sexta-feira, 21 de julho de 2017

Segunda Parte

OUCHY


Jerónimo instalou-se na zona mais aprazível da cidade de Lausanne, no pequeno porto à beira do lago Leman. Este é um dos maiores lagos suíços que faz fronteira com a França, com as suas estações balneárias de renome, Thonon e Évian-les-Bains, situadas na região da Alta Saboia, território que pertenceu ao governo de Vichy durante a segunda Guerra Mundial.
Muitos foram os resistentes franceses (1940-1945) que passaram por lá e mais tarde, durante a guerra da Argélia (1956-1962), muitos patriotas atravessaram a região fugindo das perseguições policiais.

Em dias de neblina, com as águas do lago agitadas e com a costa francesa escondida pelo nevoeiro, fazia recordar, aos mais nostálgicos, o Atlântico da nossa costa
.
Quando o nosso amigo chegou a este lugar, onde a beleza da natureza está em todo o seu esplendor, havia apenas alguns barcos a pedais para recreio durante o Verão. No Inverno, com a agitação das águas do lago, o porto de recreio estava sempre fechado.

Jerónimo não poderia ficar parado muito tempo. Assim, começou a fabricar redes de pesca como tinha visto fazer, em miúdo, aos pescadores da sua terra natal, e também barcos, como um verdadeiro armador. Garantiu-me que nunca tinha sido pescador, nem armador.
Guardava os materiais num pequeno barracão junto ao lago, propriedade de um velho suíço de quem se tornou amigo.

Jerónimo tornou-se no pioneiro da pesca do lago, prendendo la perche* nas suas redes, que vendia aos restaurantes da zona e que era muito apreciada, acompanhada por um Fendant** fresquinho.

Passado algum tempo, Jerónimo casou com a filha do velho suíço, a Madame Rouge. Certamente um casamento de amor. Presenciei muitas vezes as carícias apaixonadas que trocavam, com a Madame Rouge a chamar-lhe mon querridô e ele a responder mon petit choux.

Todo o casamento é um contrato social e neste ninguém ficou lesado, pois o meu amigo expandiu o negócio construindo mais barcos de recreio e continuando com a pesca mesmo durante o mau tempo.

* A perca é um peixe de água doce, muito saboroso.
**Vinho branco

quinta-feira, 20 de julho de 2017

Contos da Emigração




Contos da Emigração
Primeira Parte
(escrita em género de novela…)

O Jerónimo, conheci-o em Lausanne e rapidamente ficámos amigos.
Oriundo de Matosinhos saiu a salto de Portugal, ainda muito novo, atravessou a nado o rio Minho e a pé os Pirenéus, onde muitos portugueses se perderam abandonados pelos passadores.
Pouco tempo ficou em Paris, onde a vida nos bidonvilles não lhe agradou.
Chegou a Lausanne no início dos anos sessenta. Como? Não sei, nunca lhe perguntei, nem ele me contou.
Quando precisei de um carpinteiro, indicaram-me o Jerónimo. Estava inscrito no consulado com esta profissão.
A representação de Portugal em Lausanne era feita, à época, por um cônsul honorário de nacionalidade suíça e durante alguns anos muitos portugueses fugidos do país obtinham aí passaporte, alegando que lhe tinham roubado os papéis.
Jerónimo era forte, moreno e de estatura mediana, alegre e folgazão, e guardava uma pronúncia forte do norte.
Como muitos emigrantes, fugiu da fome que grassava em Portugal, sem nenhuma preparação profissional ou instrução. Jerónimo era analfabeto.
Mas tinha aquela característica do povo português, referida por muitos filósofos e pensadores, o desenrascanço*.
Lembro-me do nosso primeiro contacto. Telefonei-lhe (era o tempo dos telefones fixos. Telefonávamos para Portugal de cabines públicas, onde segurávamos uma moeda com uma pastilha elástica e um fio longo e assim que atendiam do outro lado puxávamos a moeda. Mais um desenrascanço…) e perguntei-lhe onde queria que nos encontrássemos e como o iria conhecer. Ele respondeu prontamente: "Na estação de metro*, em Ouchy, e estarei com uma mama de fora". Claro que mal desci na estação reconheci-o imediatamente, não precisou de mostrar um peito fora da camisa. Era facílimo identificar aquele português brincalhão no meio dos sorumbáticos suíços.
*dicionário Priberam: Capacidade de solucionar problemas ou resolver dificuldades rapidamente e sem grandes meios
** em 1965, o metro em Lausanne era um transporte de superfície que só tinha uma linha que ligava a praça central da cidade, Saint François, ao lago do Leman. Os habitantes da cidade chamavam-lhe Ficelle (o fio).
(Continua  ...)
.


sexta-feira, 14 de julho de 2017






Carta Aberta ao Primeiro-Ministro António Costa

A razão de os signatários se dirigirem directamente ao Primeiro-Ministro decorre da análise que fazem da actual situação no sector da saúde, a qual, quase a meio do mandato do governo, permanece sem sinais de mudança que alterem a natureza do modelo de política de saúde, promovendo a saúde dos portugueses e reabilitando e requalificando o Serviço Nacional de Saúde.
As várias greves dos profissionais de saúde – médicos, enfermeiros, técnicos de diagnóstico -, em que se verificou tanto uma grande adesão desses profissionais como uma considerável compreensão por parte da população, representam sinais que devem ser entendidos e interpretados como manifestações críticas da situação que se está a viver no sector.
O diagnóstico que melhor caracteriza a saúde da população é dado pelos seguintes indicadores-chave. (1) com 70% de esperança de vida saudável, os portugueses tinham o mais baixo valor dos países do sul da Europa – Espanha, França, Itália e Grécia; (2) com 32% de esperança de vida saudável aos 65 anos, os portugueses ficam bastante aquém dos valores daqueles países; (3) no grupo etário 16-64 anos só 58% da população considerava que a sua saúde era boa ou muito boa, quando na Grécia ou em Espanha é superior a 80%; (4) no grupo com mais de 64 anos aquela percepção é de 12%, sendo em Espanha e França superior a 40%; (5) mais de 50% da população tem excesso de peso; (6) em 2016 verificou-se o maior excesso de mortalidade da década, correspondente a 4 632 óbitos.

Nos setenta e sete hospitais da rede pública, cerca de 800 000 utentes aguardam com excesso de espera uma primeira consulta hospitalar, correspondendo a 30% das primeiras consultas realizadas em 2016. Esse excesso varia entre 2 -> 800 dias. Mais de oitocentos mil portugueses não têm médico de família atribuído. Entre 2014 e 2016 verificou-se um aumento de 529 000 urgências. Em seis anos (2009-2015) a despesa pública da saúde diminuiu quase dois mil e quinhentos milhões de euros, tendo passado de 6,9% para 5,8% do PIB.

Esta situação é já bastante preocupante. Continua a insistir-se num modelo de política de saúde exclusivamente orientado para o tratamento da doença e centrado nas instituições de saúde. Quando a regra é ser-se saudável e a excepção é estar-se doente, a quase totalidade dos recursos são canalizados para a excepção, embora a promoção e a protecção da saúde sejam as condições que mais contribuem para melhorar o bem-estar das pessoas e das comunidades, e a estratégia que torna os sistemas de saúde sustentáveis.

Mas mesmo quando se trata da prestação de cuidados na doença, o acesso mantém-se como o maior obstáculo aos serviços de saúde no momento em que são necessários, com as consequências daí decorrentes para a saúde dos doentes. Os tempos de espera inadmissíveis são disso a melhor evidência e a afluências às urgências o pior sintoma da disfunção que reina no sector.

O sistema público de saúde carece do financiamento ajustado à sua missão: promover a saúde, prevenir e tratar a doença. Sem essa condição não só o SNS vê reduzido um dos seus principais valores, a cobertura universal, como as respostas que vai dando são canalizadas quase exclusivamente, e já em condições precárias, para o tratamento da doença.

Os signatários desta Carta têm uma longa história de serviço público no Serviço Nacional de Saúde. A maior parte deles contribuiu para que ele se implantasse nos primeiros anos da sua criação, foram seus profissionais desde então e bateram-se por diversas vezes contra os ataques que lhe foram movidos. Não estão, por isso, dispostos a assistirem ao seu progressivo definhamento. Se, como é defendido, o SNS representa um dos mais relevantes serviços que a democracia tem prestado aos portugueses, então há que proceder á mudança que se impõe da política de saúde. Passados 38 anos da sua criação, o SNS não pode ficar imóvel e alheio aos desafios que lhe são colocados. Nesta exigência estamos acompanhados pelos mais prestigiadas autoridades na matéria, como Ilona Kickbusch, David Gleicher e Hans Kluge da OMS, Nigel Crisp, coordenador da Plataforma Gulbenkian Health in Portugal e Tonio Borg, comissário da UE para a saúde

Por isso nos dirigimos a si, senhor Primeiro-Ministro, na expectativa de que seja sensível a esta necessidade inadiável e tome as decisões que a situação descrita exige. Entendemos e reconhecemos que as medidas a tomar, dada a sua natureza, não produzem efeitos imediatos. É no médio e longo prazo que os resultados se tornam demonstrativos da razão que assiste às soluções para as quais estamos disponíveis a dar o nosso contributo. Mas é imperativo que se comece já.

Lisboa,

Aguinaldo Cabral, Alberto Mendonça Neves, Almerindo Rego (Presidente do Sindicato dos Técnicos Superiores de Diagnóstico e Terapêutica), Ana Abel, Anita Vilar, António Manuel Faria-Vaz, Armando Brito de Sá, Augusto Goulão, Carlos Leça da Veiga, Carlos Vasconcelos, Cipriano Justo, Deolinda Barata, Fernando Gomes (ex-Presidente do Conselho Regional do Centro da Ordem dos Médicos), Francisco Crespo, Francisco Paiva, Guadalupe Simões (Vice-Presidente do Sindicatos dos Enfermeiros), Henrique Delgado Martins, Isabel do Carmo,  Jaime Correia de Sousa, Jaime Mendes (ex-Presidente do Conselho Regional do Sul da Ordem dos Médicos), João Álvaro Correia da Cunha, João Cravino,  João Proença, Jorge Espírito Santo, Jorge Seabra, José Aranda da Silva (ex-Bastonário da Ordem dos Farmacêuticos), José Carlos Martins (Presidente do Sindicato dos Enfermeiros), José Frade, José Manuel Boavida, Manuel Sá Marques (1º Presidente do Sindicato Médico da Zona Sul),  Maria Augusta de Sousa (ex-Bastonária da Ordem dos Enfermeiros), Maria Gorete Pereira, Maria João Andrade, Maria Manuel Deveza, Mariana Neto, Mário Jorge Neves (Presidente da Federação Nacional dos Médicos), Nídia Zózimo, Paulo Fidalgo, Patrícia Alves, Pedro Miguéis, Rui de Oliveira ( ex-Presidente do Conselho Regional do Sul), Sérgio Esperança (ex-Presidente do Sindicato dos Médicos da Zona Centro), Sofia Crisóstomo, Teresa Gago





terça-feira, 11 de julho de 2017

O Eterno Adão



O livro " O Eterno Adão" escrito por Jules Verne, em 1910, descreve a submersão da nossa civilização.

É um livro premonitório, cada vez mais real e menos de ficção científica como aconteceu com muitos livros deste escritor.

Senão vejamos, apesar de Trump não acreditar, ao ritmo actual da emissão de gazes com efeito de estufa os glaciares da Antartida, o icebergue Larsen C, que tem uma superfície equivalente a 2/3 da Córsega ou seja 5000 Km,  contribuirá ao aumento das águas dos oceanos.

Os americanos ricos que não são tão broncos como o seu ( deles) Presidente, em Miami, com casas à beira-mar, recuam para os sítios altos, reservados aos pobres no passado, e os preços das habitações no sul da Florida já baixaram de 7,6% em 2015.

Quando é que as imobiliárias no Algarve seguem este exemplo?

segunda-feira, 10 de julho de 2017

FALCATRUAS




A divulgação da prova de português para os alunos do 12º ano, em audio no facebook foi um escândalo
Recorrentemente assistimos a factos semelhantes.

Mas,sinais dos tempos, houve neste acto algo mais moderno e mais democrático na medida que a "fuga" de informação esteve disponível para mais candidatos à prova.

Nos idos anos cinquenta do século passado, estudei afincadamente para o  exame do antigo 5º ano, num mês de Julho escaldante, tive de prestar provas no Liceu Camões de fato ( terno) completo e gravata como mandava a lei.
Desejoso de ir de férias gozar as praias do Atlântico, rezei ( apesar de não ter tido educação religiosa) para dispensar das provas orais.
Corri logo de manhã para ver as pautas no dia aprazado.
Qual não foi o meu espanto e admiração que não só não obtive as classificações necessárias para dispensar das provas orais como o pior aluno do colégio tinha dispensado ás duas secções Letras e Ciências. Foi de tal maneira escandaloso que o Director e os Professores do colégio não puderam esconder as suspeitas de grossa trafulhice.
Nunca chegámos a saber como se processou a troca de provas mas na realidade o aluno não podia arriscar a ida às provas orais e assim cortou-se o mal pela raiz. Tudo ficou abafado nas paredes do colégio. Vivíamos na paz podre do Estado Novo e o MEDO de falar era muito.
Claro que este menino nunca mais estudou mas o pai que era rico conseguiu que este não fizesse o serviço militar como soldado.
Perdi de vista este colega, fomos por caminhos diferentes, mas desconfio que deve ter ficado isento do serviço militar.
Aquando do meu regresso no 25 de Abril soube que ele tinha uma lista de elementos subversivos e o meu nome constava dessa lista





ABAIXO O MEDO!

quarta-feira, 28 de junho de 2017

Ils sont fous ces Suisses!

Veio me à memória de tanto se falar em fogos e bombeiros esta história da minha juventude.
Vivíamos, eu e a Teresa, há cerca de um ano, em Lausana (cantão suíço do Vaud), quando recebemos um aviso para pagar 25 FS para um impôt non pompier.
Vinte e cinco Francos suiços era uma soma elevada para o nosso orçamento e iria fazer falta. A título  de exemplo, no restaurante universitário, se não me falha a memória, comia-se por 3 Francos suíços.
Claro que a nossa primeira reação era não pagar. Mas resolvemos informar-nos junto dos nossos conterrâneos que estavam nestas paragens alpinas há mais tempo.
Aí contaram-nos a história do Germano Ferreira da Costa.
Para quem não o conheceu o Ferreira da Costa, estudante em Coimbra, foi um dos protagonistas* da célebre fuga das mãos de 2 agentes da PIDE que o prenderam na estação ferroviária da Cidade, agora do conhecimento. Libertou-se das mãos dos agentes, com um safanão e num salto atravessou a linha quando se cruzavam  2 comboios, o que os agentes da dita não arriscaram e assim o nosso amigo foi terminar o curso de Medicina em Lausana.
Voltando à nossa história. Conta-se que ele foi à corporação dos bombeiros da cidade perguntar porque é que devia pagar esse imposto. Foi lhe dito que ficava isento se se inscrevesse na corporação dos homens da paz.
Teimoso como ele era inscreveu-se, mas parece que não aguentou mais de três sábados seguidos de treinos como sapador alpino e passou a pagar o dito imposto.
Não quero com este meu texto dar ideias ao governo para pagarmos mais uma taxa ou taxinha. Fica só esta história.
*O outro fugitivo foi Silva Marques, à época militante do PCP  

Para quem queira aprofundar o tema siga este link: http://www.vd.ch/fileadmin/user_upload/organisation/dfin/aci/fichiers_pdf/Instructions_Etablissement_des_CS_Pompiers_2013.pdf

segunda-feira, 26 de junho de 2017

Regresso




Com um pedido de desculpas aos meus seguidores, regresso ao meu blogue, após um interregno de três anos. Foi o tempo que durou o meu trabalho na Ordem dos Médicos, como Presidente do Conselho Regional do Sul.
Muito e bom trabalho foi feito pela excelente equipa da direcção que tive a honra e o prazer de presidir. Foram bons momentos.
Porém, três anos não foram suficientes para mudar a estrutura anquilosada da Ordem.
Quando iniciamos eram inúmeras as queixas diárias de médicos por falta de atendimento telefónico, a passagem de certidões e cédulas emitidas por intermédio do Banco Santander Totta demoravam meses. Tudo isto resolvemos. Quando saímos as queixas dos médicos baixaram para Zero  e as cédulas começaram a ser emitidas por funcionários da Ordem, dispensando a parceria com o Banco.
Foram realizados inúmeros colóquios, debates, exposições e concertos.
Cito, apenas uma reunião pelo seu significado,  sobre os cuidados de saúde primários em conjunto com a Secção do Sul da Ordem dos Enfermeiros ( direcção anterior). Nunca a Ordem dos Médicos tinha tido uma realização conjunta com a Ordem dos Enfermeiros.
Porém, três anos não são suficientes para mudar uma  estrutura anquilosada como a da Ordem.
Muito mais foi feito.

Claro que uma equipa predominantemente de esquerda não agradou à maioria de médicos da direita e extrema direita e assim a nossa "geringonça" foi derrotada nas últimas eleições.

Para os nossos opositores, aprendizes de Maquiavel - os fins justificam os meios- ,valeu tudo até a mentira, como se diz agora a pós-verdade, e a traição oportunista.

Terminei o discurso da nossa tomada de posse com uma citação premonitória de Cícero: " Uma nação pode sobreviver aos idiotas e até aos gananciosos, mas não pode sobreviver à traição gerada dentro de si mesma"

Para aqueles que estiverem interessados em verem o nosso site de campanha podem vereste link

http://www.aprofundaramudanca.pt/programa-eleitoral

Ordem dos médicos no Porto




quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

DISCURSO DE TOMADA DE POSSE DE PRESIDENTE DO CONSELHO REGIONAL DO SUL

DIA 7 DE JANEIRO TOMARAM POSSE OS ÓRGÃOS REGIONAIS ELEITOS, EM 12 DE DEZEMBRO DE 2013, DO CONSELHO REGIONAL DO SUL DA ORDEM DOS MÉDICOS 
PUBLICO AQUI NA INTEGRA O MEU DISCURSO



Caros Colegas e amigos,

Um dos privilégios da aposentação, muitas vezes referido, é o de poder dizer o que se pensa sem arriscar o seu lugar ou a sua promoção.

Esta equipa, que hoje toma posse adoptou assim o principio da clareza e transparência que John Stuart Mill resumiu nesta frase: “ Não se podem prevenir nem curar os males da sociedade, assim como as doenças do corpo, sem falar claramente”.   
Este é um dos nossos compromissos para os próximos três anos.

A Medicina sofreu grandes transformações no final do seculo XX, com avanços tecnológicos que permitiram diagnósticos mais precisos, com um indiscutível beneficio para os doentes, atrevo-me a dizer mesmo custo/benefício. Nunca aderi à ideia feita que o avanço tecnológico seria o responsável do encarecimento da medicina.

Podemos argumentar que os progressos poderão até reduzir os custos: por exemplo, os aparelhos de diálise aperfeiçoaram-se necessitando de menos vigilância dos técnicos e de manutenção; a operação dispendiosa de bypasses coronários deu lugar à dilatação percutânea, intervenção realizada em ambulatório; a cirurgia laparoscópica reduziu de uma forma impressionante a duração da hospitalização, etc…etc…,não esquecendo todos os programas de prevenção implantados no terreno que permitem uma estabilização dos custos.

O facto é que os custos na saúde aumentam em flecha. Será devido ao aumento dos salários dos médicos e dos outros trabalhadores da saúde? Certamente não, porque eles, salvo raríssimas excepções, têm vindo a diminuir os seus proveitos nos últimos dez a quinze anos.

Um sector que contribuiu para o aumento dos custos foi a plêiade de gestores espalhados pelos hospitais e centros de saúde que ironicamente foi concebido para fazer diminuir as despesas.

A tutela e as diversas formas de gestão têm tido poucos resultados porque, como já referi em vários artigos publicados na revista da Ordem, as reformas necessárias da saúde têm o centro num binómio tão velho como a MEDICINA: A relação Médico-Doente. Sem a participação activa destes dois actores nada resultará.

No nosso programa de candidatura afirmámos que um dos reversos da medalha dos avanços tecnológicos foi o aparecimento de inúmeras especialidades e subespecialidades, só na nossa Ordem existem mais de 40, o que levou à fragmentação dos conhecimentos e que tem originado o aumento dos custos médicos, com duplicação de exames, entre outros, e em nada melhorou o tratamento dos doentes.

Estamos na época pós-industrial e os nossos hospitais continuam como as grandes instituições fabris do passado que actualmente com a revolução informática estão a ser substituídas por pequenas empresas em rede. 

Assim, torna-se imperioso equacionar uma nova organização do trabalho médico em equipas multidisciplinares e de transdisciplinaridade, como entendeu Piaget, e uma nova governação hospitalar e enterrar para sempre as ideias organizacionais de Taylor. 

Infelizmente, hoje assistimos a um retrocesso das ciências humanas o que levou os médicos a prosseguirem numa visão alopática afastando-se da visão holística da medicina centrada no doente e nas suas necessidades e não na doença.

A economia suplantou todas as ciências sociais mas sem grande sucesso. Imaginem se a Medicina negasse hoje todos os conhecimentos transmitidos pelos nossos Mestres, realizasse experiências humanas, se enganasse e depois pedisse simplesmente desculpa.

Já foi dito que isto de economistas há para todos os gostos, e eu também tenho os meus preferidos que não são como devem imaginar os da escola de Chicago.

Daniel Cohen, economista e autor do livro o Homo economicus, no essencial diz que o capitalismo se apoia sobre duas instituições com lógicas muito diferentes: os mercados e as empresas, os primeiros para organizar a competição, e os segundos a cooperação. A rotura que o capitalismo financeiro introduziu desde os anos 80 foi de impor uma lógica de mercado nas empresas. Os prémios, os bónus, muitas vezes individualizados, criaram uma nova relação de trabalho. A consequência foi que a competição progride e a cooperação recua. Eu direi: o individualismo e o isolamento instalam-se nas nossas sociedades.

Cito Cohen quando se refere ao que ele considera os grandes pólos da sociedade pós-industrial, a educação e a saúde, diz: - “ Quando se experimenta dar incentivos financeiros aos professores e aos médicos, por exemplo em função dos seus resultados, depressa caminhamos para catástrofes pedagógicas ou sanitárias”.

A Ordem dos Médicos como parte integrante do SNS e do sistema de saúde deve ter um papel fundamental em todo o planeamento e desenvolvimento da política de saúde.

Entretanto, o momento sócio-político que vivemos impõe-nos a urgência de pôr em equação os problemas actuais da classe médica e esclarecê-los tanto quanto possível no espírito de todos e, em especial de certos médicos com responsabilidade governamental, porquanto adoptam opiniões bastante inadequadas aos novos tempos, factores importantes da desagregação profissional facultando aos especuladores o maior aviltamento da classe.

O nosso compromisso é com os nossos colegas, com o Presidente da Ordem, com os Conselhos Regionais e com as distritais para cumprir o programa de ação proposto e votado para o triénio 2014 -2016. A nossa atitude irá ser de frontalidade, clareza e transparência. Para isso as reuniões do maior Conselho Regional do país, o Sul, serão abertas e publicitaremos as suas decisões.

Vamos trabalhar
·       na defesa do Serviço Nacional de Saúde constitucional, obra dos médicos portugueses, um dos sistemas menos dispendiosos e o mais efectivo garante da equidade, identificando e intervindo nos múltiplos factores determinantes da má saúde e da doença.
·        Na garantia da qualidade da medicina praticada no nosso país.
·       Na formação médica pós-graduada e formação contínua em colaboração estreita com os colégios da especialidade. Sem desprezar a formação pré-graduada, em colaboração íntima com os directores das Faculdades de Medicina para a melhoria do ensino e a introdução de áreas das ciências humanas, preparando o jovem para a prática clínica e a melhoria do contacto com os doentes.

A célebre frase atribuída a Abel Salazar de “que quem só sabe medicina nem medicina sabe” foi teorizada oficialmente por dois investigadores da New School of Social Research de Nova Iorque, Commer-Kidd e Castano, que em artigo publicado na revista Science mostraram os resultados da sua investigação em psicologia experimental, onde chegaram à conclusão que os leitores de obras de ficção têm maior capacidade de compreender os estados mentais de outrem, melhorando assim a relação médico-doente. Não quero com isto propor aos estudantes de medicina que a par da Anatomia leiam os sete volumes de Proust, “Em busca do Tempo Perdido”. Mas a Ordem tem aqui um papel fundamental.

·       Comprometemo-nos na defesa das carreiras médicas como um dos suportes da qualidade, da efectividade e da eficiência da prestação dos cuidados médicos e a garantia da realização profissional.

·       A Defesa da Medicina Liberal, a chamada medicina de consultório, dignificando a sua missão de assistência à comunidade.

Não posso finalizar a minha intervenção, sem dizer algumas palavras sobre a metodologia utilizada na revisão dos estatutos da Ordem. O que aconteceu foi o exemplo daquilo que não se deve fazer, se o objectivo for aproximar os médicos da Ordem.

Como já escrevi detalhadamente no boletim da Ordem, foi nomeada pelo Bastonário uma comissão para a revisão dos estatutos constituída por 15 médicos, à qual tive a honra de presidir. 

A nossa proposta de estatutos representou mais de mil horas de trabalho voluntário e foi entregue ao Sr. Bastonário em tempo útil, Fevereiro de 2012. A metodologia que pensávamos seguir era a sua apresentação e discussão em todas as secções distritais afim de uma maior participação activa dos médicos.

Para espanto nosso, passado um ano, em Fevereiro de 2013, foi entregue ao Senhor Ministro da Saúde uma proposta de estatutos saída da CNE sem se quer ter sido dado um esclarecimento a esta comissão.

Desta forma não podemos desejar a vinda de novos estatutos que tanto nós como quase a totalidade dos médicos desconhece na totalidade o seu conteúdo.

Situações como esta afastam os médicos da Ordem e contribuem para o aumento da abstenção e o desinteresse cresça no seio dos médicos.

Sei que a vontade do Bastonário é abrir as portas da Ordem a todos os médicos no sentido de uma democracia participativa. Pode contar com a nossa equipa!

Connosco pode estar certo que nenhum médico ficará à porta da sede da Ordem e que iremos criar várias comissões de trabalho para estudar os vários temas que se colocam hoje aos médicos e à saúde.

Agradeço toda a colaboração prestada pelo Prof. Dr. Pereira Coelho e pelo Dr. Iglésias na passagem das pastas do Conselho Regional do Sul.

Aos funcionários da Ordem, peço a vossa ajuda para levar à prática o nosso programa para o próximo triénio, na defesa da causa da medicina e da saúde dos portugueses.

Termino com uma frase de Cícero, proferida no ano 42 a.c. : - “ Uma nação pode sobreviver aos idiotas e até aos gananciosos, mas não pode sobreviver à traição gerada dentro de si mesma.”
 

domingo, 15 de dezembro de 2013

ABÍLIO


ABÍLIO, HOJE É O TEU ANIVERSÁRIO. COMO GOSTARIAS DE SABER QUE O TEU IRMÃO FOI ELEITO PARA PRESIDENTE DO CONSELHO REGIONAL DO SUL DA ORDEM DOS MÉDICOS.

Tanta água correu desde esta notícia do jornal de 1 de Agosto de 1974, quando vocês transformaram a vetusta Ordem dos Médicos em Sindicato. Muitas das transformações e da recuperação da Ordem pelos "Srs Doutores " tu ainda assististe em vida.

Mas também viste a construção do Serviço Nacional de Saúde e das Carreiras Médicas sempre com a oposição da direita, encabeçada pelo Gentil Martins. Direita que depois o abandonou à sua sorte. Ainda recordo uma das tuas celebres frases que te davam tanto gozo e a quem as escutava, nas tertúlias de café: -" O Gentil é o Vasco Gonçalves da Direita Médica." Lembras-te que eles tinham medo da socialização da medicina e da proletarização dos médicos e ironia do destino está a acontecer  devido à privatização da saúde e da destruição da classe média pelo capitalismo financeiro.

Sabes que já quase destruíram o SNS, os Hospitais Públicos, as Carreiras Médicas e praticamente todo o Estado Social. Como é que podes saber, se não assististe ao renascimento do liberalismo e à traição dos socialistas com a famosa terceira via, nem ao crack financeiro mundial que começou nos Estados Unidos.

Imagina que este governo de direita, abro um parêntesis: Sabes quem é o primeiro ministro? É o Passos Coelho aquele puto da JSD, casado com uma das Doces, que tu me pediste para ver a filha que nasceu no Hospital Particular, fecho o parêntesis, baixou os salários dos trabalhadores e retirou dinheiro aos pensionistas. Aquela nossa ideia do trabalho gratificante para todos, de pôr ao serviço do Homem as novas tecnologias, reduzir os horários de trabalho para podermos ter mais horas de lazer e de fruição da beleza e do ambiente, já quase ninguém fala e tornou-se um sonho distante.
A nossa geração teve muitas alegrias mas à custa de muito suor e lágrimas, o fascismo, a guerra, o exílio e agora este capitalismo financeiro selvagem.
Selvagem porque utiliza a lei da selva, o mais forte esmaga o mais fraco.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

ELEIÇÕES PARA A ORDEM DOS MÉDICOS




Ontem, dia 12 de Dezembro de 2013, decorreu a votação para os órgãos de direcção da Ordem dos Médicos.

Os resultados definitivos foram conhecidos cerca das 2 da madrugada. A lista A encabeçada por mim ganhou com uma diferença de mais de 200 votos em relação à lista adversária. Assim, sou o novo Presidente do Conselho Regional do Sul da Ordem dos Médicos. o conselho com maior concentração de médicos do país, cerca de vinte mil.

A lista A, encabeçada por Carlos Silva Santos, concorreu e ganhou também na Distrital da Lisboa-Cidade, a maior distrital do país.

Apenas perdemos, por uma diferença de 12 votos, na lista C candidata à Distrital da Grande Lisboa, encabeçada pelo Dr. Ramon de La Féria.

Incongruências das regras do Conselho Nacional Executivo obrigou-nos nesta Distrital a trocar a letra A pela C, apesar de todos os esforços de esclarecimento muitos votantes não perceberam que era a lista por nós apoiada.

A defesa do Serviço Nacional de Saúde, da Medicina e da Saúde da População é o nosso compromisso para com os médicos.







terça-feira, 5 de novembro de 2013

ACORDAI



A foto reproduzida acima e publicada no Mail on Sunday, mostra dois soldados britânicos, pertencentes às tropas estacionadas no Afeganistão, a fazerem a continência nazi. 

Sobre a bandeira da Grã-Bertanha inscreveram:-"INVICTA LOYAL", lema de um clube de fanáticos das tropas especiais.

A indignação no Reino Unido foi geral e surpresa por este gesto de soldados pertencentes a um povo que tanto sofreu durante a II Guerra Mundial com os ataques da Alemanha nazi.

Vários indícios do ressurgimento da besta nazi-fascista aparecem nesta Europa em crise. 
Acordai! Europeus 
Terão sido punidos estes soldados?

ORDEM DOS MEDICOS


CONFERÊNCIA DE IMPRENSA 
LISTA A



ANÚNCIO DAS CANDIDATURAS AO CONSELHO REGIONAL DO SUL E ÀS DISTRITAIS DE LISBOA-CIDADE E DA GRANDE LISBOA. 

NA FOTO: JAIME MENDES, CANDIDATO A PRESIDENTE DO CONSELHO REGIONAL DO SUL E  CARLOS SILVA SANTOS, CANDIDATO A PRESIDENTE DA DISTRITAL DE LISBOA-CIDADE.
O CANDIDATO À PRESIDÊNCIA DA DISTRITAL DA GRANDE LISBOA, ARTUR RAMON DE LA FÉRIA, NÃO SE ENCONTRAVA PRESENTE.

 IMPULSIONAR A MUDANÇA, PERSPECTIVAR O FUTURO, É O LEMA DAS CANDIDATURAS.

O FUTURO PREVÊ-SE NEGRO PARA O SERVIÇO NACIONAL DE SAÚDE, OS MÉDICOS E A SAÚDE DOS PORTUGUESES. 
POR ISSO DEVE ESTAR À FRENTE DA ORDEM UMA EQUIPA COM EXPERIÊNCIA, DETERMINADA E CORAJOSA.

AS ELEIÇÕES PARA O TRIÉNIO 2014/2016 VÃO REALIZAR-SE  A 12 DE DEZEMBRO DE 2013


SIGAM A CAMPANHA NA PÁGINA: https//www.facebook.com/suleilhas


segunda-feira, 28 de outubro de 2013

MANUEL TEIXEIRA GOMES






Ontem, no programa de televisão a Quadratura do Circulo, António Costa para justificar o regresso de Sócrates à política disse, que não conhecia ninguém que tivesse assumido  um cargo de Estado e mais tarde se tivesse afastado  completamente da  politica.

Esqueceu-se de Manuel Teixeira Gomes, sétimo presidente da I República, o "exilado de Bougie", como ficou conhecido depois da obra de Norberto Lopes.


É de Paris que Afonso Costa sugere a candidatura deste intelectual para Presidente da República Portuguesa. Eleito a 6 de Agosto de 1923 resigna ao cargo em 1925 e exila-se voluntariamente  na Argélia, mais concretamente no Bougie, onde fica até ao fim dos seus dias (1941), nunca mais tendo regressado à política ou à sua terra natal, desgostou-se da intriga e do maldizer próprio dos inimigos e dos jornais. 
Inclusive, como a Sócrates, foi - lhe insinuada uma tendência homossexual, ele que tinha no seu currículo várias relações com o sexo oposto.    

Nasceu no ano de 1860, em Portimão e cedo o pai, rico negociante algarvio viu que o seu filho nunca terminaria o curso de Medicina sendo a sua inclinação para a vida artística. Conheceu e travou amizade com os artistas da época, entre eles Columbano a que pertence o quadro acima exposto.

Filho de rico industrial algarvio, viajou por muitos países chegando a tratar dos negócios da família ( exportação de figos).

Republicano desde muito novo, aceitou o cargo de ministro em Londres após a revolução do 5 de Outubro, aí teve um papel importante nas relações com a Monarquia Inglesa, devido aos fracos recursos financeiros da nova Republica, paga do seu bolso a um secretário inglês para o ajudar na sua tarefa diplomática.
Adepto da intervenção militar portuguesa na Primeira Guerra Mundial, representou o País na Conferência de Versalhes e na Sociedade das Nações. 
No seu exílio, em Argel, retomou a escrita publicando vários ensaios e novelas. Os seus escritos sobre viagens e memórias são hoje reconhecidos de uma beleza raras vezes atingida na literatura portuguesa. 
Norberto Lopes, no prefácio de "O Exilado de Bougie", escreveu: "Pudera eu traçar-lhe o perfil que fosse digno da sua personalidade requintada, sóbria, simples como a de um grego do século de Péricles, magnânimo e brilhante como a de um príncipe florentino da Renascença" 

Morre em 1941, aos 81 anos, num quarto de um hotel modesto no Bougie perto de Oran.
Segundo, Norberto Lopes, a dona do hotel ficou admirada de ter como hospede durante anos um Presidente duma República.

A Quadratura do Ciclo fez me recordar este vulto da História de Portugal, mas na realidade nada tem a ver com José Sócrates.

 

 


sexta-feira, 25 de outubro de 2013

LAGRIMAS DE CROCODILO


Lágrimas de Crocodilo




Lágrimas de Crocodilo são as vertidas pelos governantes italianos e europeus, perante a tragédia dos emigrantes e refugiados africanos que tentam desesperadamente chegar à Europa, fugidos da fome e da guerra.
Quando em Maio de 2008 o governo italiano aprovou o chamado "Pacote de Segurança", que tipificava como delito a imigração clandestina e crime, com pena de prisão, a quem ajudasse estrangeiros em situação irregular e isto com o aval dos governos e autoridades europeias. Onde estava a indignação?
O Governo Católico de Espanha deixou sem assistência sanitária quase 900.000 imigrantes. Aonde estava a dor?
A França, terra da Igualdade,Liberdade e Fraternidade, expulsa ciganos romenos porque incomoda a sua maneira diferente de viver. Onde estava a fraternidade?
O que é que as instâncias europeias fizeram?
Em Portugal o apoio aos poucos refugiados é reduzido. O que fizemos?
O Papa Francisco, filho de emigrantes, rezou e chorou os mortos em Lampedusa. Mas nós europeus não nos devíamos ter indignado antes, ao vê-los chegar, às praias do mediterrâneo, pobres vindos de nações ricas. Países com enormes recursos naturais e empobrecidos pela voracidade das grandes multinacionais, com a cumplicidade das oligarquias locais aliadas dos governos europeus.
Devíamos ter gritado quando vimos que a ajuda Norte/Sul se transformou numa grande farsa e resultou numa maior exploração destes povos condenando-os à miséria, são eles que mais tarde desesperados naufragam nas nossas águas.
Lampedusa, ou tantos outros casos que nem sequer conhecemos, são a vergonha desta Europa desumanizada e egoísta espelho das sucessivas politicas levadas metodicamente a cabo pelos seus governos. Os ideais de solidariedade e de capacidade de revolta perante as injustiças gritantes que se desenrolam aos nossos olhos, foram destruídos. Os povos da Europa solidária deram origem ao individualismo e à indiferença do que se passa com o vizinho do lado, para que de mãos dadas nos deixemos docilmente empobrecer, humilhar ou inclusive matar.

A politica neoliberal e o poder financeiro que comanda o mundo conseguiu, como nunca na nossa história recente, a concentração das riquezas nas mãos de muito poucos, são os tais 1%, que falam os indignados norte americanos. Empobrecem nações, mesmo na Europa, como acontece com Portugal, Grécia e Irlanda. 
A contra revolução neoliberal não é só financeira mas também filosófica, desejam o aparecimento do homem novo, inculto, egoísta  obediente e apolítico. 
Margaret Thatcher, exprimiu -o, sem sombras de dúvidas, quando dizia que o objectivo era "mudar a alma" para que no mundo exista não uma sociedade mas indivíduos.

O Papa foi a Lampedusa e acompanhado de um mar de gente cristã rezou e chorou os perto de 500 mortos. Mas não se pode ficar por aqui, cristãos e não cristãos temos de combater as politicas neoliberais, reconquistar a humanidade que temos vindo a perder e começar a criar uma sociedade nova.
Temos de fazer jorrar de dentro de nós o que há de autenticamente humano, repudio à injustiça, revolta, amor, solidariedade, são os  únicos sentimentos de onde podem nascer a consciência e a mobilização necessária para acabar com vergonhas como as de Lampedusa.











segunda-feira, 21 de outubro de 2013


Que comunicação mais actual esta de Guilherme Enes em 8 de Fevereiro de 1916.
" Bem se compreende que a química possua gases asfixiantes e que seja apta para preparar outros mais" e foi quanto caminho andado, desde aqui, na descoberta de armas químicas, cada vez mais destruidoras, a maioria das vezes por cientistas alemães. ( vidê post de Setembro: O Nobel e as armas químicas)
O palestrante fala-nos sobre os gases perigosíssimos de respirar: - O bromo e o cloro liquido- e de outros que produzem grande fumaceira e se condensam logo em tenuíssimas vesículas extremamente finas. O anidrido sulfúrico é o que produz mais fumaça, mas é menos tóxico que os vapores do acido clorídrico, do ácido bromídrico, ou do peróxido de  azoto.
Mais adiante o autor diz:-" Os gazes fétidos e asfixiantes como arma de guerra não devem ser alardes do narcizismo(sic) alemão. Nem lhes ficaria bem." Gosto, como se diz agora nas redes sociais.
" Todos aqueles produtos, e outros muitos da mesma classe, eram há longo tempo e para usos vários, preparados em grande na Alemanha. A questão estava toda em reconhecer quais deles atacavam o ferro ou o aço e aqueles que seriam inofensivos para os envoltórios desta natureza. Estes últimos é que estavam na afinação de marchar com bombas. E, estão marchando; sendo a razão acima dita que talvez explica a prioridade dos alemães no emprego desta sinistra arma de guerra.

A ciência ao serviço da guerra levou depois da II Guerra Mundial à separação das comunidades cientificas, nomeadamente com o isolamento dos cientistas alemães e os programas secretos de investigação das várias potencias.
Justifica-se, ainda hoje, que os investigadores escondam as suas descobertas da comunidade científica internacional em nome de um patriotismo? É a questão que deixo em suspenso.
Ou como dizia Einstein, antigamente tínhamos objectivos perfeitos mas meios imperfeitos. Hoje temos meios perfeitos e grandes possibilidades, mas objectivos confusos.



terça-feira, 15 de outubro de 2013

O bloguer antes do blogue

Fernando Henriques Vaz  foi um médico, creio que dentista, amigo e colega de curso do meu pai, como reza o livro de curso do V ano médico de Lisboa, 1935/1936.
" Médico e jornalista, alma bondosa,/E cheio de talento/ Estou a vê-lo, dedicado e forte/Na senda dolorosa/Do sofrimento/A dar alívio à dor, combate à morte!" escreveu o seu amigo José Augusto de Castro no já citado livro de curso.
Lembra-me dele passar no consultório da António Augusto de Aguiar, para entregar ao meu pai mais um dos seus Quadros Incompletos, todos edição de autor, compostos e impressos numa tipografia no Bombarral.
Ao ler estas crónicas soltas, pensei aqui está:- um bloguer antes da invenção do blogue e da internet.
Numa das suas crónicas descreve com muita minúcia a sua iniciação no Grande Oriente Lusitano, já na clandestinidade, o que não deixa de ter o seu valor histórico.
Hoje, vou falar-vos sobre o que ele chamou de "Tertúlia Famosa" dados sobre a história do 28 de Maio.
Cito:-"Foi-me narrado pelo Sr. Almirante Mendes Cabeçadas que quem chefiava superiormente a Marinha e a revolução era ele e a ele cabia dar o sinal do barco em que ele estaria, como deu, e o Sr. General Alves Roçadas chefiava o exército e iria comandar as forças de Braga." Porém, o General adoeceu e foi-se adiando o dia da revolução. Como ele nunca mais se levantou da cama"...ofereceram insistentemente o comando ao Sr. General Carmona que sempre recusou. Convidaram,então, o Sr General Gomes da Costa que também recusou e só aceitou quando muito ferido no seu brio pessoal pelo próprio Almirante, pelo tenente Pereira de Carvalho, de Braga e muitos outros."
Foi como se sabe Gomes da Costa que comandou os revoltosos.
Prossegue a crónica:-" Nunca o Sr. Almirante quis esclarecer-me uma coisa que me intrigava altamente: - Porque esperou aquele tempo na Amadora?( Segundo uns 7 dias, segundo outros 9, Ele já não precisava) - Esperava por Costa Gomes, dizia"  A resposta vêm-lhe de um artigo, publicado num jornal de Coimbra, do Tenente-coronel Alcides: -" Ética militar, compromissos anteriores e camaradagem mas também porque não estava assente qual seria o Presidente da República. Uns queriam o General Roçadas e outros o Almirante Cabeçadas. Portanto, agora que Roçadas estava às portas da morte, os revoltosos que decidissem. E esperou". 
"-Porque não tentou vencer o "golpe de estado" que o destituiu?
Porque eles eram revoltosos do 28 de Maio, eram-no por influencia minha e portanto reconheci que não se devia esmagar, dias depois, como poderia ter feito, uma vez que tinha comigo toda a guarnição militar de Lisboa, a aviação e os fuzileiros navais."
" - Também me confessou que quando se encontrou com o Dr. Bernardino Machado, e por convocação dele, para lhe fazer a entrega de todos os poderes, logo se arrependeu da sublevação, mas não arrepiou caminho porque tinha empenhada a sua palavra nela e porque, isso, equivalia a ter de se bater com os amigos e com quantos ele revoltara. Uma traição! E não podia ser!...,dizia."
Também nunca acreditou que tivesse sido o Gomes da Costa a destitui-lo 13 dias depois.
HOMEM e MILITAR de Palavra.!
Este pequeno ou grande episódio , mostra -nos à evidência que o 28 de Maio não foi um intentona fascista, como muitas vezes se escreve. Porém, estas e outras hesitações abriram as portas ao fascismo que ficou 48 anos.
Oh Cabeçadas! Grande asneira que fizeste! dizia-lhe, mais tarde, o seu amigo e companheiro de armas o Almirante Tito de Morais.


segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Morreu o General Vo Nguyen Giap Herói do Vietname.

LEMBRAM-SE A OFENSIVA DO TETE 1968

Morreu aos 102 anos de idade, uma figura central na vitória do Vietnam. Primeiro contra o colonialismo francês e depois contra os norte-americanos, à época o maior e mais bem apetrechado exército do Mundo.

Desde muito jovem iniciou a luta pela libertação do seu país em várias organizações clandestinas. 
Foi preso em 1930 e condenado a 3 anos de prisão, foi libertado meses mais tarde. 
Entrou para a Universidade de Hanói em 1933 de onde é expulso passados 2 anos por agitação revolucionária. Na universidade conheceu Dang Xuan Khu, que mais tarde utilizou o pseudónimo de Truong Chinh, o principal ideólogo do Comunismo Vietnamita. Foi ele que recrutou Giap para o Partido Comunista. Consegue terminar os seus estudos em Direito. Publica o seu primeiro livro em 1939, juntamente com Truong Chin, intitulado A QUESTÃO CAMPONESA que aborda o tema da aliança operária/camponesa. No ano seguinte o Partido Comunista da Indochina foi proibido e teve de fugir para a China onde conheceu Ho Chi Minh, aqui estuda a tese da guerra de guerrilha e a guerra popular prolongada. Tese que irá aplicar habilmente no seu país. 
A polícia francesa prendeu a sua esposa e a sua irmã e usou-as como reféns para pressionar Giap a render-se. A repressão foi feroz a sua irmã foi guilhotinada e a sua esposa condenada a prisão perpétua, tendo morrido na prisão devido às torturas sofridas. Os colonialistas franceses não ficaram por aqui, mataram o seu filho recém-nascido, o seu pai, duas irmãs e outros parentes. Em 1941, funda com Ho Chi Minh o Dong Minh, mais conhecido por Vietminh ( Liga para a independência do Vietnam) uma Frente de Libertação Nacional. Neste mesmo ano entra no Vietnam e inicia a guerra de guerrilhas. Junta forças guerrilheiras dispersas e forma um exército capaz de expulsar os franceses. Começa uma campanha de propaganda e recrutamento transformando os agricultores em guerreiros conjugando o treino militar à educação politica. Em 1945, já tinha 10 mil homens sob o seu comando e derrota os japoneses que ocupavam todo o sudeste da Ásia. Com Ho Chi Minh conduz as suas forças para Hanoi e declara a independência do Vietname. Vence as tropas francesas na célebre batalha de Dien Bien Phu, em 7 de Maio de 1954, nem a ajuda dos bombardeiros americanos conseguiram salvar o exercito imperialista francês.
Pela primeira vez na História um país feudal e uma agricultura debil vence um exército experiente e apoiado numa industria próspera e moderna de guerra. Generais franceses conhecidos foram humilhados um após outro. Paris cedeu e os acordos de Paz resultam na divisão do Vietname. O General Giap foi nomeado Ministro da Defesa do Vietname do Norte, como tal volta a conduzir a luta contra os novos invasores utilizando a guerra de guerrilhas. Os primeiros soldados americanos morrem quando a 8 de Julho de 1959 se deu o ataque a uma base militar a nordeste de Saigão. Quatro presidentes norte - americanos lutaram contra o Vietnam, deixando o rastro de sangue de 57.690 americanos mortos e 600 mil soldados vietnamitas. Os Estados Unidos abandonam o país em 1973. A reunificação do Vietname, dois anos depois, acontece quando um tanque do exército revolucionário derrubou o muro da embaixada dos EUA e os últimos invasores fugiram à pressa de helicóptero do telhado do edifício. 
 Ainda hoje as tácticas de guerrilha de Giap são uma das fontes para o estudo de estratégias militares mundiais 



sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Eleições na Ordem dos Médicos







Vou concorrer ao Conselho Regional da Ordem dos Médicos, numa lista alargada que reúne todas aqueles que apoiam incondicionalmente o Serviço Nacional de Saúde Constitucional, na defesa dos doentes e dos profissionais de saúde.
O SNS é a maior realização da Democracia Portuguesa por isso é nossa obrigação lutar por ele.
O SNS tem sofrido os ataques dos governantes com as politicas de austeridade impostas e também da Europa com as exigências do novo tratado Europeu ( "compacto fiscal")

Informo os meus seguidores que vou deixar de escrever com tanta regularidade no blogue, pelo menos até dia 18 de Outubro data para a entrega das listas a concorrer