segunda-feira, 11 de março de 2013


QUE SNS?


“ Os médicos que supõem que a medicina não tem nada que ver com a política enganam-se. No seu próprio âmbito a medicina representa uma ciência da sociologia, sendo portanto uma parte integrante da ordem social do Estado em que se pratica”
Virchow, anatomopatologista alemão, séc.XIX

“Que Serviço Nacional de Saúde querem, de que estão dispostos a abdicar, quais são as oportunidades que pretendem trocar para ter um SNS mais geral e universal? “ Esta foi a questão colocada por Leal da Costa, secretário de Estado da Saúde.

O Serviço Nacional de Saúde, inscrito na Constituição da República Portuguesa, tem como objectivo a efectivação, por parte do Estado, da responsabilidade que lhe cabe na protecção da saúde individual e colectiva.

Qualquer que seja o sistema que ambicione seja de permitir a cada cidadão de aceder aos melhores cuidados deve ser financiado, e suficientemente financiado, pelo Estado ou por um sistema de seguros organizados pelo Estado. O mercado não é capaz de garantir um equilíbrio da oferta e da procura dos cuidados médicos, visto que ele produz exclusão ou sobre consumo, ou ainda, como mostra o exemplo dos Estados Unidos da América, ambas as coisas, conforme afirmou Ruth Dreifuss, ex - Presidente da Confederação Helvética.

Dentro dos sistemas de saúde conhecidos, aquele que vigora em Portugal, com o financiamento por via fiscal, é o que sai mais barato ao Estado.

Contudo, a gestão pública não garante automaticamente a economicidade dos serviços à população, agravada muitas vezes, como foi no nosso país, com nomeações partidárias de pessoas sem nenhuma competência técnica.

Apesar de todos os erros cometidos pelos sucessivos governantes da saúde em Portugal, o SNS resiste e verifica-se que não somos dos países que apresentam maior desperdício.

Efetivamente, Portugal é o 2º país com menor crescimento da despesa total em saúde, entre 2000 e 2009, e é o terceiro país em que ela menos cresceu (relatório sobre os sistemas de saúde da OCDE) Este relatório diz ainda que os custos administrativos representam apenas 1,7% da despesa, claramente abaixo da média de 3% da OCDE.

Nenhum outro sistema conduziria, num período tão pequeno e tão pouco financiado, a tantos ganhos em saúde, como por exemplo, o declínio enorme da mortalidade infantil e o aumento da esperança de vida, apenas para citar dois índices.

Obviamente, o Serviço Nacional de Saúde deve ser melhorado, mas para isso temos de contar com os profissionais de saúde e as populações.

A diminuição do financiamento, a maioria com cortes cegos por parte do Estado, chegou ao seu limite. Portugal é já, um dos países da Europa, em que os cidadãos mais pagam pelo acesso à saúde directamente do seu bolso.

É na relação médico/doente que está a chave da diminuição do desperdício em duplicação de exames e de consultas, neste coloquio não se deve renunciar aos tratamentos prometedores, mas realizá-los ao menor custo.

A imposição de cortes financeiros nunca deve ser feita pelas administrações ou pelo Ministério.
Há muito que venho pugnando por outro tipo de organização do trabalho médico e da governação clinica nos estabelecimentos de saúde, como uma medida de eficiência e também de poupança.
A evolução da sociedade, com o avanço acelerado da tecnologia, não se compadece com modelos de trabalho artesanal.
O trabalho médico deve organizar -se em equipas multidisciplinares e de transdisciplinaridade, no sentido que lhe deu Piaget. Pelo contrário, a fragmentação dos conhecimentos médicos, devido à pletora de especialidades e sub especialidades, ao não serem integrados em equipas multidisciplinares, não raras vezes têm originado o aumento dos custos médicos sem melhorar o tratamento dos doentes.

Não é este o caminho que está a ser seguido, e o ministro persiste mais nos cortes cegos e outras medidas, que em vez de melhorar o SNS, por este caminho só o destrói.




sexta-feira, 1 de março de 2013

AOS MEUS NETOS




AOS MEUS NETOS

Hoje a terra onde nasceram já não vos acolhe e acarinha, como nós sonhamos para vocês e pensávamos ter, com a luta de longos anos em Portugal e no exílio, concretizado esse sonho.

Os vossos avós nasceram num país cinzento, onde o sol não brilhava para todos e havia policias que prendiam quem falasse mal do senhor que mandava em tudo, quando crescemos e entendemos o que se passava nesta terra, lutámos para afastar a miséria e a fome do nosso país e conquistarmos a liberdade e o respeito pelos homens.

A vossa avó foi presa e o vosso avô teve de fugir para um país distante, onde nasceram os vossos pais. Vivemos aí quase dez anos, mas apesar de longe nunca desistimos de lutar.
Numa manhã os capitães revoltaram – se e correram com os senhores que mandavam neste país e queriam continuar uma guerra, onde os nossos soldados iam morrer. Foi o 25 de Abril de 1974.

Vivemos bons momentos, conquistamos a LIBERDADE, o bem mais precioso para o Homem, construímos uma sociedade mais justa, onde todos podiam estudar, os doentes eram tratados, aqueles que não tinham emprego eram ajudados e os mais velhos tinham o descanso merecido.

Infelizmente, os portugueses, nunca aprendem com a História e assim como em outras alturas deixamos crescer o inimigo à nossa volta. Nunca esqueçam a DEMOCRACIA só se constrói com democratas.

Mais uma vez o nosso povo foi ludibriado e votou num governo que abriu as portas ao estrangeiro, a democracia foi interrompida e quem manda neste país são os representantes do capitalismo selvagem, a troika, cujo o objetivo é tirar tudo o que conquistámos para vocês poderem levar uma vida digna e livre e ocuparem-se com a defesa do planeta.

Ao estudarem a história de Portugal, podem ver que os mais fracos, a arraia-miúda, revoltam-se sempre contra os da “alta” quando estes contribuem para o esmagamento da independência e entregam os destinos da mãe pátria aos estrangeiros.

Foi assim na revolução burguesa de 1383 – 85, na restauração em 1640, nas revoltas de 1846-47 contra o cabralismo, na instauração da República em 1910 e no derrube do fascismo em 1974.

A gente da “alta” foi sempre a defensora dos interesses privados apátridas contra as aspirações coletivas.

Por isto os vossos avós vão lutar hoje, dia 2 de Março de 2013, pela demissão deste governo de traição nacional.


Jaime Teixeira Mendes

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

AUTO DO RELVAS


Recebi por e-mail este fantástico texto escrito por 3 alunos de uma escola de Coimbra. Gonçalo, Carolina e Filipe, alunos da Escola EB23 Dra Maria Alice Gouveia,  fizeram esta adaptação do " Auto da Barca do Inferno", de Gil Vicente, numa aula de Português.

Vem Miguel Relvas conduzindo aos zigue zagues o seu Mercedes banhado a ouro e sai do carro com o seu diploma na mão. Chegando ao batel infernal, diz:

RELVAS? Hou da barca!
DIABO? Ó poderoso Doutor Relvas, que forma é essa de conduzir?
RELVAS? Tirei a carta de scooter e deram-me equivalência. Esta barca onde vai hora?
DIABO?  Pera um sitio onde não hai contribuintes para roubar!
RELVAS? Pois olha não sei do que falais? Quantas aulas eu ouvi, nom me hão elas de prestar?
DIABO?  Ha Ha Ha. Oh estudioso sandeu, achas-te digno de um diploma comprado nos chineses ao fim de três aulas?
RELVAS? Um senhor de tal marca não há de merecer este diploma?
DIABO? Senhores doutores como tu, tenho eu cá muitos.
Miguel Relvas, indignado com a conversa, dirige-se ao batel divinal.
RELVAS? Oh meu santo salvador, que barca tão bela, porque nom eu d'ir eu nela?
ANJO? Esta barca pertence ao Céu, nom a irás privatizar!
RELVAS? Tanto eu estudei, que nesta barca eu entrarei.
ANJO?  Tu aqui não entrarás, contribuintes cortaste, dinheiro roubaste e um curso mal tiraste
Relvas, sem alternativa, volta à barca do Diabo.
RELVAS? Pois vejo que não tenho alternativa. Nesta barca eu irei? Tanto roubei, tanto cortei, não cuidei que para o inferno fosse.
DIABO? Bem vindo ao teu lar, muitos da tua laia já cá tenho e muitos mais virão. Entra, entra, ó poderoso senhor doutor magistrado Relvas. Pegarás num remo e remarás com a força e vontade com que roubaste aos que afincadamente trabalharam.

Este texto,escrito por alunos liceais de 14 anos, mostra que o nosso ensino não é assim tão mau!
Oh Relvas até as crianças!

sábado, 23 de fevereiro de 2013




A DEMOCRACIA
  
Jamais on ne corrompt le peuple, mais souvent on le trompe, et c'est alors seulement qu'il parait vouloir ce qui est mal
 Rousseau J.J.;Contrat social, livre II, chap.III, ed. Citée,pg64

Cantou-se Grândola Vila Morena nas galerias do Parlamento e esta canção do Zeca Afonso renasceu e atravessou fronteiras.
O povo é quem mais ordena, volta a ser a voz dos indignados, daqueles que querem participar na construção do seu país e não os deixam.

Se relembrarmos os socialistas românticos, como Rousseau, vimos que eles de uma forma clarividente alertavam os seus contemporâneos para os governos da “volonté de tous”.

Sobre a democracia representativa, este “terrível terrorista” sublinhava, como uma notável evidência, que nunca poderia existir soberania e liberdade politicas sem a intervenção consciente e ativa do conjunto dos cidadãos.
A propósito do regime parlamentar inglês, Rousseau escrevia: “ Le peuple anglais pense être libre, il se trompe fort; il ne l'est que durant l'election des membres du parlement: sitôt qu'ils sont élus, il est esclave, il n'est rien” (in Contrato social).

Os arautos da defesa da democracia parlamentar querem perpetuar um regime que possa ludibriar um povo pelo menos durante quatro anos e voltar a fazê-lo por mais outros quatro.
Durante o período eleitoral há um contrato mútuo entre os cidadãos e aqueles que se propõem representá-los. Quando estes (os governantes) quebram o contrato, como tem feito o atual governo, tudo no melhor do mundo para estes senhores.
Mas se o povo quer quebrar o contrato, porque se sente enganado, isso não é possível, tem de se sujeitar a uma espécie de fidelidade contratual por quatro penosos anos.

Voltemos ao Contrato social: “les deputés du peuple ne sont donc ni ne peuvent être ses représentants, ils ne sont pas que ses commissaires; ils ne peuvent rien conclure définitivement. Toute loi que le peuple en personne n'a pas ratifiée est nulle; ce n’est point une loi.”
O que diria o pobre Jean Jacques se vivesse na Europa de hoje!

Alguns dos atuais socialistas, aqueles que enterraram para sempre o socialismo num caixão e aderiram alegremente ao capitalismo, claro sem ser o selvagem, renegam o pensamento desse e de outros filósofos do século XVIII, ainda hoje tão vivos.

Como pediatra, ensino sempre aos pais, na minha consulta, que nunca devem mentir aos filhos.
Se estabelecem com os filhos um contrato, como por exemplo prometendo-lhes uma prenda se se portarem bem, e se querem que eles os respeitem (como os filhos devem respeitar os pais), deverão cumprir a sua palavra para que mais tarde os filhos não se revoltem.

O que se passa com os nossos governantes é o mesmo. Mentiram descaradamente não cumprindo as promessas eleitorais, apresentam ministros falsários, roubam descaradamente os ordenados e as pensões de reforma dos trabalhadores, retiram regalias sociais, aumentam as taxas moderadoras nos estabelecimentos de saúde, sobem as propinas, cortam nas bolsas de estudantes, fazem subir o desemprego e isto tudo às ordens das Ditaduras de Bruxelas e da Troika. Isto é que é violência!
Mas se os cidadãos protestam e ordeiramente vão cantar uma canção de protesto nas galerias do Parlamento, ai Jesus que a Democracia está em perigo.

Saiam dos seus lugares de parlamentares em Lisboa ou em Bruxelas, desçam dos seus belos carros e oiçam o ruído da rua, o mundo está a mudar.




segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

ISTO É FASCISMO





O BUFO

Muitos que não conheciam esta personagem vão agora conhecê - la graças a este governo " neo-liberal".

Quando era muito jovem, aí pelos meus 16 anos, ía quase todos os sábados à noite ao cinema. Além do filme, o mais importante era o intervalo e a ida ao foyer, para observar as raparigas, normalmente mais velhas. 
Eu e os meus amigos fumávamos um cigarrinho, para parecermos mais velhos ( julgávamos nós).
Os intervalos eram tão importantes que quando fazíamos a nossa critica cinematográfica, costumávamos dizer:- o filme é muito melhor depois do intervalo.
Voltando ao foyer, os mais cobiçados pelas raparigas acendiam o cigarro num golpe de isqueiro, alguns de nós muito habilidosos. 
Abrindo, novamente, um parêntesis para os mais jovens, existia uma lei que proibia utilizar o isqueiro na rua, ou por outra segundo a lei só podia ser utilizado debaixo de telha. Assim, o bufo/fiscal das finanças marcava durante o intervalo todos os incautos que utilizavam os seus lindos isqueiros, alguns pertencendo aos pais, e à saída do cinema pediam lume aos jovens que ingenuamente caíam na armadilha e eram multados e ficavam sem isqueiro que era apreendido. A justificação desta lei estúpida dada pelos fascios é que assim se protegia a empresa nacional da fosforeira. A lei foi revogada provavelmente porque os filhos dos senhores do regime já estariam fartos de ficarem sem isqueiros.
O gene da estupidez fascista está inscrita no ADN deste governo e assim aparece aquela famigerada lei das facturas, aquela a que  o meu amigo Viegas se insurgiu, declarando que mandava os bufos " tomar no cu", coisa que nunca poderíamos ter dito nos idos anos cinquenta, sem arriscar a prisão.
Eu sei que o ex secretário de estado da cultura passa muito tempo no Brasil, por isso perdoo-lhe o brasileirismo de tomar no cu, em português vernáculo diz-se: - levar ou apanhar no cu, tomar é mais utilizado para um clister ( O sr vai tomar um clister).

Mas cuidado, se não os mandarmos todos tomar, levar ou apanhar no cu, regressamos rapidamente a um passado que não queremos.



  

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

4 de Fevereiro



4 de Fevereiro

O dia 4 de Fevereiro assinala uma série de factos importantes da História Mundial, desde a invasão Mongol da Rússia, passando pela eleição de Georges Washington até ao fim da batalha  de Estalinegrado. 
Contudo, há dois factos gravados para sempre na minha memória:
 -O primeiro, ver post de 3 de Fevereiro de 2010 - 45 anos depois-, em que a Teresa conta a história da sua prisão, aconteceu há 49 anos.


O  segundo marca  o inicio da luta armada em Angola, pelo menos segundo o MPLA, com o assalto à Casa de Reclusão Militar em Luanda por 200 patriotas angolanos.