sábado, 12 de junho de 2010
Discurso de José Fernandes Fafe
Que posso eu dizer do Dr. Abílio Mendes? Umas memórias caseiras...
Ele era médico dos meus filhos, e daí, muito falado em casa. Foi o que aconselhou o Dr. Abílio, respondia-me a minha Mulher. Foi o que mandou o Dr. Abílio, calava-me a minha filha. Dr. Abílio dixit, magister dixit ... O argumento de Autoridade. Submeti-me sempre. Explico porquê.
Minha Mulher tinha no Dr. Abílio Mendes uma confiança total. Minha filha, que foi sempre bem disposta, quando o via ficava ainda melhor disposta. O meu filho, uma vez, acabara o Carlos Mendes de ganhar um Festival da Canção, entrou pelo consultório do Dr. Abílio, a cantar: O Verão já terminou/foi um sonho que findou... - E o dr. Abílio?, perguntei à minha Mulher. - Riu-se a bom rir. E ele tinha um riso bom, o dr. Abílio Mendes.
Como se chama aquele livro do Hemingwai ... Paris é uma festa. Os meus filhos, irem ao consultório do dr. Abílio, era para eles uma festa.
Já fiz, de uma forma pouco canónica, talvez, mas eu não sei quais são os cânones...- canónico elogio.
Infundia a maior confiança na sua competência profissional. Estabelecia com as crianças uma imediata relação simpática, que lhe dava as melhores condições de observação clínica. Ergo : um pediatra excepcional.
O cidadão?
Cidadão: o que se preocupa com o interesse geral, e está treinado para reconhecer as situações em que deve sobrepor esse interesse a qualquer outro, incluindo o pessoal.
Do meu conhecimento directo do dr. Abílio Mendes e pelo que me dizem dele, retiro que faz jus ao grau republicanamente sagrado, de cidadão.
Ele pertenceu à vaga geracional que trouxe António Macedo, os Cal Brandão, José Magalhães Godinho, Raul Rego ..., à nossa " longa marcha ", 1926-1974, quarenta e oito anos, quantos ficaram pelo caminho?, mortos, e os feridos, os presos, os torturados, os marginalizados,,,
Isto sem martirológico, que tende a levar a uma espécie de auto-compaixão que não aprecio. Estamos cientes de que a nossa " longa marcha" é apenas um episódio local de uma longuíssima marcha, que vem desde... a origem do Homem, e vai até... - se dissemos " origem do homem", temos de dizer até ao fim do Homem...Porque isto começou sem nós e com certeza acabará sem nós.
Para não falar das informações que nos chegam sobre o post-humano que os geneticistas nos estão a preparar...
Mas eu não vim aqui para incutir mais pessimismo às pessoas...Adiante
Adiante, aonde? Um riso de criança... Não ouvem? São as crianças de que o dr. Abílio Mendes foi médico, que mandaram o seu riso a esta homenagem. Dançam à roda da evocação que estamos a fazer dele, álacres cintilações de risos de crianças.
E o melhor de tudo, não são ( o Fernando Pessoa enganou-se ) as crianças, mas o riso das crianças.
Já ganhámos o dia
HOMENAGEM A ABILIO MENDES
HOMENAGEM A ABILIO MENDES
BOM DIA a todos.
Queria, em primeiro lugar, agradecer à Câmara Municipal de Lisboa, na pessoa da Drª Catarina Vaz Pinto, Vereadora da Cultura, a linda homenagem ao meu pai que se está a realizar.
Drª Catarina peço-lhe que transmita os meus agradecimentos a toda a equipa da Câmara que trabalhou mais de perto neste projecto. Drªs Teresa Gil, Cristina Bento, Paula Levy, Patrícia Melo e Castro, Isménia Neves e Dr. António Oliveira.
Agradeço também as palavras do Grão Mestre Adjunto do Grande Oriente Lusitano, Dr. António Justino Ribeiro, que muito me sensibilizaram, assim como a mensagem amiga do Dr. Fernandes Fafe, amigo, diplomata e escritor.
Aproveito para enviar um muito obrigado ao Conselho de Administração do Hospital dos Lusíadas e em especial ao Dr. Nobre Leitão pela pronta cedência do auditório e da oferta do Porto de Honra.
Ao Dr. Pedro Grilo, grande impulsionador desta iniciativa, o meu enorme reconhecimento pelo carinho e empenhamento que pôs na realização deste evento, que sem ele não teria sido possível. Peço um grande aplauso.
“Last but not the least”, a todos os amigos que aqui se deslocaram solidarizando-se com esta homenagem, num sábado de manhã, a seguir a um feriado. A eles muito obrigado sobretudo aos que apesar da avançada idade cronológica, mas com uma eterna juventude, se deslocaram de Sever do Vouga, Caldas da Rainha, Évora e Algarve.
Os dados biográficos do meu pai estão bem transcritos na brochura que os serviços da Câmara editaram e que agora distribuíram.
Por isto não me vou alongar na vida do puericultor, que baseado no estudo da escola behaviorista e de Pavlov, criou um ensino de alimentação infantil próprio, que privilegiava, não só os nutrientes como a forma de comer, diferente das escolas académicas, nem do pedagogo no seu ensino continuado aos pais, baseado nas leituras dedicadas à Pedagogia Cientifica, à Escola Activa e aos Filósofos do socialismo. Nem ao tratamento do eczema atópico ou dos Angiomas.
Estas foram algumas das causas do sucesso da sua clínica, durante três gerações consecutivas.
Todos os presentes conheceram, de uma maneira ou de outra, o meu Pai, os consultórios da Travessa do Calado e depois da António Augusto de Aguiar, a figura da D. Odete … , a consulta na CNE e depois EDP, com a competência profissional da enfermeira Edite, E todos têm certamente inúmeras e gratas recordações.
No regresso da Suíça, fui trabalhar com o meu Pai e o meu irmão no consultório. Aprendi muito com eles, ensinaram - me aquilo que as Escolas Medicas não ensinam. Recordo que ele me dizia: Nunca olhes para o relógio durante a consulta, nós estamos a ser observados por toda a família e esse gesto é a maior falta de respeito pelo doente.
Conceitos, que hoje parecem ultrapassados, como a disponibilidade completa para os doentes e as suas famílias, ouvir, reflectir, ter tempo para perguntar, e estudar.
O sentido, que o medico está ao serviço da sua comunidade e deve estar preparado para cuidar das seus molestares e tratar os doentes e não apenas as doenças.
É por isto que a Medicina não pode ser um negócio, nem os hospitais geridos como as antigas fábricas, tão bem caracterizadas nos TEMPOS MODERNOS de Charlie Chaplin.
A atenção ao desenvolvimento da criança, numa visão holística da medicina, foi uma constante na sua clínica. Cito uma frase dum dos seus artigos de divulgação: “ … É, informados neste programa que sempre dizemos às Mães: Vale mais educar do que engordar”
As Faculdades têm de perceber que para o ensino da Medicina, as ciências humanas são tão importantes como as ciências naturais.
Os conceitos de liberdade e democracia que perfilhou, ainda adolescente, foi o legado que nos deixou a mim e ao meu irmão e que ambos tentamos transmitir aos nossos filhos e netos.
No centenário da República vem a propósito recordar uma história que ele contava, sobre Tomé de Barros Queiroz, que além de primeiro-ministro, da 1ª República, foi durante anos Presidente do Conselho de Administração dos Caminhos de Ferro de Lisboa. Um dia, fez a viagem Lisboa/ Porto em 3ª classe, perante o espanto do revisor que o reconheceu: “então o Senhor Presidente em 3 ª classe?” Ao que ele respondeu. “ Porquê existe 4ª?”
Nunca esqueci uma das muitas frases que ele nos dizia: “Não há nada melhor para uma pessoa que olhar-se todas as manhãs ao espelho e ficar satisfeito com o que vê”.
Na parede do escritório lá de casa havia um quadro, oferecido por um amigo, com a sua caricatura e uns versos, que diziam:
Democracia! Imortal! Nunca serás vencida!
Creio em ti, e esta crença é toda a minha fé!
Um ideal como o teu não cai nem se intimida
Enquanto um Abílio Mendes ainda restar com vida
Enquanto um filho teu ainda existir de pé!
E eu agora acrescento enquanto um neto ou um bisneto teu ainda existir de pé.
Convido agora a Drª Catarina Vaz Pinto e todos os presentes a dirigirem-se ao auditório do Hospital dos Lusíadas, onde se servirá um Porto de Honra seguido de um pequeno convívio.
Muito Obrigado!
quinta-feira, 10 de junho de 2010
Homenagem a Abílio Mendes
No dia 5 de Junho de 2010, foi inaugurada a Rua Abílio Mendes por decisão da comissão de toponomia da Câmara Municipal de Lisboa. O descerramento da placa esteve a cargo da vereadora da Cutura, Drª Catarina Vaz Pinto que acompanhada dos filhos, Jaime Mendes e Carlos Mendes, retiraram a bandeira que cobria a placa, ao toque do hino da Maria da Fonte da Câmara Municipal de Lisboa
A rua fica situada no Alto dos Moinhos, na freguesia de São Domingos de Benfica e passa a ter o nome da rua do Hospital dos Lusíadas. Ironia do destino de um homem a quem foi proibida a carreira hospitalar.
A evocação da figura do homenageado ficou a cargo do Grão Mestre Adjunto do Grande Oriente Lusitano, Dr António Justino Ribeiro, do diplomata e escritor, Dr. Fernandes Fafe, do filho, Jaime Teixeira Mendes e da vereadora para a Cultura da Câmara Municipal de Lisboa, Drª Catarina Vaz Pinto
Seguiu-se um cocktail, gentilmente oferecido pelo Conselho de Administração do Hospital dos Lusiadas, e de um convivio no auditório.
O neto, Francisco Mendes, apresentou a sessão, onde foram lidas cartas de amigos do Abílio Mendes que não conseguiram comparecer. O Dr. Ferraz de Abreu usou da palavra lembrando a acção do homenageado nos serviços médico-sociais, primeiro da Companhia Nacional de Electricidade, mais tarde EDP, seguido do Dr. Pedro Grilo, amigo e antigo cliente do consultório.
Seguiu-se um momento cultural com Jazzafari, com a interpretação do outro neto João, que cantou um bolero, um momemto de poesia por Joaquim Pessoa terminando com uma intervenção do filho Carlos Mendes cantando, o menino do bairro negro de Zeca Afonso.

A rua fica situada no Alto dos Moinhos, na freguesia de São Domingos de Benfica e passa a ter o nome da rua do Hospital dos Lusíadas. Ironia do destino de um homem a quem foi proibida a carreira hospitalar.
A evocação da figura do homenageado ficou a cargo do Grão Mestre Adjunto do Grande Oriente Lusitano, Dr António Justino Ribeiro, do diplomata e escritor, Dr. Fernandes Fafe, do filho, Jaime Teixeira Mendes e da vereadora para a Cultura da Câmara Municipal de Lisboa, Drª Catarina Vaz Pinto
Seguiu-se um cocktail, gentilmente oferecido pelo Conselho de Administração do Hospital dos Lusiadas, e de um convivio no auditório.
O neto, Francisco Mendes, apresentou a sessão, onde foram lidas cartas de amigos do Abílio Mendes que não conseguiram comparecer. O Dr. Ferraz de Abreu usou da palavra lembrando a acção do homenageado nos serviços médico-sociais, primeiro da Companhia Nacional de Electricidade, mais tarde EDP, seguido do Dr. Pedro Grilo, amigo e antigo cliente do consultório.
Seguiu-se um momento cultural com Jazzafari, com a interpretação do outro neto João, que cantou um bolero, um momemto de poesia por Joaquim Pessoa terminando com uma intervenção do filho Carlos Mendes cantando, o menino do bairro negro de Zeca Afonso.

quinta-feira, 3 de junho de 2010
Dia Mundial da Criança de Abílio Teixeira Mendes
Neste dia aconselho a leitura de um artigo escrito pelo meu saudoso irmão Abílio, nos anos idos de 1973 na Revista de Pediatria que foi reeditado no ano passado.
www.spp.pt/App/default.asp?IDE=16&offset=10
Editorial
Não poderia a Sociedade Portuguesa de Pediatria deixar de assinalar o Dia Mundial da Criança, convidando os colegas a meditar sobre o destino dos pequenos seres cujo desenvolvimento controlam, arrancando-os, não raras vezes, a uma morte precoce ou à invalidez total.
Publicado, originalmente, em separata na «Revista Portuguesa de Pediatria» Vol. 4, N 2, 1973.
www.spp.pt/App/default.asp?IDE=16&offset=10
Editorial
Não poderia a Sociedade Portuguesa de Pediatria deixar de assinalar o Dia Mundial da Criança, convidando os colegas a meditar sobre o destino dos pequenos seres cujo desenvolvimento controlam, arrancando-os, não raras vezes, a uma morte precoce ou à invalidez total.
Publicado, originalmente, em separata na «Revista Portuguesa de Pediatria» Vol. 4, N 2, 1973.
quinta-feira, 27 de maio de 2010
HOMENAGEM A ABILIO MENDES
HOMENAGEM ABILIO DA COSTA MENDES
A Câmara Municipal de Lisboa vai atribuir o nome, Abílio Mendes, a uma rua situada no Alto dos Moinhos, numa sessão que terá lugar no próximo dia 5 de Junho. A tribuna ficará colocada em frente ao Hospital dos Lusíadas (ao lado do quiosque)
A sessão será presidida pela Senhora Vereadora da Cultura, Drª Catarina Vaz Pinto, seguindo-se um pequeno convívio no auditório do Hospital dos Lusíadas, que foi gentilmente cedido pelo seu Conselho de Administração.
Espero encontrar, no sábado, muitos amigos.
O quadro com a caricatura esteve sempre pendurado na parede do seu escritório. Os versos inscritos foram sempre um guia para mim e para os meus irmãos. Hoje, o quadro está no meu escritório.
segunda-feira, 24 de maio de 2010
Economia é uma ciência?
Texto retirado de Carta Maior
O mais que isto/É Jesus Cristo/Que não sabia nada de finanças/nem consta que tivesse biblioteca
F. Pessoa
A crise financeira internacional provocada nos States e que se globalizou, ferindo a zona Euro no seu locus minor: a Grécia, é por muitos analistas, descrita como se tratasse de uma epidemia.
Por exemplo, a situação na Grécia já foi comparada a um furúnculo, que não tendo sido lancetado ou extraído em devida altura, havendo o risco de desenvolver uma septicemia que atingisse Portugal e Espanha e mais tarde os outros dos chamados PIIGS, (a sigla é inglesa e não espanhola como disse em cima Marshall Auerbak, aliás só os ingleses são tão simpáticos!)
Assim, nós estamos em risco grave de infecção generalizada no sangue, sem nos prescreverem o antibiótico adequado.
Como não sou economista, “nem percebo nada de finanças e nem tenho uma grande biblioteca”, só posso constatar que a crise foi provocada por economistas seguidores de Milton Friedman, prémio Nobel em 1976 e prolongada por treze outros seguidores, galardoados também pela Academia Sueca que arrumaram a um canto os Keinesianos.
No nosso rectângulo passa-se o mesmo, economistas que saltam de Marx para Friedman, mas todos com responsabilidade nos últimos anos de governação do país.
Ultimamente num simulacro de uma conferência médica, estiveram onze reunidos em Belém (10 +1) mas nenhuma terapêutica para o mal, saiu do conciliábulo.
O que ouvimos, propor, é a destruição da segurança social e de todas as conquistas dos trabalhadores portugueses e europeus.
O perigo é que esta queda é a queda intelectual de quem nos governa todos detentores das “ciências económicas”.
Imaginem o que aconteceria se agora, em pleno século XXI, se descobrisse que Pasteur, Lister e Koch, os três fundadores da Medicina Moderna estavam errados.
O mais que isto/É Jesus Cristo/Que não sabia nada de finanças/nem consta que tivesse biblioteca
F. Pessoa
A crise financeira internacional provocada nos States e que se globalizou, ferindo a zona Euro no seu locus minor: a Grécia, é por muitos analistas, descrita como se tratasse de uma epidemia.
Por exemplo, a situação na Grécia já foi comparada a um furúnculo, que não tendo sido lancetado ou extraído em devida altura, havendo o risco de desenvolver uma septicemia que atingisse Portugal e Espanha e mais tarde os outros dos chamados PIIGS, (a sigla é inglesa e não espanhola como disse em cima Marshall Auerbak, aliás só os ingleses são tão simpáticos!)
Assim, nós estamos em risco grave de infecção generalizada no sangue, sem nos prescreverem o antibiótico adequado.
Como não sou economista, “nem percebo nada de finanças e nem tenho uma grande biblioteca”, só posso constatar que a crise foi provocada por economistas seguidores de Milton Friedman, prémio Nobel em 1976 e prolongada por treze outros seguidores, galardoados também pela Academia Sueca que arrumaram a um canto os Keinesianos.
No nosso rectângulo passa-se o mesmo, economistas que saltam de Marx para Friedman, mas todos com responsabilidade nos últimos anos de governação do país.
Ultimamente num simulacro de uma conferência médica, estiveram onze reunidos em Belém (10 +1) mas nenhuma terapêutica para o mal, saiu do conciliábulo.
O que ouvimos, propor, é a destruição da segurança social e de todas as conquistas dos trabalhadores portugueses e europeus.
O perigo é que esta queda é a queda intelectual de quem nos governa todos detentores das “ciências económicas”.
Imaginem o que aconteceria se agora, em pleno século XXI, se descobrisse que Pasteur, Lister e Koch, os três fundadores da Medicina Moderna estavam errados.
sábado, 15 de maio de 2010
OS ESTRANGEIRADOS
O País sempre foi padrasto para aqueles que, por uma ou outra razão, viveram no estrangeiro.
Hoje encontrei mais uma pessoa que tem os dois filhos licenciados a trabalhar no estrangeiro. Disse-lhe que até era bom para eles, viam outros mundos, abriam-se-lhe novos horizontes, levavam um banho de modernidade e cultura, etc etc... Mas não convenci a triste senhora, que assim não via os seus netos crescerem com a frequência que desejava. Mas o seu argumento mais forte foi: - e depois? o regresso? Será que não fazem falta ao país?
Estes dois irmãos, que eu vi pequeninos no consultório, são hoje economistas com mestrados feitos em Portugal e um está no Banco Mundial em Nova Iorque e a outra em Londres no FMI, segundo percebi. São, pelo menos, seis jovens portugueses que eu conheço a trabalhar nestas instituições internacionais.
Mas há muitos mais, e cada vez, jovens licenciados impedidos de trabalhar no nosso país devido aos lobbies instituídos pelas diversas corporações que têm de partir para o estrangeiro.
A situação dos estudantes de medicina no estrangeiro, que conheço melhor, dá razão a esta avó: o regresso vai ser difícil.
Devido ao numerus clausus, nas faculdades de medicina, inúmeros jovens estão a tirar este curso no estrangeiro, espalhados por Inglaterra, Espanha, República Checa. Só em Pilsen estudam cerca de 150. Como está mais que provado a relação entre altas classificações no curso liceal e bons médicos não é directamente proporcional.
A Ordem dos Médicos, com o apoio do Ministério, já veio alertar que quando estes estudantes regressarem só podem concorrer às vagas de especialidade que não foram preenchidas, o que quer dizer que primeiro escolhem os nacionais residentes e só depois os estrangeirados.
Isto num país que diz ter falta de médicos, e que tão maltrata os médicos estrangeiros, maltrata agora também os seus nacionais formados noutros países.
Habilmente, a Ordem ladeou as normas europeias e instituiu um exame de “comunicação” para todos estes médicos, havendo a possibilidade de os impedir de exercer a profissão em Portugal por razões linguísticas. Contam as más-línguas que num destes exames foi reprovado um estudante açoriano, tendo sido obrigado a atrasar a entrada na vida profissional.
Assistimos agora também à fuga dos médicos dentistas recém formados, principalmente para Inglaterra, devido a um lobby vergonhoso de um grupo de dentistas residentes que impedem a instalação dos novos, proibindo-os de contratar convenções com as seguradoras.
Ainda me lembro da Embaixada dos Estados Unidos recrutar médicos na Faculdade de Medicina de Lausana na época da caça aos cérebros promovida por este país.
Mas o nosso país sempre tratou mal aqueles seus filhos que se formaram noutros países, pobre pequeno país, de mentalidades tacanhas e invejosas.
Vejamos o que aconteceu ao longo da nossa História!
“Estrangeirados era um nome pejorativo que era dado em Portugal aos intelectuais portugueses dos finais do século XVII e particularmente no século XVIII, o século do Iluminismo, que tinham vivido no norte da Europa ou que tinham tido contacto com novas ciências, desconhecidas em Portugal e que por terem tomado contacto com uma realidade estrangeira mais "moderna" (liberdade de pensamento, revolução científica, secularismo, democracia, nascer do capitalismo) eram desprezados por sectores influentes da sociedade portuguesa, católica conservadora, autocrática, que ainda menosprezava as ideias da Europa protestante”, segundo a Wilkipedia
Um dos mais conhecidos foi Luís António Verney (1713- 1792), autor do livro “ O Verdadeiro Método de Estudar”.
A pedido do rei D. João V, Verney inicia a sua colaboração com o processo de Reforma Pedagógica de Portugal, contribuindo inquestionavelmente para uma aproximação profícua com os ventos do progresso cultural que animavam os espíritos iluministas dos europeus mais progressistas. Devido a problemas de saúde e, principalmente, devido a incompreensões por parte dos seus compatriotas, nomeadamente os cortesãos e o Marquês de Pombal, parte definitivamente para Roma, onde vive até ao fim dos seus dias. (Wikipedia)
A razão desta prosa deve-se ao tratamento que ainda se faz ao acolhimento dos emigrantes.
O emigrante português em geral é apenas visto como um motivo de receitas e o seu regresso e integração são mesmo desaconselhados.
Nem todos os emigrantes são os da “valise de cartão”, isto sem nenhum sentido pejorativo, e aqui presto-lhes homenagem e ao seu sofrimento nos vários “bidonvilles” das cidades onde ajudaram a construir o futuro desses países.
Quero aqui referir-me aos intelectuais, descendentes mais directos de António Verney, aqueles que os outros países abrem os braços, naquilo que já foi chamado a caça aos cérebros.
A implantação do fascismo em Portugal levou muitos intelectuais a ter de sair do país, o número dava para encher várias páginas.
Os exilados começam logo a seguir ao inicio do “Estado Novo”, com membros do findo Partido Democrático que fundam em Paris a Liga da Defesa da República juntamente com Álvaro de Castro, José Domingues dos Santos, Jaime Cortesão e António Sérgio.
Alguns destes morreram no exílio, como Afonso Costa, outros regressaram a Portugal, tendo Jaime Cortesão participado activamente na Guerra Civil de Espanha com o grupo Buda.
Na Guerra Civil espanhola distingue-se Emídio Guerreiro (1899 a 2005), professor de Matemática no Porto. Combateu nas brigadas internacionais, como muitos portugueses, e depois no “maquis” em França, leccionou Matemática em Paris. Regressou no 25 de Abril e aderiu ao PPD.
A expulsão, de uma assentada, de 21 professores com famigerado decreto 35 317 foi a grande machadada que o fascismo deu na intelectualidade portuguesa e levou a que muitos tivessem de emigrar.
Entre estes foram o caso de alguns do designado núcleo da Matemática, Física e Química, como Ruy Luís Gomes, que foi docente numa universidade na Argentina e na Universidade de Pernambuco, no Recife. Nesta universidade leccionaram os portugueses: José Morgado, Alfredo Pereira Gomes e Manuel Zaluar Nunes. José Morgado só em 1979 foi reintegrado como Professor Catedrático na Universidade do Porto. Aniceto Monteiro leccionou no Brasil e Argentina. Todos regressaram a Portugal depois do 25 de Abril e as Universidades portuguesas reconheceram os seus valores. Mas por exemplo Aniceto Monteiro, segundo me contaram familiares, ficou muito entristecido com o acolhimento na sua Pátria e regressou à sua Universidade na Argentina, onde veio a morrer. Manuel Valadares, um dos pioneiros portugueses em Física Atómica e Nuclear, ficou a viver e a leccionar em França. Rémy Freire, outro do grupo das matemáticas, leccionou em Curitiba, Brasil. Em abono da verdade, apesar de com alguns atrasos, todos acabaram por ser reconhecidos após o 25 de Abril e condecorados. Em contrapartida, a lista de exilados de outras áreas, como Rodrigues Lapa, é enorme e muitos desses ficaram esquecidos.
A reintegração, a todos os títulos justa, de muitos destes Professores Universitários deveu-se ao facto da Assembleia da República ter votado uma lei que reintegrava na função pública todos aqueles que tinham sido expulsos por motivos políticos. Ou este não fosse o país das leis! Mas mesmo com leis as corporações não foram vencidas.
Nessa lei ficava de fora a grande maioria dos exilados dos anos 60 e 70. Jovens universitários por perseguição política ou por recusarem-se a combater na guerra de África não podiam ter sido funcionários públicos.
A estes exilados, o Estado, estrutura anquilosada e reaccionária, e as corporações levantaram todos os entraves à admissão na função pública.
Como anedota, que não o é, conto a história de um exilado que fugiu de Portugal perseguido pela PIDE e que voltou no 25 de Abril de 74, passados 15 anos. Tinha trabalhado na Suíça, Bélgica e depois Brasil. Quando da aplicação da dita lei foi reintegrado no mesmo lugar administrativo de um hospital psiquiátrico, na mesma mesa e na mesma cadeira que abandonara 15 anos antes. Ele dizia, com graça, que até os malucos eram os mesmos.
Por questão de pudor não irei aqui falar do meu caso. Durante a minha transcrição do caminho de Salomão - que por agora parou em Figueira de Castelo Rodrigo - acabarei por abordar o meu regresso porque, ao contrário do Elefante, resisti ao frio dos Alpes e voltei a Portugal.
Cito apenas os casos que se passaram com médicos portugueses exilados que regressaram ao país no 25 de Abril.
À excepção, diga-se em abono da verdade, do Serviço de Pediatria de Coimbra, que acolheu o António Torrado, já falecido, reconhecendo o excelente trabalho realizado em prol da assistência às crianças a nível nacional. O Torrado contou - me que tinha primeiro colocado os seus préstimos em Lisboa, cidade de onde era oriundo e onde se situava a Escola Médica que o formou, mas os directores dos diversos serviços de Pediatria da capital prescindiram do seu currículo como pediatra na Suíça e nos Estados Unidos. Surge-lhe então um convite de Coimbra, penso que em muito devido ao saneamento que tinha sido feito ao Professor de Pediatria Santos Bessa, que acumulava à data com o lugar de deputado à Assembleia Nacional, e também à abertura de espírito de Professor Carmona da Mota, regressado na altura de Inglaterra. Mais tarde foram para Coimbra outro ex exilados médicos como Luís Lemos, Gabriel Tamagnini e Henrique Delgado Martins.
Este último foi o primeiro ortopedista infantil em Coimbra e no período em que lá trabalhou formou vários ortopedistas, entre eles Jorge Seabra, figura de destaque nacional na ortopedia pediátrica. Quando abriram vagas para ortopedia, este médico ortopedista pela Federação Médica Helvética, que trabalhou em grandes centros, considerados internacionalmente, em França, Inglaterra e no Brasil, foi obrigado a repetir o internato de ortopedia. Rompeu com os Hospitais de Coimbra e veio para Lisboa, para o Hospital de São José, onde terminou a carreira como Director do Serviço 3 de Ortopedia. Já reformado foi homenageado num Congresso de Ortopedia em Portugal.
Outro médico Neurologista, formado na Suíça, teve de passar por um célebre concurso no Porto, onde obteve a classificação de dez valores. Um dos membros do Júri deu-lhe zero, obrigando o outro a dar 20 valores.
A “burrocracia“ ou a inveja dos seus e meus pares entravavam sempre, tivesse o exilado sido formado no Canadá, na Suíça, na Suécia ou na Checoslováquia, etc.. Os seus curricula não eram reconhecidos, obrigando-os a repetir a formação em Portugal!
Neste caso estão Pedro Lemos, cirurgião vascular, e Victor Branco, anestesista, médicos a exercer no Canadá que tiveram que regressar a esse país que os tinha acolhido. António Barbosa (já falecido), formado em urologia pela Faculdade de Medicina de Praga, teve de repetir toda a formação em Lisboa e terminou a carreira como chefe de serviço.
Nos exilados que estudaram Medicina isto foi recorrente e aconteceu em muitos casos, contrastando com outros das “chamadas boas famílias” da Medicina portuguesa, que após dez anos nos States são recebidos com tapete vermelho e clarins com bilhete directo para Professor e Director de Serviço.
Muitos médicos e outros profissionais ficaram no estrangeiro. Para quem ainda não conhece, aconselho a leitura do livro “À Espera de Godinho“, escrito por quatro exilados que ficaram na Bélgica, onde todos atingiram o topo nas suas carreiras.
No outro dia contaram-me uma situação caricata passada na altura da ministra Leonor Beleza. Para se aconselhar, Leonor Beleza teria convidado um especialista sueco em Psiquiatria. A Suécia enviou-lhe um médico português, refractário da guerra colonial, que na Suécia chegou ao topo da carreira.
Alguns, agora reformados, são finalmente convidados como peritos em diversos campos da medicina como palestrantes. É óbvio que agora não fazem sombra a ninguém e assim podem ser bem recebidos pelas Faculdades.
Nos anos 60, os Estados Unidos foram acusados de praticarem a caça de cérebros. Portugal tem tido uma política contrária, a expulsão destes.
A causa, no meu ponto de vista, é a defesa corporativa mesquinha e invejosa que este pequeno rectângulo não se consegue ver livre e assim tem sido desde o século XVII.
Os exilados regressaram na sua maioria no 25 de Abril de 1974 com o sonho de transformar este país num país melhor. Foi pena que muitos tivessem tido de voltar para trás. Prosseguindo esta politica, a maioria dos novos estrangeirados não irá regressar, direi mais, os melhores ficarão nesses países que lhes deram a oportunidade de se formarem como médicos.
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