todos os estudantes “associativos” que lhe batiam à porta. Lembro-me de alguns dos membros da Pró Associação do Porto: José Mário Branco, Milice, Isabel Alves Costa, etc….
Em Coimbra, onde a tarefa foi atribuida a Ruy D’Espinay, a acção era mais difícil porque os estudantes liceais, apelidados na gíria académica de “bichos”, não podiam, pela praxe, sair à rua durante a noite, o que dificultava as nossas reuniões. Imagine – se como odiávamos a praxe coimbrã!
A ideia de um movimento associativo liceal que afrontava o bastião da Mocidade Portuguesa, visto que já tinham perdido toda a influência nas Universidades - tinha de se impor no convívio com os colegas universitários, que numa sociedade anquilosada e retrógrada não via com bons olhos “os putos” a opinarem.
Fui presidente durante um ano e dirigi a mesa que, em Outubro de 1961, elegeu a nova direcção numa assembleia, muito concorrida, na Associação do Técnico. A esta eleição concorreram duas listas, uma encabeçada pela Teresa Tito Morais e outra pelo Ruben de Carvalho, com o apoio do Saldanha Sanches. Ganhou a primeira com uma votação esmagadora.
Na greve de 62, a pró associação dos liceus tinha o estatuto de observador nas RIAs, o que não impediu a grande agitação feita nos liceus por todo o país e a participação nas manifestações estudantis.
O fascismo odiava todo o movimento associativo quer de trabalhadores quer o de estudantes, por isso as tentativas de ilegalização destes movimentos foram uma constante durante o “ Estado Novo”.
A PIDE tentava sempre assimilar a comissão pró associação dos liceus com o Partido Comunista. Quando fui chamado à polícia, fui acusado de pertencer às comissões pró associações (Medicina também era pró associação). Contudo, o interrogatório focava apenas aspectos e nomes de estudantes liceais.
Na ficha da PIDE de Teresa Tito de Morais está escrito, na primeira observação, que foi denunciada por pertencer à Comissão Pró Associação dos Liceus.
Ontem como hoje, a participação dos alunos no governo das escolas - uma verdadeira educação cívica - é a vacina contra a formação de cidadãos apáticos e que aceitam todos os desmandos. Como dizia António Sérgio: -“ a escola autocrática forma cidadãos passivos que possibilitam a corrupção administrativa”.
A Pró Associação dos Liceus conseguiu os seus objectivos iniciais. Foi uma escola de exercício democrático e de cidadania, apesar da PIDE e das vagas de repressão que se abateram sobre ela. A maioria daqueles que pertenceram à sua organização vieram a ser cidadãos honestos e amantes da liberdade, independentemente dos caminhos que seguiram.
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