quinta-feira, 27 de maio de 2010

HOMENAGEM A ABILIO MENDES


HOMENAGEM ABILIO DA COSTA MENDES



A Câmara Municipal de Lisboa vai atribuir o nome, Abílio Mendes, a uma rua situada no Alto dos Moinhos, numa sessão que terá lugar no próximo dia 5 de Junho. A tribuna ficará colocada em frente ao Hospital dos Lusíadas (ao lado do quiosque)

A sessão será presidida pela Senhora Vereadora da Cultura, Drª Catarina Vaz Pinto, seguindo-se um pequeno convívio no auditório do Hospital dos Lusíadas, que foi gentilmente cedido pelo seu Conselho de Administração.

Espero encontrar, no sábado, muitos amigos.

O quadro com a caricatura  esteve sempre  pendurado na parede do seu escritório. Os versos inscritos  foram sempre um guia para mim e para os meus irmãos. Hoje, o quadro está no meu escritório.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Economia é uma ciência?

Texto retirado de Carta Maior

O mais que isto/É Jesus Cristo/Que não sabia nada de finanças/nem consta que tivesse biblioteca
F. Pessoa




A crise financeira internacional provocada nos States e que se globalizou, ferindo a zona Euro no seu locus minor: a Grécia, é por muitos analistas, descrita como se tratasse de uma epidemia.
Por exemplo, a situação na Grécia já foi comparada a um furúnculo, que não tendo sido lancetado ou extraído em devida altura, havendo o risco de desenvolver uma septicemia que atingisse Portugal e Espanha e mais tarde os outros dos chamados PIIGS, (a sigla é inglesa e não espanhola como disse em cima Marshall Auerbak, aliás só os ingleses são tão simpáticos!)
Assim, nós estamos em risco grave de infecção generalizada no sangue, sem nos prescreverem o antibiótico adequado.
Como não sou economista, “nem percebo nada de finanças e nem tenho uma grande biblioteca”, só posso constatar que a crise foi provocada por economistas seguidores de Milton Friedman, prémio Nobel em 1976 e prolongada por treze outros seguidores, galardoados também pela Academia Sueca que arrumaram a um canto os Keinesianos.
No nosso rectângulo passa-se o mesmo, economistas que saltam de Marx para Friedman, mas todos com responsabilidade nos últimos anos de governação do país.
Ultimamente num simulacro de uma conferência médica, estiveram onze reunidos em Belém (10 +1) mas nenhuma terapêutica para o mal, saiu do conciliábulo.
O que ouvimos, propor, é a destruição da segurança social e de todas as conquistas dos trabalhadores portugueses e europeus.
O perigo é que esta queda é a queda intelectual de quem nos governa todos detentores das “ciências económicas”.
Imaginem o que aconteceria se agora, em pleno século XXI, se descobrisse que Pasteur, Lister e Koch, os três fundadores da Medicina Moderna estavam errados.

sábado, 15 de maio de 2010

OS ESTRANGEIRADOS

O País sempre foi padrasto para aqueles que, por uma ou outra razão, viveram no estrangeiro.

Hoje encontrei mais uma pessoa que tem os dois filhos licenciados a trabalhar no estrangeiro. Disse-lhe que até era bom para eles, viam outros mundos, abriam-se-lhe novos horizontes, levavam um banho de modernidade e cultura, etc etc... Mas não convenci a triste senhora, que assim não via os seus netos crescerem com a frequência que desejava. Mas o seu argumento mais forte foi: - e depois? o regresso? Será que não fazem falta ao país?

Estes dois irmãos, que eu vi pequeninos no consultório, são hoje economistas com mestrados feitos em Portugal e um está no Banco Mundial em Nova Iorque e a outra em Londres no FMI, segundo percebi. São, pelo menos, seis jovens portugueses que eu conheço a trabalhar nestas instituições internacionais.

Mas há muitos mais, e cada vez, jovens licenciados impedidos de trabalhar no nosso país devido aos lobbies instituídos pelas diversas corporações que têm de partir para o estrangeiro.

A situação dos estudantes de medicina no estrangeiro, que conheço melhor, dá razão a esta avó: o regresso vai ser difícil.

Devido ao numerus clausus, nas faculdades de medicina, inúmeros jovens estão a tirar este curso no estrangeiro, espalhados por Inglaterra, Espanha, República Checa. Só em Pilsen estudam cerca de 150. Como está mais que provado a relação entre altas classificações no curso liceal e bons médicos não é directamente proporcional.

A Ordem dos Médicos, com o apoio do Ministério, já veio alertar que quando estes estudantes regressarem só podem concorrer às vagas de especialidade que não foram preenchidas, o que quer dizer que primeiro escolhem os nacionais residentes e só depois os estrangeirados.

Isto num país que diz ter falta de médicos, e que tão maltrata os médicos estrangeiros, maltrata agora também os seus nacionais formados noutros países.

Habilmente, a Ordem ladeou as normas europeias e instituiu um exame de “comunicação” para todos estes médicos, havendo a possibilidade de os impedir de exercer a profissão em Portugal por razões linguísticas. Contam as más-línguas que num destes exames foi reprovado um estudante açoriano, tendo sido obrigado a atrasar a entrada na vida profissional.

Assistimos agora também à fuga dos médicos dentistas recém formados, principalmente para Inglaterra, devido a um lobby vergonhoso de um grupo de dentistas residentes que impedem a instalação dos novos, proibindo-os de contratar convenções com as seguradoras.

Ainda me lembro da Embaixada dos Estados Unidos recrutar médicos na Faculdade de Medicina de Lausana na época da caça aos cérebros promovida por este país.

Mas o nosso país sempre tratou mal aqueles seus filhos que se formaram noutros países, pobre pequeno país, de mentalidades tacanhas e invejosas.

Vejamos o que aconteceu ao longo da nossa História!

“Estrangeirados era um nome pejorativo que era dado em Portugal aos intelectuais portugueses dos finais do século XVII e particularmente no século XVIII, o século do Iluminismo, que tinham vivido no norte da Europa ou que tinham tido contacto com novas ciências, desconhecidas em Portugal e que por terem tomado contacto com uma realidade estrangeira mais "moderna" (liberdade de pensamento, revolução científica, secularismo, democracia, nascer do capitalismo) eram desprezados por sectores influentes da sociedade portuguesa, católica conservadora, autocrática, que ainda menosprezava as ideias da Europa protestante”, segundo a Wilkipedia

Um dos mais conhecidos foi Luís António Verney (1713- 1792), autor do livro “ O Verdadeiro Método de Estudar”.

A pedido do rei D. João V, Verney inicia a sua colaboração com o processo de Reforma Pedagógica de Portugal, contribuindo inquestionavelmente para uma aproximação profícua com os ventos do progresso cultural que animavam os espíritos iluministas dos europeus mais progressistas. Devido a problemas de saúde e, principalmente, devido a incompreensões por parte dos seus compatriotas, nomeadamente os cortesãos e o Marquês de Pombal, parte definitivamente para Roma, onde vive até ao fim dos seus dias. (Wikipedia)

A razão desta prosa deve-se ao tratamento que ainda se faz ao acolhimento dos emigrantes.

O emigrante português em geral é apenas visto como um motivo de receitas e o seu regresso e integração são mesmo desaconselhados.

Nem todos os emigrantes são os da “valise de cartão”, isto sem nenhum sentido pejorativo, e aqui presto-lhes homenagem e ao seu sofrimento nos vários “bidonvilles” das cidades onde ajudaram a construir o futuro desses países.

Quero aqui referir-me aos intelectuais, descendentes mais directos de António Verney, aqueles que os outros países abrem os braços, naquilo que já foi chamado a caça aos cérebros.

A implantação do fascismo em Portugal levou muitos intelectuais a ter de sair do país, o número dava para encher várias páginas.

Os exilados começam logo a seguir ao inicio do “Estado Novo”, com membros do findo Partido Democrático que fundam em Paris a Liga da Defesa da República juntamente com Álvaro de Castro, José Domingues dos Santos, Jaime Cortesão e António Sérgio.

Alguns destes morreram no exílio, como Afonso Costa, outros regressaram a Portugal, tendo Jaime Cortesão participado activamente na Guerra Civil de Espanha com o grupo Buda.

Na Guerra Civil espanhola distingue-se Emídio Guerreiro (1899 a 2005), professor de Matemática no Porto. Combateu nas brigadas internacionais, como muitos portugueses, e depois no “maquis” em França, leccionou Matemática em Paris. Regressou no 25 de Abril e aderiu ao PPD.

A expulsão, de uma assentada, de 21 professores com famigerado decreto 35 317 foi a grande machadada que o fascismo deu na intelectualidade portuguesa e levou a que muitos tivessem de emigrar.

Entre estes foram o caso de alguns do designado núcleo da Matemática, Física e Química, como Ruy Luís Gomes, que foi docente numa universidade na Argentina e na Universidade de Pernambuco, no Recife. Nesta universidade leccionaram os portugueses: José Morgado, Alfredo Pereira Gomes e Manuel Zaluar Nunes. José Morgado só em 1979 foi reintegrado como Professor Catedrático na Universidade do Porto. Aniceto Monteiro leccionou no Brasil e Argentina. Todos regressaram a Portugal depois do 25 de Abril e as Universidades portuguesas reconheceram os seus valores. Mas por exemplo Aniceto Monteiro, segundo me contaram familiares, ficou muito entristecido com o acolhimento na sua Pátria e regressou à sua Universidade na Argentina, onde veio a morrer. Manuel Valadares, um dos pioneiros portugueses em Física Atómica e Nuclear, ficou a viver e a leccionar em França. Rémy Freire, outro do grupo das matemáticas, leccionou em Curitiba, Brasil. Em abono da verdade, apesar de com alguns atrasos, todos acabaram por ser reconhecidos após o 25 de Abril e condecorados. Em contrapartida, a lista de exilados de outras áreas, como Rodrigues Lapa, é enorme e muitos desses ficaram esquecidos.

A reintegração, a todos os títulos justa, de muitos destes Professores Universitários deveu-se ao facto da Assembleia da República ter votado uma lei que reintegrava na função pública todos aqueles que tinham sido expulsos por motivos políticos. Ou este não fosse o país das leis! Mas mesmo com leis as corporações não foram vencidas.

Nessa lei ficava de fora a grande maioria dos exilados dos anos 60 e 70. Jovens universitários por perseguição política ou por recusarem-se a combater na guerra de África não podiam ter sido funcionários públicos.

A estes exilados, o Estado, estrutura anquilosada e reaccionária, e as corporações levantaram todos os entraves à admissão na função pública.

Como anedota, que não o é, conto a história de um exilado que fugiu de Portugal perseguido pela PIDE e que voltou no 25 de Abril de 74, passados 15 anos. Tinha trabalhado na Suíça, Bélgica e depois Brasil. Quando da aplicação da dita lei foi reintegrado no mesmo lugar administrativo de um hospital psiquiátrico, na mesma mesa e na mesma cadeira que abandonara 15 anos antes. Ele dizia, com graça, que até os malucos eram os mesmos.

Por questão de pudor não irei aqui falar do meu caso. Durante a minha transcrição do caminho de Salomão - que por agora parou em Figueira de Castelo Rodrigo - acabarei por abordar o meu regresso porque, ao contrário do Elefante, resisti ao frio dos Alpes e voltei a Portugal.

Cito apenas os casos que se passaram com médicos portugueses exilados que regressaram ao país no 25 de Abril.

À excepção, diga-se em abono da verdade, do Serviço de Pediatria de Coimbra, que acolheu o António Torrado, já falecido, reconhecendo o excelente trabalho realizado em prol da assistência às crianças a nível nacional. O Torrado contou - me que tinha primeiro colocado os seus préstimos em Lisboa, cidade de onde era oriundo e onde se situava a Escola Médica que o formou, mas os directores dos diversos serviços de Pediatria da capital prescindiram do seu currículo como pediatra na Suíça e nos Estados Unidos. Surge-lhe então um convite de Coimbra, penso que em muito devido ao saneamento que tinha sido feito ao Professor de Pediatria Santos Bessa, que acumulava à data com o lugar de deputado à Assembleia Nacional, e também à abertura de espírito de Professor Carmona da Mota, regressado na altura de Inglaterra. Mais tarde foram para Coimbra outro ex exilados médicos como Luís Lemos, Gabriel Tamagnini e Henrique Delgado Martins.

Este último foi o primeiro ortopedista infantil em Coimbra e no período em que lá trabalhou formou vários ortopedistas, entre eles Jorge Seabra, figura de destaque nacional na ortopedia pediátrica. Quando abriram vagas para ortopedia, este médico ortopedista pela Federação Médica Helvética, que trabalhou em grandes centros, considerados internacionalmente, em França, Inglaterra e no Brasil, foi obrigado a repetir o internato de ortopedia. Rompeu com os Hospitais de Coimbra e veio para Lisboa, para o Hospital de São José, onde terminou a carreira como Director do Serviço 3 de Ortopedia. Já reformado foi homenageado num Congresso de Ortopedia em Portugal.

Outro médico Neurologista, formado na Suíça, teve de passar por um célebre concurso no Porto, onde obteve a classificação de dez valores. Um dos membros do Júri deu-lhe zero, obrigando o outro a dar 20 valores.

A “burrocracia“ ou a inveja dos seus e meus pares entravavam sempre, tivesse o exilado sido formado no Canadá, na Suíça, na Suécia ou na Checoslováquia, etc.. Os seus curricula não eram reconhecidos, obrigando-os a repetir a formação em Portugal!

Neste caso estão Pedro Lemos, cirurgião vascular, e Victor Branco, anestesista, médicos a exercer no Canadá que tiveram que regressar a esse país que os tinha acolhido. António Barbosa (já falecido), formado em urologia pela Faculdade de Medicina de Praga, teve de repetir toda a formação em Lisboa e terminou a carreira como chefe de serviço.

Nos exilados que estudaram Medicina isto foi recorrente e aconteceu em muitos casos, contrastando com outros das “chamadas boas famílias” da Medicina portuguesa, que após dez anos nos States são recebidos com tapete vermelho e clarins com bilhete directo para Professor e Director de Serviço.

Muitos médicos e outros profissionais ficaram no estrangeiro. Para quem ainda não conhece, aconselho a leitura do livro “À Espera de Godinho“, escrito por quatro exilados que ficaram na Bélgica, onde todos atingiram o topo nas suas carreiras.

No outro dia contaram-me uma situação caricata passada na altura da ministra Leonor Beleza. Para se aconselhar, Leonor Beleza teria convidado um especialista sueco em Psiquiatria. A Suécia enviou-lhe um médico português, refractário da guerra colonial, que na Suécia chegou ao topo da carreira.

Alguns, agora reformados, são finalmente convidados como peritos em diversos campos da medicina como palestrantes. É óbvio que agora não fazem sombra a ninguém e assim podem ser bem recebidos pelas Faculdades.

Nos anos 60, os Estados Unidos foram acusados de praticarem a caça de cérebros. Portugal tem tido uma política contrária, a expulsão destes.

A causa, no meu ponto de vista, é a defesa corporativa mesquinha e invejosa que este pequeno rectângulo não se consegue ver livre e assim tem sido desde o século XVII.

Os exilados regressaram na sua maioria no 25 de Abril de 1974 com o sonho de transformar este país num país melhor. Foi pena que muitos tivessem tido de voltar para trás. Prosseguindo esta politica, a maioria dos novos estrangeirados não irá regressar, direi mais, os melhores ficarão nesses países que lhes deram a oportunidade de se formarem como médicos.

domingo, 18 de abril de 2010

CANTINA

Recepção aos caloiros de Medicina
Eu a discursar na Cantina 1963


O CONVIVIO OU A CANTINA VELHA

DIA DO ESTUDANTE 24 DE MARÇO, novo jantar de comemoração, 38 anos passados da greve de 1962.
Este ano o jantar foi na Cantina velha, como disse o meu amigo Artur Pinto, até a Cantina está velha.

Como sempre nestes encontros de memória, que durante muito tempo detestei e agora com a idade a avançar vou aderindo, revi muitos amigos nas brumas da memória, há anos.

Momentos de recordações, lembrei-me da inauguração da Cantina, ou melhor do Convívio, e para refrescar as lembranças nada melhor que recorrer a uma informação dada por um bufo à PIDE nessa noite de inauguração. Para onde fossemos havia sempre um bufo, que vendia as suas informações à Policia por dez reis de mel coado, que miséria!

Hoje em dia espalha-se a ideia que a PIDE era uma polícia muito eficiente, a minha opinião nunca mudou, que esta como outras policiais políticas sempre funcionou à custa dos informadores.

Mas vamos ao que interessa, a tal informação histórica: INFORMAÇÃO Nº 26/63, datada de 29-1-63 e com um visto de 31-1-63.

“… No passado sábado, dia 26, desloquei-me ao “Convívio” da Cidade Universitária, para assistir ao Baile dos Alunos de Medicina e Direito, o qual teve início cerca das 23h00. (Os bufos também dançam)

À entrada fui surpreendido por dois indivíduos, segundo julgo estudantes, que distribuíam o “Comunicado nº 15“, sem qualquer receio de serem vistos. Tal distribuição continuou enquanto se dançava e em pleno recinto.” (IMAGINE-SE!)

Em seguida o relatório refere-se ás manifestações estudantis «… gritando em coro efe,erre e FRa….Hurra!...» Aí o Reitor interrompe e continua o relato assim: «….Meus Senhores! Cumpre-me interromper, para vos dizer que autorizei a realização desta festa………porque me prometeram que a única finalidade…era divertirem-se…….Pois bem verifico que isto não é mais uma festa mas sim uma reunião com uma única finalidade: “Actividades subversivas”…»

(Já adivinharam quem era o Reitor, exacto o PAULO CUNHA)

Mas a eloquência do Bufo, vai melhorando com o decorrer do texto: «…Estas afirmações foram recebidas com assobios e frases indignas de indivíduos com cultura geral, como o são JORGE SAMPAIO LUCENA, JOSÉ MARIA SANTOS, ALBERTO TEIXEIRA, etc.» O primeiro nome, é uma mistura entre Jorge Sampaio e Manuel Lucena, o Alberto Teixeira, está anotado a tinta, na margem do papel Teixeira Ribeiro e o José Maria Santos não consigo identificar.

O Magnifico Reitor continua a falar dizendo que conseguiu com o Ministro da Educação libertar três estudantes dos quatro presos, «…o outro MEDEIROS FERREIRA, continuou, visto não estar preso apenas como dirigente associativo mas sim por actividades contra a segurança do Estado, o que já estava provado pelas Autoridades competentes»

Vejam os mais novos a naturalidade com que um Reitor afirma, segundo palavra de bufo, que o Medeiros Ferreira não estava preso apenas como dirigente associativo, como se fosse o mais normal, mesmo naquela época, andar por aí a prender dirigentes associativos.

O relatório continua transcrevendo o discurso do Paulo Cunha: «…”Há dias, acompanhado por um professor universitário argentino, entrei no Bar do “Convívio”; os estudantes não só não cumprimentaram, como nem sequer se levantaram, demonstrando assim, perante um desconhecido, a falta de educação e respeito pelo Reitor, o que não é digno de estudantes.”
Tudo isto que o Reitor estava a apontar-lhes, era recebido com assobios e urros, perante milhares de pessoas.»

O bufo depois de comunicar que os dirigentes associativos pediram para usar da palavra ao que o Reitor acedeu, escreve: «um deles, segundo me parece o ABÍLIO TEIXEIRA MENDES*, quintanista de Medicina, não só desmentiu em público o seu Reitor como disse ainda que concordava em absoluto com a abertura do Museu (prometido por Paulo Cunha) e que, para isso, ele próprio iria colaborar na sua qualidade de aluno, mas que, nunca era de esquecer a colocação ali do Decreto-Lei 44.632. Nesta altura o Reitor interrompeu, tendo este aluno terminado o seu discurso, que eu considero “sujo e indigno”, dizendo que a Universidade dependia deles e que, para a vida académica, eram necessárias duas coisas: a autonomia e a autodeterminação…….
…Falou ainda o estudante JORGE SAMPAIO LUCENA (e o bufo insiste, mas temos que o desculpar pois o Jorge ainda não tinha sido eleito Presidente da República), do 5º ano de Direito, que não só tornou a desmentir o Reitor como, depois deste o ter interrompido, disse que um dos princípios da democracia era que não se interrompia qualquer orador quando proferia o seu discurso. Disse ainda que concordava em absoluto com a ideia do Reitor esclarecer o público por intermédio da Imprensa pois eles tanto o têm tentado mas a “suja Censura” sempre o tem evitado.»

O relatório do informador termina aqui, com a pressa de mostrar serviço, não ficou para o baile, nem para a eleição da Miss Caloira.

Assim, não pôde informar que o Reitor – Palhaço não resistiu ao convite da Miss Caloira de Medicina e veio dançar, comer e beber para o meio dos estudantes em festa.

O que levou alguns de nós, mais radicais, a propor o seu rapto, o que nunca sucedeu.

Os “soixantards“ meus amigos devem lembrar-se que terminámos todos a cantar o “hino da Cantina”:
“ Passa a Benard**,/ Passa e a barretaça vai enfiar/ A rapaziada come / fica com fome tem de pagar/ e se a malta faz barulho por ter entulho à refeição/o Reitor não acha graça e ameaça fechar a Associação.
Uma cantina para estudantes/ isso era bom mas era dantes/ agora a malta se quer comer/ tem de pagar, sem refilar e a Benard a encher.”
(Música da marcha do Bairro Alto, vencedora em 62 das marchas populares, e letra de JL Boaventura e A. Mendes)

Tenho que admitir que à parte alguns erros o relatório retratou a realidade daquele dia.

O Reitor tinha prometido aos dirigentes associativos da Universidade Clássica, Medicina, Direito e Letras, a abertura do Convívio e de um Museu. Os dirigentes devem ter exigido a libertação dos colegas presos entre os quais Medeiros Ferreira.

Foi decidido, portanto, nesse ano realizar em conjunto o Baile de recepção aos caloiros de Medicina e Direito e era com este tipo de manifestações que se trazia muitos estudantes à luta contra a Ditadura; por isso o ódio que tinham a todas as formas de movimentos associativos.

Se a memória não me falha foi em 1963 que na inauguração do ano lectivo esteve presente o Presidente da República, Américo Tomás. Um grupo de estudantes, entre os quais eu, numa atitude quixotesca, virou as costas ao presidente, o que valeu uma tarde passada na António Maria Cardoso, onde conheci o Chefe Rego e o Sub-inspector Passo, os dois seguramente vieram a auferir, mais tarde, pensões de reforma por serviços prestados à Nação.

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*nesta data o Abílio estava no Porto, por ter sido expulso da Universidade de Lisboa por participação na greve de 1962

**A pastelaria Benard era a concessionária da Cantina, contra a vontade das Associações de estudantes da Universidade Clássica que se tinha proposto fazer a sua gestão

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Centro de Saude de Lisboa

  A História do Centro de Saúde de Lisboa está descrita neste artigo, da minha autoria, publicado na Acta Pediátrica Portuguesa. Por ter sido uma experiência relevante, que foi apagada dos arquivos da DGSaúde, aconselho vivamente a sua leitura.
http://www.spp.pt/Userfiles/File/App/Artigos/17/20100115185619_Hist%20Medicina_Mendes%20JT_40(4).pdf

domingo, 21 de março de 2010

TERRAMOTO

HAITI




Faculdade de Medicina, Lausana, Suíça, verão de 1967, exame de Histologia e Embriologia: “ Entrez Monsieur Mendes, vous êtes portugais n’est ce pas? Dizia M.Bucher, o Professor da disciplina, com o seu típico sotaque suíço alemão. Depois prosseguiu: - No seu país o Ditador é médico, não é? Ah é verdade é formado em Direito, médico é o do país do senhor que o precedeu no exame.

Era o Jean Paul, estudante haitiano, e o Ditador a que o Professor se referia era o não menos sanguinário Papa Doc, François Duvalier, fantoche dos Estados Unidos que governava a ilha desde 1957 e que na década de sessenta exterminou toda a oposição e tornou-se tristemente célebre pelos famosos tontons macoutes (bichos papões) que espalhavam o terror em toda a ilha.

No meu curso, havia três estudantes do Haiti, dois rapazes e uma rapariga, e foi depois deste exame que os conheci melhor. Tínhamos em comum ser oriundos de dois países com ditadores, um com o curso de Medicina e outro com o curso de Direito, mas bem distantes, um nas Caraíbas e outro na Europa.

A história deste país nem sempre foi de desgraças, o Haiti que actualmente, ocupa parte da ilha de São Domingos, a primeira ilha da América onde atracou Cristóvão Colombo na sua viagem ao serviço dos Reis Católicos, regista tempos heróicos no sec. XIX, quando se torna a primeira república negra do Mundo.

País de escravos negros revolta-se em 1803 contra a França, potência colonial, e derrota as tropas de Napoleão Bonaparte ocupadas em guerras na Europa, esta humilhação custou-lhe cara, apesar disso, o Congresso de Viena, em 1815, formaliza a derrota da França e determina a extinção do tráfico de escravos, embora limitada a norte do Equador.

A Espanha invade a ilha em 1871, como consequência esta fica dividida em dois países: o Haiti e a actual República Dominicana. A Inglaterra apodera-se deste estado em 1877, por sua vez os Estados Unidos invadiram três vezes o Haiti: 1914, 1915 e novamente em 1969.

República de escravos livres, assente nos ideais da Revolução Francesa, acolhe Simão Bolívar, como refugiado e ajuda-o, quando foi derrotado pelos espanhóis, na sua luta pela independência.

O governo, deste país entregou-lhe navios, armas e soldados, com uma única condição, de que Bolívar libertasse os escravos em cada país que se tornasse independente do jugo colonial espanhol.

Em 1915 o Haiti é invadido pelos Estados Unidos, consequência da politica baseada na Doutrina Monroe: “ a América para os americanos” que propugnava a supremacia dos EUA sobre todo o continente. Tal política, na prática, traduziu-se na intervenção sistemática nos países da América Latina, tendo sido apelidada por Theodore Roosevelt de “ big stick”.

Os norte-americanos só deixaram este país em 1934, ou melhor só se retiraram quando cobraram as dívidas do City Bank e aboliram o artigo constitucional haitiano, que proibia vender plantações aos estrangeiros e voltaram a invadi-lo em 1969.

Cada invasão significa um novo terramoto com saques, ruínas, destruição e morte. As invasões isoladas não foram suficientes para exterminar o Haiti e nos intervalos o povo foi vítima de duas ditaduras sanguinárias: a do Papa Doc, o médico François Duvalier (1957 a 1971) e a do seu filho Jean Claude Duvalier apelidado de Baby Doc (1971 a 1986)

A população do Haiti são 9 milhões de habitantes, mas as imagens das televisões só nos mostrou o povo sacrificado, os assaltos selvagens aos bens que eram distribuídos pela ajuda internacional, a indiferença aparente perante os mortos, o acumular de cadáveres.

A tradição racista e xenófoba imperou nos media ou este não fosse o país de escravos negros que humilhou a Europa vencendo as tropas de Napoleão, tropas essas que por exemplo, obrigaram a nossa família real a abandonar Portugal e a refugiar-se no Brasil, ou este não fosse o país das religiões africanas do vudu que a Igreja Católica e os “ocidentais” tão hedionda nos apresentaram através de livros e de filmes medíocres.

Onde estavam os médicos haitianos, os professores, os engenheiros e outros profissionais ? Gostaria de os ter visto e ouvido falar do futuro, da reconstrução e da ajuda internacional necessária, do seu país independente desde 1803.

A imprensa internacional mostrou além das imagens violentas e comoventes de sobreviventes debaixo de destroços, de mães em transe aconchegando filhos mortos no seu colo, apresentou também ao Mundo um país, um Estado falido, uma nação desgovernada por completo.

A mensagem passada, à opinião pública, foi a de um país incapaz de se organizar e se governar por si só, em resumo ser Independente.

Que futuro espera este país? Poderá respeitar os velhos ideais da sua história ou estará condenado à subjugação de uma grande potência e acabar como país independente, tornando-se um protectorado de qualquer grande potência.

A esperança nasceu ao ler o texto do Professor de antropologia brasileiro, Omar Ribeiro Thomaz, que estava no Haiti a 12 de Janeiro e a tudo assistiu.

Texto que aconselho a ler. Aí ficamos a saber que a ajuda internacional chegou muito tarde e como ele diz, os membros da ONU ajudavam os membros da ONU e os haitianos ajudavam os haitianos. Os feridos foram assistidos por médicos, enfermeiros e freiras haitianas, seguramente os meus ex colegas estariam lá na primeira ajuda. As estruturas “primitivas” começaram a funcionar, os pequenos comerciantes, os chamados, madanm sara, expuseram nas ruas as suas bancas de víveres e água, sem especulações monetárias. Segundo este antropólogo os supermercados é que ruíram e foram assaltados por gente com fome, ao contrário dos pequenos comerciantes que não foram atacados nem tiveram de se defender com armas, como os soldados da ONU, estas estruturas nunca foram utilizadas pelas organizações de ajuda humanitária.

As imagens televisivas mostraram-nos também um povo crente, educado na influência e confluência das religiões Vudu e Católica, pedindo a graça de Deus. Quando alguém era salvo in extremis, a palavra milagre era pronunciada à exaustão.

A morte de 200 000 pessoas e a destruição total de Port-au-Prince, não foi por vontade de Deus. Há mais de 200 anos, quando em 1755, o terramoto, o fogo e depois o tsunami, destruiu Lisboa e matou cerca de 20 000 pessoas, horrorizou a Europa e perturbou alguns filósofos, na suas crenças religiosas.

Voltaire, no seu célebre poema sobre o desastre de Lisboa interrogava-se: “ Direz – vous “C’est l’effet des éternelles lois/ Qui d’un Dieu libre et bon nécessitent le choix » ?/Direz – vous, en voyant cet amas de victimes:/ «Dieu s’est vengé, leur mort est le prix de leur crime» ?/ Quel crime, quelle faute ont commis ces enfants/Sur le sein maternel écrasés et sanglants ?»

O sociólogo Zygmunt Bauman define esta data, 1755, como a gota de água que mudou toda uma concepção do Mundo fundada na Providência divina.

Tenho a esperança que depois do desastre que matou 200.000 pessoas e destruiu metade do país, os haitianos reconstruam a sua terra livre de tabus e construam uma sociedade livre de ingerências estrangeiras. O povo tem a memória da sua história e, libertado das crenças, pode deixar de ser o país mais pobre do Planeta.