quinta-feira, 25 de janeiro de 2018
A
FUGA DE CEREBROS
"Este
parte, aquele parte e todos e todos se vão ...."
Cantar da emigração
Os mais velhos lembram-se,
ainda, da magnifica voz de Adriano Correia
de Oliveira que interpretou o Cantar de Emigração com letra de Rosália
de Castro e música de José Niza.
A saída massiva de jovens
sobretudo do Norte de Portugal e da Galiza, fugidos da fome e da guerra
colonial, zonas castigadas pelo êxodo, regiões que ficaram sem homens "que
podem cortar teu pão".
Nos anos sessenta Paris era
considerada a segunda cidade do país, com maior concentração de
portugueses.
Uma semana antes de passar a
fronteira a salto para fugir de ser preso pela PIDE, tinham atravessado de uma
vez, por essa fronteira, trinta jovens minhotos que seguiam clandestinamente para
trabalhar em França, e em que condições! atravessaram a Espanha e transpuseram os
Pirenéus.
Hoje, volvidos cinquenta anos, com a liberdade
conquistada, a descolonização e o desenvolvimento do país. O terceiro D da
revolução de Abril, nunca completamente realizado.
Assistimos ao êxodo de
jovens com formação universitária que deixam o país outra vez sem mulheres e
homens que possam cortar o seu pão.
A fuga de cérebros é uma emigração
em massa de indivíduos com aptidões técnicas ou de conhecimentos, normalmente devido a
fatores como conflitos étnicos e guerras, falta de oportunidade, riscos à saúde e instabilidade política
nestes países. Uma fuga de cérebros é geralmente considerada custosa
economicamente, uma vez que os emigrados obtiveram suas formações de maneira
patrocinada pelo governo.
A fuga de
cérebros pode ser estagnada, através do fornecimento de conhecimento científico
para a sociedade para que ela tenha oportunidades de carreira iguais e
dando-lhes oportunidades de provar as suas capacidades. O termo foi usado para descrever a fuga de
cientista no pós guerra da Europa para a América do Norte. ( definição dada por
Wikipedia)
No nosso país, a saída massiva de técnicos, entre os quais profissionais
de saúde médicos e enfermeiros, deve-se às más condições de trabalho, falta de
oportunidade destruição de carreiras e baixos salários.
A troika impôs-nos despedimentos e cortes salariais e este
governo foi muito para além das medidas impostas o que levou ao aumento nunca
visto de desempregados.
O estudo, coordenado por Tiago Reis Marques, ele próprio a
trabalhar no King´s College, em Londres e
publicado na Acta Médica Portuguesa, revista cientifica da Ordem dos
Médicos chega a resultados preocupantes, que os nossos governantes devem tomá-los
em conta e não assobiar para o lado como é costume.
Quatrocentos mil euros é quanto custa ao país formar um
médico e cerca de 60% de estudantes, admite emigrar e o numero aumenta para 74%
quando se interrogam os internos no ultimo ano da especialidade.
Estes números vem provar o que há muito a Ordem dos Médicos
alertava. O numero de pedidos de
atestados para exercer medicina no estrangeiro tem vindo a aumentar, só na
região sul os pedidos atingem no primeiro quadrimestre de 2015, uma média
mensal de 22 atestados.
Há muito que os médicos perceberam a politica deste governo,
formação em massa de médicos indiferenciados para numa lógica puramente
economicista da lei da oferta e da procura oferecer baixos salários.
A promessa do Ministro em dar um médico de família a um
milhão de portugueses, até ao fim do mandato ficou nisso mesmo, uma Promessa.
A contratação de médicos reformados revelou - se um fracasso
porque as verdadeiras causas das reformas antecipadas, degradação dos serviços
médicos, não foram compreendidas.
Este período, pré eleitoral faz lembrar outra canção também
cantada por Adriano o Sr. Morgado, para quem não conheça cito uma das estrofes Topa um influente, sou um seu criado/
Eleições à porta, seja Deus louvado/ Seja Deus louvado/ Seja Deus louvado.
A fuga dos cérebros não se limita apenas aos médicos e aos
enfermeiros onde as agências estrangeiras vêm ao nosso país proceder ao seu
recrutamento.
A porta da emigração estende-se a outros profissionais com
habilitações superiores.
O Conselho Nacional das Ordens Profissionais C.N.O.P., que representa 16 Ordens Profissionais e mais
de 300 mil profissionais redigiu em 9 de Junho de 2015 uma carta dirigida ao
Primeiro-Ministro dando conta da remuneração de profissionais qualificados
oferecidas pelo Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP)
consideradas ofensivas da dignidade destes jovens.
Assim, a carta dá conhecimento de um anuncio publicado no
jornal Diário de Notícias, em 16 de Abril deste ano:
" Um engenheiro mecânico que aceite um trabalho
na zona de Anadia vai ganhar 515 euros mensais ilíquidos. A oferta, publicada
no site do IEFP, insere-se no programa Estímulo Emprego, que financia empresas
para contratar desempregados......"
A esta noticia, similar a outras, somaram-se referências à
subcontratação do Estado a valores que rondam os 4,0 Euros/hora para
profissionais qualificados.
E desiludam-se aqueles que pensam que a maioria destes jovens
vão retornar ao país, com as péssimas condições de trabalho oferecidas, os
nossos concidadãos irão fixar-se noutras regiões e aí, casam, têm filhos e irão
contribuir para o desenvolvimento de outros países.
Há países como a Irlanda que também sofreram o êxodo de
profissionais qualificados devido às medidas de austeridade impostas pela
Troika mas tentam agora reverter a
situação oferecendo salários mais justos. Este é o caminho que os nossos
governantes devem seguir.
terça-feira, 9 de janeiro de 2018
Jesse Owens
4 medalhas de ouro em Berlim
O
Desporto é uma profissão?
"mens
sane in corpore sane"
Cristiano Ronaldo
ganha 10 mil euros à hora ( TVI 24), Messi e Ibrahimovic, e mais futebolistas também
não ficam longe desses valores, os jogadores de basquetebol, nos Estados Unidos, chegam a valores semelhantes, e por aí fora nadadores, ciclistas,
maratonistas, tenistas.
Praticamente já não
existem atletas olímpicos amadores.
O capitalismo
conseguiu perverter todo o sentido do desporto como era encarado na antiguidade
grega.
A coroa de louros e o
ramo de palmeira constituíam os prémios dos jogos helénicos. Prémios
simbólicos. O jovem grego batia-se pela glória de triunfar nas provas, como afirma Sílvio Lima, em 1939, no seu livro " Desportismo Profissional", cadernos Culturais, ed Inquérito
"Em resumo: o
desporto helénico - na sua idade de oiro- nunca foi um exercício
profissional."
Durante grande parte do século XX muito se discutiu. sobre o desporto amador
versus desporto profissional.
Sílvio Lima, professor
da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, que, em 1935, foi alvo de
depuração política da Universidade pelo Estado Novo, escreveu vários livros
sobre este assunto,, entre os quais o já citado "Desportismo Profissional".
Filósofo e
percursor das Ciências da Educação explana neste livro o desporto como um ócio
aplicado, um lazer activo e a sua relação com o trabalho e o seu papel
democratizante e de solidariedade humana.
Como muitos outros fenómenos
que se passaram no século passado a profissionalização do desporto foi se
insinuando e chegou-se ao estado actual com vencimentos escandalosos de
desportistas, levando jovens a doparem-se com hormonas ou estimulantes, conduzindo muitas vezes à morte, com o conhecimento de mestres e
familiares, visando atingir performances quase irrealizáveis, a par de enormes
fortunas, atraídos pelo Eldorado. A era da mercantilização do desporto intalou-se.
Pierre de Coubertin,
patrono dos modernos jogos olímpicos, foi um dos grandes responsáveis pelo
adulteramento do espírito dos jogos pan-helénicos.
Introduz o valor do mais forte, encoraja a melhoria constante das performances, produzindo campeões olímpicos
Introduz o valor do mais forte, encoraja a melhoria constante das performances, produzindo campeões olímpicos
Despreza o desporto
popular , política seguida por governos progressistas, opondo-se à educação física
igualitária..
Mostra-se reticente à
introdução da participação feminina. Os jogos eram a expressão da força viril.
Colonialista fervoroso, reconhece uma certa força física aos representantes das
raças inferiores, mas com restrições. Marchar atrás dos brancos e compreender
os códigos das disciplinas olímpicas. Recusa admitir o futebol como modalidade
olímpica por ser demasiado popular.
Apoia a manutenção dos Jogos Olímpicos em Berlim, o Comité Olímpico Internacional tinha proposto esta cidade, em 1931, quando a Alemanha era uma república parlamentar.
Apoia a manutenção dos Jogos Olímpicos em Berlim, o Comité Olímpico Internacional tinha proposto esta cidade, em 1931, quando a Alemanha era uma república parlamentar.
Pierre de Coubertin
não esconde a sua admiração por Hitler. Os governos da Frente Popular em França
e da República em Espanha, opôem-se à participação dos respectivos países nos jogos
de Berlim. Para eles, participar era colaborar com a Alemanha Nazi.
A chama olímpica erguida
por jovens com o uniforme das juventudes hitlerianas percorre toda a Alemanha.
e entra em apoteose no estádio em Berlim
O Comité Olímpico
Internacional aceitou tudo:o ritual nazi da chama olímpica,orquestrado por
Goebbels, à exclusão dos desportistas judeus e antifascistas alemães. O COI já
desde 1917 recusava-se a dialogar com a URSS.
Houve quem preparasse
o boicote a estes jogos, tentando organizar as olimpíadas de Barcelona. Um dos
grandes promotores foi Léo Lagrange, sub-secretário de Estado da Organização
dos Tempos Livres e dos Desportos do governo de Léon Blum. Apesar dos ataques
da direita e do voto parlamentar da participação da França nos Jogos Olímpicos
em Berlim, apenas com o voto contra do jovem deputado Mendès France, as
olímpiadas da Catalunha mantiveram-se com a participação de atletas franceses,
espanhóis e soviéticos. Não se iriam tocar os hinos nacionais e as delegações
saudavam em conjunto cantando a Internacional.
Oficialmente marcadas para 23 de Julho de 1936, têm de ser anuladas devido à rebelião militar contra a República, dirigida por Franco. Na noite de 18 para 19 de Julho ouvem-se tiros em Barcelona. A guerra civil em Espanha tinha começado.
Oficialmente marcadas para 23 de Julho de 1936, têm de ser anuladas devido à rebelião militar contra a República, dirigida por Franco. Na noite de 18 para 19 de Julho ouvem-se tiros em Barcelona. A guerra civil em Espanha tinha começado.
Resta aos
antifascistas de todo o mundo a consolação da vitória de um negro americano Jesse
Owens com 4 medalhas de ouro que deitou por terra a superioridade ariana e
enraiveceu os dirigentes nazis.
Desde esta data os
jogos olímpicos nunca mais foram interrompidos
Mas, como se pode ler
na wikipedia: " O COI também
teve de acomodar os Jogos para as diferentes variáveis económicas, políticas e
realidades tecnológicas do século XX. Como resultado, os Jogos Olímpicos se
afastaram do amadorismo puro, como imaginado por Coubertin, para permitir a
participação de atletas profissionais. A crescente importância dos meios de comunicação gerou a questão do patrocínio corporativo
e a comercialização dos Jogos.
Discordo da afirmação
" como imaginado por Coubertin" como redigi mais acima a introdução
do espírito competitivo a outrance levou como escreve Silvio Lima : - "
Todos os grandes espíritos gregos ( Sócrates, Platão, Aristóteles, Hipócrates,
Galeno ) são unanimes em fulminar o atletismo profissional; este cria o
desequilíbrio físico-moral, o suborno, o parasitismo, a própria ruina do
individuo como soldado ( pg 33, Desportismo Profissional, cadernos Culturais,
ed Inquérito, 1939)
quinta-feira, 14 de dezembro de 2017
Diapositivo retirado da comunicação que apresentei no VII Congresso da Comunidade Médica de Língua Portuguesa, no Porto em 2016
"Um sistema de saúde cuja ambição é de permitir
a todos o acesso aos melhores
cuidados de saúde deve ser financiado, e
suficientemente financiado, pelo Estado
ou por um sistema de seguros de saúde
organizado pelo Estado. O mercado não
está apto a garantir um equilíbrio de
oferta e de procura de oferta médica, porque ele
produz quer a exclusão, quer o
sobre consumo, ou ainda, como mostra o exemplo
segunda-feira, 27 de novembro de 2017
Infelizmente este artigo continua muito actual, ainda nada foi mudado
O ZÉ*
“Onda de frio em Portugal” noticiava a televisão. Isto é que
é frio, resmungava o Zé, habituado a temperaturas de 10 graus negativos na sua
terra natal e com pouca roupa para o agasalho, aquecendo-se com um copo de
aguardente, apesar dos seus dez anos de idade, quando acompanhava o pai no
trabalho do campo, mesmo quando no inverno não havia muito que fazer.
“Desculpa de mau pagador para justificar o aumento de mortes,
neste mês de Janeiro de 2015, mais mil mortes que no ano anterior, e oito nos
serviços de urgência dos hospitais”, dizia entredentes o Zé.
Frio e calor conhecia ele quando teve de ir trabalhar nas
minas da Urgeiriça. Comer uma sardinha no pão e sopas de cavalo cansado todos
os dias não era vida… Aí deu cabo dos pulmões, porque a saúde pública era coisa
dos livros. Um dia, um médico viu-o à radioscopia e disse: Zé procura outro
modo de vida antes que a mina dê cabo de ti.
Então chegou o dia de ir às sortes e embarcar para a Guiné para
combater os turras.
Veio de lá desfeito. Nunca tinha visto homens morrerem ao seu
lado e nunca tinha morto ninguém. Calor não faltava! Quando deu baixa ao
hospital militar, ficou a saber que tinha apanhado a sífilis em Lisboa e as
sezões em África. Terminado o seu contributo patriótico ficou de novo sem nada.
Casou. A Maria teve cinco filhos, alguns, sabe-se lá como nasceram: um veio
atravessado e foi o cabo dos trabalhos. O dinheiro era pouco e resolveu
emigrar.
Que frio de rachar! Até os ossos lhe doíam nos bidonvilles de
Paris e mais tarde nas montanhas da Suíça.
O Zé regressou com algum dinheiro que angariou lá fora, mais
uma pequena pensão. Riu e chorou com o 25 de Abril.
Agora queria descansar e ser tratado com dignidade quando
está doente e recorre aos hospitais e sobretudo não queria morrer sozinho num
corredor de um hospital.
O Serviço Nacional de Saúde, obra dos profissionais de saúde,
conseguiu ganhos em saúde como nunca se tinham atingido em Portugal. Basta
comparar indicadores como as taxas de mortalidade infantil (77,5%o em 1960 per
2,9%o em 2013) e o aumento da esperança de vida à nascença que agora se situa
ligeiramente abaixo da média da OCDE. Contudo, se considerarmos a esperança de
vida saudável, isto é sem doenças crónicas, o país encontra-se muito abaixo da
média da OCDE.
A Maria e o Zé não querem morrer sozinhos - os filhos estão
todos no estrangeiro - no corredor de um hospital.
Temos obrigação, perante os Zés e Marias deste país, de exigir
uma política de Saúde correta, com a implementação de uma estratégia que
corresponda às necessidades de toda a nossa população, incluindo o milhão e tal
de idosos.
Não é de espantar que os nossos e Zés e Marias, agora com 76
anos, sofram de várias doenças, consequência da vida difícil que levaram.
As leis do mercado não funcionam na Saúde. O Estado tem que
intervir, e bastante, se quer cumprir o que ficou inscrito na Constituição.
Onde está a rede domiciliária de apoio? Quem a controla? Onde
está a rede de cuidados continuados? Porque se reduziu o número de camas
hospitalares? Porque só agora deixam os hospitais contratarem diretamente
profissionais de saúde (auxiliares, enfermeiros e médicos)?
E o reforço nas urgências, que poderia ser prestado pelos médicos reformados numa situação de emergência, porque
é que só agora se vai legislar?
Este ministro, na sua obsessão de cortes nas despesas e nas
medidas de austeridade, que ultrapassaram as exigidas pela TróiKa, como o congelamento
de salários e a redução das despesas em horas extraordinárias, é o responsável
pelo caos nas urgências deste país que não aguentam uma baixa de temperatura
térmica e uma “epidemia de gripe”.
O Zé e a Maria exigem: senhor ministro demita-se !
*Artigo Publicado no Público em Janeiro de 2015
terça-feira, 17 de outubro de 2017
In MEMORIAM II
IN MEMORIAM II
ABÍLIO MENDES NO CONSULTÓRIO DA ANTÓNIO AUGUSTO DE AGUIAR
Na aurora (2)
Na primeira parte deste artigo destaquei a importância do desenvolvimento dos sentidos entre eles o tacto.
Passo a transcrever a continuação da primeira parte do artigo publicado no nº 16 de Julho de 1965 do Boletim do Clube do Pessoal da Companhia Nacional de Electricidade ( CNE) actual EDP.
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"...De todas as expressões da criança que atestam a mais rápida maturidade dos seus sentidos, são, sem dúvida, aquelas que se evidenciam na mão que vêm marcar o mais luzido progresso do Homem de amanhã. Nascendo de mãos abertas num oferecimento da sua solidariedade, executa movimentos síncronos, à esquerda e à direita, testemunhos de um equilíbrio potencial dos hemisférios cerebrais. O espectáculo dos trabalhos de iniciação plástica da criança de hoje auguram provavelmente um progresso futuro das capacidades intelectivas no homem de amanhã. E assim veremos quanta responsabilidade cabe à tarefa educativa da primeira infância. Todos os seus gestos indicam um interesse pelo conhecimento táctil. Mais ou menos rápidos e vibrantes, a principio, tornam-se mais rítmicos e ordenados depois. Cada célula que se acende no cérebro associa-se a outras e muitas outras, impondo as limitações justas.
Cabe a cada Mãe estimular ou suavizar os seus movimentos, ajudando a moderar um impetuoso ou a acelerar um pachorrento. Um cerebrotónico ou um somatónico têm solicitações pedagógicas adequadas.
Ao fim da fase parasitária, à entrada do 2º trimestre, a criança constata que os movimentos dos dedos são impulsionados por uma vontade que se define. Assim, a visão, o tacto e os primeiros gestos condicionados dos deditos vão estruturar uma primeira noção de relevo. E a pouco e pouco o espaço será delineado em trajectórias percorridas repetidamente, sem descanso, no objectivo de quem conquista o desconhecido. A criança dá-nos deste modo o testemunho do seu alcance visual.
É necessário começar também a aguçar o seu gosto pelos alimentos. Comer à colher os seus alimentos ricos em vegetais, é estimular o desenvolvimento de sistemas auto-reguladores da mastigação, insalivação e deglutição. Tudo será feito com o cuidado de quem ensina a tornar vivo o paladar num saboreio constante das refeições mais variadas, agora. Não será um glutão como não será um insípido. De face esguia e olhar vivo, a criança começa a formar a sua mímica, de molde a abandonar a expressão balofa do menino que mama. A saliva crescente nesta idade será gasta na digestão dos alimentos que permanecem algum tempo na boca. A deglutição far-se-à automaticamente pelas goteiras laterais da faringe e o estômago tomará então uma nova forma, menos deitado e de sístoles mais ritmadas. A forma do ventre do menino e a base do seu tórax dependem muito da maneira como são tomadas as suas refeições e do respeito dos intervalos digestivos.
Começa, portanto, a formar-se a independência da criança e eis-nos chegados às primeiras matinadas.
Ao fim da fase parasitária, à entrada do 2º trimestre, a criança constata que os movimentos dos dedos são impulsionados por uma vontade que se define. Assim, a visão, o tacto e os primeiros gestos condicionados dos deditos vão estruturar uma primeira noção de relevo. E a pouco e pouco o espaço será delineado em trajectórias percorridas repetidamente, sem descanso, no objectivo de quem conquista o desconhecido. A criança dá-nos deste modo o testemunho do seu alcance visual.
É necessário começar também a aguçar o seu gosto pelos alimentos. Comer à colher os seus alimentos ricos em vegetais, é estimular o desenvolvimento de sistemas auto-reguladores da mastigação, insalivação e deglutição. Tudo será feito com o cuidado de quem ensina a tornar vivo o paladar num saboreio constante das refeições mais variadas, agora. Não será um glutão como não será um insípido. De face esguia e olhar vivo, a criança começa a formar a sua mímica, de molde a abandonar a expressão balofa do menino que mama. A saliva crescente nesta idade será gasta na digestão dos alimentos que permanecem algum tempo na boca. A deglutição far-se-à automaticamente pelas goteiras laterais da faringe e o estômago tomará então uma nova forma, menos deitado e de sístoles mais ritmadas. A forma do ventre do menino e a base do seu tórax dependem muito da maneira como são tomadas as suas refeições e do respeito dos intervalos digestivos.
Começa, portanto, a formar-se a independência da criança e eis-nos chegados às primeiras matinadas.
sábado, 14 de outubro de 2017
Nacionalismos
Ver parte da região catalã em França. Pirenéus Oriental
Nacionalismos
Habla
castellano! Habla Castellano! Habla Castellano ! Popoo! Popoo! Popoo! chamada
desligada
Estávamos em
casa do Torres, colega do meu irmão Abílio no colégio. Eu devia ter uns dez
anos e nunca mais me esqueci.
O Torres era
um catalão que vivia no Estoril, como os condes de Barcelona1, mas além desta coincidência (?), era o melhor guarda-redes
de andebol do Colégio Infante Sagres. Admirava-o pela sua destreza e os voos
espetaculares na defesa à baliza apesar da sua forte constituição, que hoje
seria mesmo classificada de obesidade.
Um dos seus
entretimentos era irritar as meninas do PBX 2 em
Espanha (nos anos 50 todos os telefonemas passavam por telefonistas em centrais
telefónicas manuais ) quando telefonava
para a sua avó, em Barcelona, e falava em castelhano.
Franco, o
ditador, tinha proibido a língua catalã, falada ou escrita, em toda a Espanha.
O fascismo tinha saído vencedor e todo o poder ficou centralizado em Madrid, de
tal forma que se chegava ao ridículo de que em qualquer ponto de Espanha os
marcos na estrada mostrarem sempre a distância a que ficavam da capital.
No Natal de
1938, as tropas fascistas iniciam o ataque à Catalunha que termina em fevereiro
de 1939, com duzentos mil soldados republicanos feitos prisioneiros. São
interrogados, separados, e os presumíveis culpados executados. Os outros, libertados alguns meses depois, virão a ser os
párias do regime. O fim da Catalunha foi o começo do grande êxodo, são
trezentos mil a fugir para a fronteira. As tropas franquistas encerram a última
fronteira. Os vencidos não podem já escolher o exílio.
A 31 de
Dezembro de 1939, Franco proclama: "Do
que precisamos é de uma Espanha unida, consciente. É preciso liquidar os ódios
e as paixões deixadas pela nossa guerra passada". Não conseguiu, com a
repressão, prisão e morte nos trinta e seis anos que reinou em Espanha, tal
como antes a República Espanhola também não tinha conseguido.
Juan Negrin 3, presidente do governo da Segunda República, disse em plena
guerra civil:"Não estou a fazer a guerra contra Franco para que se reviva
em Barcelona um separatismo estúpido e medíocre".
O presidente
Azaña 4 também se mostrou profundamente
pesaroso com o nacionalismo catalão pelas, segundo ele, "escandalosas
provas não solidárias e de indiferença, de hostilidade, de chantagem que a
politica catalã destes meses deu à República". Momentos de alta tensão
viveu-se entre a coligação republicano-socialista que governava Madrid e a
Esquerda Republicana, maioritária na Catalunha.
Indalecio
Prieto 5 chegou a afirmar que a atitude da
ERC, desde a proclamação da República, constituía " um acto de
deslealdade" como nunca tinha conhecido em toda a sua vida política".
Mesmo no mais aceso da guerra civil espanhola as relações entre Madrid e
Barcelona foram más, como mostra a decisão dos comunistas de considerarem fora
da lei o (POUM) Partido Operário de Unificação Marxista e a proclamação por
Negrin da ilegalidade desta organização. Durante a clandestinidade a esquerda
espanhola e o nacionalismo catalão tentaram melhorar as suas relações.
Socialistas e independentistas bascos e catalães aspiravam a criar uma
"Comunidade Ibérica das Nações". Sol de pouca dura! Todos os povos de Espanha e Portugal
sofreram as ditaduras fascistas.
Os governos
pós franquistas também não conseguiram resolver este problema dos separatismos
catalães e bascos. Rajoy e o PP são os herdeiros diretos do franquismo e na sua
estúpida e brutal reação ao referendo catalão (juridicamente ilegal)
conseguiram fazer mais adeptos independentistas do que nos 500 anos de luta da
Catalunha pela separação de Espanha.
Como
declaração de interesses digo que nada me une a uma ou outra parte.
Sou apenas
um cidadão português que tem participado nas lutas políticas desde o início dos
anos sessenta e penso que os acontecimentos nesta região irão ter repercussões
sobre o nosso país. Alguém já disse que quando a Espanha espirra Portugal
estremece…
A discussão
nestes últimos dias face aos acontecimentos em Barcelona centra-se nas ideias
de nacionalismo, legalidade e democracia.
Nacionalismo - Sempre achei que a esquerda convive
mal com nacionalismos e pelo contrário luta pela união dos povos, sempre no
respeito pelas diferenças.
A comparação
da Catalunha com o nosso país é ridícula. Portugal já era independente séculos
antes do domínio dos Filipes e a luta pela independência foi uma necessidade da
burguesia em ascensão contra a aristocracia conservadora pró-Castela, além de
que durou perto de 28 anos.
A legalidade e a democracia - Não sou jurista, mas todos estão de
acordo que o referendo na Catalunha é ilegal segundo as leis espanholas, hoje
um estado democrático.
Por um lado
uma democracia deve respeitar as suas, leis votadas pelos representantes
eleitos pelo povo, mas por outro lado a lei não pode ignorar as maiorias, o que
parecia não existir, mas que a resposta brutal do governo Rajoy a transformou.
Face ao
choque de dois nacionalismos, o catalão e o espanhol cabe aos espanhóis
ultrapassar esta crise. Se necessário rever a Constituição e realizar novas
eleições.
Por que é
que a parte francesa da Catalunha, hoje Pirenéus ocidental, não pede a
separação do estado francês e o seu sentir catalão resume-se a puro folclore?
Julgo que é
por que a departamentação em França, decidida em 1790, logo após a revolução
francesa, foi uma verdadeira regionalização, ao contrário do que sucedeu em Espanha.
Assistimos à
exacerbação de todos os nacionalismos quer do lado catalão como do espanhol. Esperemos
que o bom senso oriente os governantes e se encontre uma formula que satisfaça
ambas as partes.
Quando não
se acredita mais no diálogo para resolver dificuldades comuns, só restam os
atos e os tristes exemplos que nos tem dado a História.
________________________
(1) Pretendente ao trono de Espanha e exilado no Estoril durante
o franquismo
(2) nos anos 50, as centrais
telefónicas eram manuais e todos os
telefonemas passavam por telefonistas
(3) . Ocupou o lugar de presidente do governo de
Espanha de 1937 a 1939 e de Presidente do Governo da República no exílio até
1945
(4) Segundo e último Presidente efectivo da
Segunda República Espanhola
+++++Socialista e Ministro
da Segunda República Espanhola
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