sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Breves 2


Esta foi uma semana de assinaturas.


Já está!! Após inúmeras reuniões a AMPDS- Associação Médica Pelo Direito à Saúde já tem reconhecimento jurídico.

Agora vamos ao trabalho. Esta associação tem como um dos objectivos promover debates e acções na defesa do direito constitucional à saúde.

O direito à saúde para todos os cidadãos passa inevitavelmente pela defesa do Serviço Nacional de Saúde Constitucional universal e gratuito.


Breves


Festa do Livro em Belém dia 21 de Setembro de 2017

É o segundo ano em que se realiza esta iniciativa da Presidência da República - Festa do Livro nos Jardins de Belém-
A cultura entra no palácio não só com a música, a pintura e a escultura mas também com os livros.
Fui apresentar o meu livro CORRESPONDÊNCIA DE ABÍLIO MENDES COM ABEL SALAZAR
Troca epistolar entre o jovem Abílio e o seu Mestre Abel Salazar.

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Morrer e Renascer em Guernica

Foto da parede do meu escritório

MORRER E RENASCER EM GUERNICA

«Decidi acabar rapidamente com a guerra no Norte: os que entregarem as armas terão a vida salva e os seus bens serão salvaguardados. Mas, se a submissão não for imediata, arrasarei toda a Biscaia»
   General Mola




No verão de 1967, estava a Teresa gravidíssima do nosso filho mais velho Carlos Miguel, visitei Praga integrado numa delegação de estudantes portugueses a viver no estrangeiro.

A reunião ia realizar-se em Varsóvia sob os auspícios da União Internacional de Estudantes. Na capital da Polónia reencontraram-se estudantes portugueses no exílio vindos de muitos países: França, Bélgica, Suíça, Itália, Alemanha, Checoslováquia, Hungria, Jugoslávia, Roménia, Polónia, URSS.

Em Praga, além das lembranças obrigatórias para a futura mãe e o bebé que ia nascer, comprei uma cópia da Guernica que ainda hoje, passados 50 anos, se exibe numa parede de minha casa.

Faz 90 anos que Pablo Picasso mostrou esta gigantesca obra de arte na Exposição Universal de Paris (25/5 a 25/11 de 1937).

Meses antes, precisamente na segunda-feira, 26 de Abril de 1937, dia de mercado, a população desta pequena vila basca, com cerca de sete mil habitantes, estava na rua aproveitando os primeiros raios de sol que anunciavam o início da primavera. Em seguida, às cinco da tarde os sinos tocam a rebate e cinco minutos depois….
a legião Condor, elite da Luftwaffe, menina dos olhos de Goering, experimenta um novo método, chamado "tapete de bombas", os aviões eram "Heinkel 111" e "Junker 52".

O bombardeamento durou três horas. As vagas sucediam-se com precisão de vinte em vinte minutos. Todo o centro desta cidade santa* chamada Guernica foi destruído. Mil seiscentos e cinquenta e quatro mortos, oitocentos e nove feridos.

O general alemão Galland, comandante da esquadrilha alemã, dirá mais tarde: «Guernica não era um objectivo militar, foi um lamentável erro». Hoje diria um dano colateral.

A Europa assiste, de balcão em Hendaye, à destruição da República Espanhola, perante a passividade da França, Inglaterra e dos Estados Unidos, apenas a União Soviética trabalha para a derrota do fascismo.
A política de não-intervenção permitiu a vitória do fascismo em Espanha e o reforço belicista da Alemanha e da Itália.

Perante este horror, Pablo Picasso, a viver em Paris, aceita o pedido do governo espanhol de participar na Exposição  Universal de Paris. A decisão estava tomada: seria Guernica. O quadro fará depois a volta por todos os museus do mundo a fim de financiar os republicanos espanhóis. Foi seu desejo que o quadro só seria exposto em Espanha depois do regresso da Democracia. E assim foi.

A força desta obra de um génio da pintura fez com que a guerra não tenha sido esquecida nem a besta nazi-fascista.

Fez com que a verdade tenha vencido mesmo em Espanha e  no Portugal fascistas que intoxicavam o povo com a mentira de que Guernica tinha sido incendiada pelos combatentes bascos e os vermelhos.

Esta campanha durou até aos anos 70, do seculo XX.

Só em 1975, a Alemanha reconhece oficialmente que Guernica tinha sido bombardeada pela aviação alemã. Em 27 de Março de 1997, o então Presidente da República Federal Alemã, Herzog, convidado pelo centro "Gernika Gogoratuz", entrega uma declaração formal assumindo aquele passado.

Símbolo do massacre de populações civis, Guernica não deve ser esquecida. Infelizmente a memória dos homens é curta e estes massacres repercutiram-se no Vietnam e perduram noutros conflitos, como atualmente no Médio Oriente. 

*Cidade santa. Ao longo dos séculos, os reis de Espanha vinham, uma vez por ano, diante do velho carvalho de Guernica (haritz em basco), prestar juramento de respeitar as liberdades dos bascos. Sob o carvalho de Guernica-a-Santa, os anciãos vinham fazer justiça.

Fontes: Marianne, Expresso, Morrer em Madrid

A saúde e o mercado


A saúde e o mercado

Nunca houve tanta preocupação, nem tanta informação, com os alimentos que ingerimos como neste século, mas espantosamente a epidemia da obesidade aumenta em todo o mundo dito desenvolvido.
Claro que as grandes empresas capitalistas aproveitam-se desta justa preocupação para vender os seus produtos, denegrir outros numa concorrência desleal.
Multiplicam-se as dietas "saudáveis " : Sem sal, sem gordura, sem açúcar, sem leite, sem alcool, sem chocolate".
 Vegetarianas com peixe ou sem peixe, com ovos ou sem ovos.
Pululam artigos científicos e pseudo-cientificos, a maioria das vezes a negar aquilo que julgávamos certo. "O chocolate faz bem se for negro, o café combate o Alzheimer, a gordura é necessária, um copo de bom vinho aquece o coração, a água deve ser alcalina, etc..etc..
 Publicitam-se na TV remédios milagrosos para emagrecer e os pobres dos obesos continuam cada vez mais obesos.
Isto vem a propósito de um possível incidente diplomático entre a Itália e a Inglaterra a propósito do prosecco.
Passo a publicidade, mas até há um mês não sabia o que era esta bebida italiana produzida em Veneza. Foi na festa do primeiro aniversário do Matteo que o seu pai ofereceu gentilmente a todos os convidados, adultos bem entendido, uma pequena garrafa de prosecco.
Se na pátria lusa esta bebida não é conhecida já não se passa o mesmo do outro lado do canal da mancha. Parece que um terço da produção de tal néctar é consumido por este povo. Um aviso foi dado pelos responsáveis britânicos pela saúde dentária dos seus compatriotas.
Médicos dentistas socorreram-se da imprensa generalista para alertar que esta bebida tão apreciada pelos súbditos de sua majestade  tinha o risco sério devido à sua acidez, gaseificação  e o seu teor elevado em açúcar na presença do álcool formarem um cocktail nocivo para os dentes. Claro que os jornais apelidaram os consumidores da bebida de um "prosecco smile" pouco sedutor.
A Itália não gostou que lhe estragassem o negócio do espumante veneziano. Responsáveis políticos convidaram a imprensa inglesa a abster-se de tais comentários. Luca Zaia, presidente da região de Veneza, troçou : " A ideia segundo a qual o prosecco tira o sorriso faz me rir"
Os dentistas britânicos ficaram em maus lençóis pois ignoraram a preocupação manifestada há um ano por Boris Johnson antes da votação do Brexit que a Itália não poderia recusar abrir o mercado à Inglaterra com medo de não poder vender o seu prosecco.
Os dentistas sem arrepiarem caminho vieram dizer que era apenas um aviso para o perigo do excesso dessa bebida assim como a soda e outras bebidas gasosas.   


domingo, 6 de agosto de 2017

Pais poderão acompanhar os filhos no Bloco Operatório


Pais poderão acompanhar os filhos no Bloco Operatório
…Mas as crianças, Senhor, porque lhes dás tanta dor?! …
Augusto Gil. Balada da Neve

Despacho n.º 6668/2017, publicado no DR nº 148/2017, serie II de 2017-08-02, ao permitir aos pais acompanharem  os filhos, na indução anestésica e durante o recobro,  veio legalizar aquilo que já se praticava há muitos anos nos serviços de cirurgia pediátrica em Portugal, como na maioria dos países desenvolvidos.
Quando iniciei a minha carreira cirúrgica, nos anos setenta, a entrada das crianças no bloco operatório e mesmo nas salas de tratamento era um verdadeiro drama. Arrancavam-se as crianças ao colo das mães eram anestesiadas aos gritos em choro convulsivo e todas elas acordavam também aos gritos.
Apesar de já existirem nos hospitais comissões de humanização que nada opinavam, eram quase sempre constituídas por médicos e enfermeiras de adultos.
Os direitos da criança hospitalizada e dos pais foi uma conquista alcançada como quase  todas com oposição de grande parte da classe médica e de enfermagem.
Estou a falar dos anos logo a seguir ao 25 de Abril de 1974.
Lembro-me da resistência que houve da parte de enfermeiras chefes em permitirem aos pais da criança doente permanecerem durante a noite nas enfermarias. Foi uma luta que os Pediatras juntamente com os pais das crianças ganharam*
Contudo, conseguir o acompanhamento dos pais até ao bloco operatório foi mais longo e difícil.
Deve-se aos cirurgiões e anestesistas pediatras, os pais poderem ir até ao momento da indução anestésica e ficarem depois no recobro quando a criança acorda.
Foi assim em todos os estabelecimentos de saúde onde trabalhei, depois dos mais velhos se terem aposentado ou convencido.
Foi prática no Hospital de Santa Maria, no IPOFGL e no Hospital Inglês.  Nunca houve nenhuma infecção hospitalar  e o mau comportamento dos pais foi excepção. Aqui tenho de fazer justiça às enfermeir@s que rapidamente aderiram ao novo procedimento tendo sido uma ajuda preciosa.
Segundo as últimas noticias que vi na comunicação social, hoje este procedimento  é norma em todos os serviços de cirurgia pediátrica do país e julgo saber também nos serviços de Otorrinolaringologia.
É evidente, que compete às direcções de serviços arranjarem condições para esclarecerem os pais e as crianças através de sessões explicativas de preferência na véspera seguidas de visita à enfermaria e ao bloco. Aliás, vem expresso no preambulo do despacho:

a)- A formação do pai ou da mãe ou de pessoa que os substitua, através de consultas pré-operatórias a realizar por parte da equipa de saúde, que podem incluir visitas pré-operatórias e vídeos informativos, no caso das intervenções cirúrgicas programadas;

b) A existência de local próprio onde o pai ou a mãe ou pessoa que o substitua possa trocar de roupa e depositar os seus pertences;
c) A prestação adequada de formação sobre o cumprimento de todas as regras relativas ao equipamento de proteção individual e de higiene inerentes à presença em bloco operatório e unidade de recobro;
d) A definição de um circuito em que o pai ou a mãe ou pessoa que o substitua possa movimentar-se, sem colocar em causa a privacidade de outras crianças ou jovens e seus familiares, nem o funcionamento normal do serviço.

Curiosamente foi devido as estes pressupostos que no Hospital de Santa Maria, a Cirurgia Pediátrica, conseguiu não ficar com salas operatórias nas obras realizadas do novo bloco cirúrgico ambulatório, exatamente por não terem sido previstas as determinações citadas  nas alíneas  b e c
Esperemos que no novo hospital a construir em Chelas/ Marvila se cumpra na integra o estipulado na carta do direito da criança hospitalizada**
Há cerca de 20 anos que se iniciou este caminho, por isso espanta-me a atitude de certos médicos, não querendo acreditar que seja a do colégio de anestesiologia da Ordem dos Médicos, que estão contra este despacho.
São estas atitudes que vão de encontra a chalaça que os hospitais são um sítio agradável mas sem os doentes.

* Os médicos norte americanos e europeus vieram do Vietnam impressionados positivamente pela atitude das vietnamitas a não se deixarem separar dos filhos doentes e do seu comportamento nas enfermarias que auxiliavam em muito as poucas enfermeiras existentes. Os exemplos vem de onde menos se espera.

** Carta aprovada por várias associações em 1988, em Leiden.

sexta-feira, 4 de agosto de 2017