quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

ADRIANO CORREIA DE OLIVEIRA - CANTAR DE EMIGRAÇÃO






A FUGA DE CEREBROS
"Este parte, aquele parte e todos e todos se vão ...."
Cantar da emigração

Os mais velhos lembram-se, ainda, da magnifica voz de Adriano Correia  de Oliveira que interpretou o Cantar de Emigração com letra de Rosália de Castro e música de José Niza.
A saída massiva de jovens sobretudo do Norte de Portugal e da Galiza, fugidos da fome e da guerra colonial, zonas castigadas pelo êxodo, regiões que ficaram sem homens "que podem cortar teu pão".
Nos anos sessenta Paris era considerada a segunda cidade do país, com maior concentração de portugueses.  
Uma semana antes de passar a fronteira a salto para fugir de ser preso pela PIDE, tinham atravessado de uma vez, por essa fronteira, trinta jovens minhotos que seguiam clandestinamente para trabalhar em França, e em que condições! atravessaram a Espanha e transpuseram os Pirenéus.
 Hoje, volvidos cinquenta anos, com a liberdade conquistada, a descolonização e o desenvolvimento do país. O terceiro D da revolução de Abril, nunca completamente realizado.
Assistimos ao êxodo de jovens com formação universitária que deixam o país outra vez sem mulheres e homens que possam cortar o seu pão.
A fuga de cérebros é uma emigração em massa de indivíduos com aptidões técnicas ou de conhecimentos, normalmente devido a fatores como conflitos étnicos e guerras, falta de oportunidade, riscos à saúde e instabilidade política nestes países. Uma fuga de cérebros é geralmente considerada custosa economicamente, uma vez que os emigrados obtiveram suas formações de maneira patrocinada pelo governo.
A fuga de cérebros pode ser estagnada, através do fornecimento de conhecimento científico para a sociedade para que ela tenha oportunidades de carreira iguais e dando-lhes oportunidades de provar as suas capacidades.  O termo foi usado para descrever a fuga de cientista no pós guerra da Europa para a América do Norte. ( definição dada por Wikipedia)

No nosso país, a saída massiva de técnicos, entre os quais profissionais de saúde médicos e enfermeiros, deve-se às más condições de trabalho, falta de oportunidade destruição de carreiras e baixos salários.
A troika impôs-nos despedimentos e cortes salariais e este governo foi muito para além das medidas impostas o que levou ao aumento nunca visto de desempregados.
O estudo, coordenado por Tiago Reis Marques, ele próprio a trabalhar no King´s College, em Londres e  publicado na Acta Médica Portuguesa, revista cientifica da Ordem dos Médicos chega a resultados preocupantes, que os nossos governantes devem tomá-los em conta e não assobiar para o lado como é costume.
Quatrocentos mil euros é quanto custa ao país formar um médico e cerca de 60% de estudantes, admite emigrar e o numero aumenta para 74% quando se interrogam os internos no ultimo ano da especialidade.
Estes números vem provar o que há muito a Ordem dos Médicos alertava.  O numero de pedidos de atestados para exercer medicina no estrangeiro tem vindo a aumentar, só na região sul os pedidos atingem no primeiro quadrimestre de 2015, uma média mensal de 22 atestados.
Há muito que os médicos perceberam a politica deste governo, formação em massa de médicos indiferenciados para numa lógica puramente economicista da lei da oferta e da procura oferecer baixos salários.
A promessa do Ministro em dar um médico de família a um milhão de portugueses, até ao fim do mandato ficou nisso mesmo, uma Promessa.
A contratação de médicos reformados revelou - se um fracasso porque as verdadeiras causas das reformas antecipadas, degradação dos serviços médicos, não foram compreendidas.
Este período, pré eleitoral faz lembrar outra canção também cantada por Adriano o Sr. Morgado, para quem não conheça cito uma das estrofes Topa um influente, sou um seu criado/ Eleições à porta, seja Deus louvado/ Seja Deus louvado/ Seja Deus louvado.
A fuga dos cérebros não se limita apenas aos médicos e aos enfermeiros onde as agências estrangeiras vêm ao nosso país proceder ao seu recrutamento. 
A porta da emigração estende-se a outros profissionais com habilitações superiores.
O Conselho Nacional das Ordens Profissionais C.N.O.P.,  que representa 16 Ordens Profissionais e mais de 300 mil profissionais redigiu em 9 de Junho de 2015 uma carta dirigida ao Primeiro-Ministro dando conta da remuneração de profissionais qualificados oferecidas pelo Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP) consideradas ofensivas da dignidade destes jovens.
Assim, a carta dá conhecimento de um anuncio publicado no jornal Diário de Notícias, em 16 de Abril deste ano:
" Um engenheiro mecânico que aceite um trabalho na zona de Anadia vai ganhar 515 euros mensais ilíquidos. A oferta, publicada no site do IEFP, insere-se no programa Estímulo Emprego, que financia empresas para contratar desempregados......"
A esta noticia, similar a outras, somaram-se referências à subcontratação do Estado a valores que rondam os 4,0 Euros/hora para profissionais qualificados.
E desiludam-se aqueles que pensam que a maioria destes jovens vão retornar ao país, com as péssimas condições de trabalho oferecidas, os nossos concidadãos irão fixar-se noutras regiões e aí, casam, têm filhos e irão contribuir para o desenvolvimento de outros países.
Há países como a Irlanda que também sofreram o êxodo de profissionais qualificados devido às medidas de austeridade impostas pela Troika mas  tentam agora reverter a situação oferecendo salários mais justos. Este é o caminho que os nossos governantes devem seguir.

terça-feira, 9 de janeiro de 2018




Jesse Owens 
4 medalhas de ouro em Berlim



O Desporto é uma profissão?
"mens sane in corpore sane"

Cristiano Ronaldo ganha 10 mil euros à hora ( TVI 24), Messi e Ibrahimovic, e mais futebolistas também não ficam longe desses  valores, os jogadores de basquetebol, nos Estados Unidos, chegam a valores semelhantes, e por aí fora nadadores, ciclistas, maratonistas, tenistas.

Praticamente já não existem atletas olímpicos amadores.

O capitalismo conseguiu perverter todo o sentido do desporto como era encarado na antiguidade grega.

A coroa de louros e o ramo de palmeira constituíam os prémios dos jogos helénicos. Prémios simbólicos. O jovem grego batia-se pela glória de triunfar nas provas, como afirma Sílvio Lima, em 1939, no seu livro " Desportismo Profissional", cadernos Culturais, ed Inquérito
"Em resumo: o desporto helénico - na sua idade de oiro- nunca foi um exercício profissional."

Durante grande parte do século XX muito se discutiu. sobre o desporto amador versus desporto profissional.

 Sílvio Lima, professor da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, que, em 1935, foi alvo de depuração política da Universidade pelo Estado Novo, escreveu vários livros sobre este assunto,, entre os quais o já citado "Desportismo Profissional".

Filósofo e percursor das Ciências da Educação explana neste livro o desporto como um ócio aplicado, um lazer activo e a sua relação com o trabalho e o seu papel democratizante e de solidariedade humana.

Como muitos outros fenómenos que se passaram no século passado a profissionalização do desporto foi se insinuando e chegou-se ao estado actual com vencimentos escandalosos de desportistas, levando jovens a doparem-se com hormonas ou estimulantes, conduzindo muitas vezes à morte, com o conhecimento de mestres e familiares, visando atingir performances quase irrealizáveis, a par de enormes fortunas, atraídos pelo Eldorado. A era da mercantilização do desporto intalou-se.

Pierre de Coubertin, patrono dos modernos jogos olímpicos, foi um dos grandes responsáveis pelo adulteramento do espírito dos jogos pan-helénicos. 

 Introduz o valor do mais forte, encoraja a melhoria constante das performances, produzindo campeões olímpicos

Despreza o desporto popular , política seguida por governos progressistas, opondo-se à educação física igualitária..

Mostra-se reticente à introdução da participação feminina. Os jogos eram a expressão da força viril. Colonialista fervoroso, reconhece uma certa força física aos representantes das raças inferiores, mas com restrições. Marchar atrás dos brancos e compreender os códigos das disciplinas olímpicas. Recusa admitir o futebol como modalidade olímpica por ser demasiado popular.

Apoia a manutenção dos Jogos Olímpicos em Berlim, o Comité Olímpico Internacional tinha proposto esta cidade, em 1931, quando a Alemanha era uma república parlamentar.

Pierre de Coubertin não esconde a sua admiração por Hitler. Os governos da Frente Popular em França e da República em Espanha, opôem-se à participação dos respectivos países nos jogos de Berlim. Para eles, participar era colaborar com a Alemanha Nazi.

A chama olímpica erguida por jovens com o uniforme das juventudes hitlerianas percorre toda a Alemanha. e entra em apoteose no estádio em Berlim

O Comité Olímpico Internacional aceitou tudo:o ritual nazi da chama olímpica,orquestrado por Goebbels, à exclusão dos desportistas judeus e antifascistas alemães. O COI já desde 1917 recusava-se a dialogar com a URSS.

Houve quem preparasse o boicote a estes jogos, tentando organizar as olimpíadas de Barcelona. Um dos grandes promotores foi Léo Lagrange, sub-secretário de Estado da Organização dos Tempos Livres e dos Desportos do governo de Léon Blum. Apesar dos ataques da direita e do voto parlamentar da participação da França nos Jogos Olímpicos em Berlim, apenas com o voto contra do jovem deputado Mendès France, as olímpiadas da Catalunha mantiveram-se com a participação de atletas franceses, espanhóis e soviéticos. Não se iriam tocar os hinos nacionais e as delegações saudavam em conjunto cantando a Internacional

Oficialmente marcadas para 23 de Julho de 1936, têm de ser anuladas devido à rebelião militar contra a República, dirigida por Franco. Na noite de 18 para 19 de Julho ouvem-se tiros em Barcelona. A guerra civil em Espanha tinha começado.

Resta aos antifascistas de todo o mundo a consolação da vitória de um negro americano Jesse Owens com 4 medalhas de ouro que deitou por terra a superioridade ariana e enraiveceu os dirigentes nazis.

Desde esta data os jogos olímpicos nunca mais foram interrompidos

Mas, como se pode ler na wikipedia: " O COI também teve de acomodar os Jogos para as diferentes variáveis económicas, políticas e realidades tecnológicas do século XX. Como resultado, os Jogos Olímpicos se afastaram do amadorismo puro, como imaginado por Coubertin, para permitir a participação de atletas profissionais. A crescente importância dos meios de comunicação gerou a questão do patrocínio corporativo e a comercialização dos Jogos.

Discordo da afirmação " como imaginado por Coubertin" como redigi mais acima a introdução do espírito competitivo a outrance levou como escreve Silvio Lima : - " Todos os grandes espíritos gregos ( Sócrates, Platão, Aristóteles, Hipócrates, Galeno ) são unanimes em fulminar o atletismo profissional; este cria o desequilíbrio físico-moral, o suborno, o parasitismo, a própria ruina do individuo como soldado ( pg 33, Desportismo Profissional, cadernos Culturais, ed Inquérito, 1939)

Bibliografia: Desportismo Profissional; Marianne

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017




Diapositivo retirado da  comunicação que apresentei no VII Congresso da Comunidade Médica de Língua Portuguesa, no Porto em 2016





"Um sistema de saúde cuja ambição é de permitir a todos o acesso aos melhores 

cuidados de saúde deve ser financiado, e suficientemente financiado, pelo Estado 

ou por um sistema de seguros de saúde organizado pelo Estado. O mercado não 

está apto a garantir um equilíbrio de oferta e de procura de oferta médica, porque ele 

produz quer a exclusão, quer o sobre consumo, ou ainda, como mostra o exemplo 

dos Estados Unidos, as duas coisas.”

palavras de Ruth Dreifuss ex Presidente da Confederação Helvética

segunda-feira, 27 de novembro de 2017




Infelizmente este artigo continua muito actual, ainda nada foi mudado





O  ZÉ*

“Onda de frio em Portugal” noticiava a televisão. Isto é que é frio, resmungava o Zé, habituado a temperaturas de 10 graus negativos na sua terra natal e com pouca roupa para o agasalho, aquecendo-se com um copo de aguardente, apesar dos seus dez anos de idade, quando acompanhava o pai no trabalho do campo, mesmo quando no inverno não havia muito que fazer.
“Desculpa de mau pagador para justificar o aumento de mortes, neste mês de Janeiro de 2015, mais mil mortes que no ano anterior, e oito nos serviços de urgência dos hospitais”, dizia entredentes o Zé.
Frio e calor conhecia ele quando teve de ir trabalhar nas minas da Urgeiriça. Comer uma sardinha no pão e sopas de cavalo cansado todos os dias não era vida… Aí deu cabo dos pulmões, porque a saúde pública era coisa dos livros. Um dia, um médico viu-o à radioscopia e disse: Zé procura outro modo de vida antes que a mina dê cabo de ti.
Então chegou o dia de ir às sortes e embarcar para a Guiné para combater os turras.
Veio de lá desfeito. Nunca tinha visto homens morrerem ao seu lado e nunca tinha morto ninguém. Calor não faltava! Quando deu baixa ao hospital militar, ficou a saber que tinha apanhado a sífilis em Lisboa e as sezões em África. Terminado o seu contributo patriótico ficou de novo sem nada. Casou. A Maria teve cinco filhos, alguns, sabe-se lá como nasceram: um veio atravessado e foi o cabo dos trabalhos. O dinheiro era pouco e resolveu emigrar.
Que frio de rachar! Até os ossos lhe doíam nos bidonvilles de Paris e mais tarde nas montanhas da Suíça.
O Zé regressou com algum dinheiro que angariou lá fora, mais uma pequena pensão. Riu e chorou com o 25 de Abril.
Agora queria descansar e ser tratado com dignidade quando está doente e recorre aos hospitais e sobretudo não queria morrer sozinho num corredor de um hospital.
O Serviço Nacional de Saúde, obra dos profissionais de saúde, conseguiu ganhos em saúde como nunca se tinham atingido em Portugal. Basta comparar indicadores como as taxas de mortalidade infantil (77,5%o em 1960 per 2,9%o em 2013) e o aumento da esperança de vida à nascença que agora se situa ligeiramente abaixo da média da OCDE. Contudo, se considerarmos a esperança de vida saudável, isto é sem doenças crónicas, o país encontra-se muito abaixo da média da OCDE.
A Maria e o Zé não querem morrer sozinhos - os filhos estão todos no estrangeiro - no corredor de um hospital.
Temos obrigação, perante os Zés e Marias deste país, de exigir uma política de Saúde correta, com a implementação de uma estratégia que corresponda às necessidades de toda a nossa população, incluindo o milhão e tal de idosos.
Não é de espantar que os nossos e Zés e Marias, agora com 76 anos, sofram de várias doenças, consequência da vida difícil que levaram.
As leis do mercado não funcionam na Saúde. O Estado tem que intervir, e bastante, se quer cumprir o que ficou inscrito na Constituição.
Onde está a rede domiciliária de apoio? Quem a controla? Onde está a rede de cuidados continuados? Porque se reduziu o número de camas hospitalares? Porque só agora deixam os hospitais contratarem diretamente profissionais de saúde (auxiliares, enfermeiros e médicos)?
E o reforço nas urgências, que poderia ser prestado pelos médicos reformados numa situação de emergência, porque é que só agora se vai legislar?
Este ministro, na sua obsessão de cortes nas despesas e nas medidas de austeridade, que ultrapassaram as exigidas pela TróiKa, como o congelamento de salários e a redução das despesas em horas extraordinárias, é o responsável pelo caos nas urgências deste país que não aguentam uma baixa de temperatura térmica e uma “epidemia de gripe”.

O Zé e a Maria exigem: senhor ministro demita-se !

*Artigo Publicado no Público em Janeiro de 2015

terça-feira, 17 de outubro de 2017

In MEMORIAM II

IN MEMORIAM II


ABÍLIO MENDES NO CONSULTÓRIO DA ANTÓNIO AUGUSTO DE AGUIAR

Na aurora (2)

Na primeira parte deste artigo destaquei a importância do desenvolvimento dos sentidos entre eles o tacto.

Passo a transcrever a continuação da primeira parte do artigo publicado no nº 16 de Julho de 1965 do Boletim do Clube do Pessoal da Companhia Nacional de Electricidade ( CNE) actual EDP.
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"...De todas as expressões da criança que atestam a mais rápida maturidade dos seus sentidos, são, sem dúvida, aquelas que se evidenciam na mão que vêm marcar o mais luzido progresso do Homem de amanhã. Nascendo de mãos abertas num oferecimento da sua solidariedade, executa movimentos síncronos, à esquerda e à direita, testemunhos de um equilíbrio potencial dos hemisférios cerebrais. O espectáculo dos trabalhos de iniciação plástica da criança de hoje auguram provavelmente um progresso futuro das capacidades intelectivas no homem de amanhã. E assim veremos quanta responsabilidade cabe à tarefa educativa da primeira infância. Todos os seus gestos indicam um interesse pelo conhecimento táctil. Mais ou menos rápidos e vibrantes, a principio, tornam-se mais rítmicos e ordenados depois. Cada célula que se acende no cérebro associa-se a outras e muitas outras, impondo as limitações justas.

Cabe a cada Mãe estimular ou suavizar os seus movimentos, ajudando a moderar um impetuoso ou a acelerar um pachorrento.  Um cerebrotónico ou um somatónico têm solicitações pedagógicas adequadas.

Ao fim da fase parasitária, à entrada do 2º trimestre, a criança constata que os movimentos dos dedos são impulsionados por uma vontade que se define. Assim, a visão, o tacto e os primeiros gestos condicionados dos deditos vão estruturar uma primeira noção de relevo. E a pouco e pouco o espaço será delineado em trajectórias percorridas repetidamente, sem descanso, no objectivo de quem conquista o desconhecido. A criança dá-nos deste modo o testemunho do seu alcance visual.

É necessário começar também a aguçar o seu gosto pelos alimentos. Comer à colher os seus alimentos ricos em vegetais, é estimular o desenvolvimento de sistemas auto-reguladores da mastigação, insalivação e deglutição. Tudo será feito com o cuidado de quem ensina a tornar vivo o paladar num saboreio constante das refeições mais variadas, agora. Não será um glutão como não será um insípido. De face esguia e olhar vivo, a criança começa a formar a sua mímica, de molde a abandonar a expressão balofa do menino que mama. A saliva crescente nesta idade será gasta na digestão dos alimentos que permanecem algum tempo na boca. A deglutição far-se-à automaticamente pelas goteiras laterais da faringe e o estômago tomará então uma nova forma, menos deitado e de sístoles mais ritmadas. A forma do ventre do menino e a base do seu tórax dependem muito da maneira como são tomadas as suas refeições e do respeito dos intervalos digestivos.

Começa, portanto, a formar-se a independência da criança e eis-nos chegados às primeiras matinadas.



sábado, 14 de outubro de 2017

Nacionalismos

Ver parte da região catalã em França.  Pirenéus Oriental



Nacionalismos
Habla castellano! Habla Castellano! Habla Castellano ! Popoo! Popoo! Popoo! chamada desligada
Estávamos em casa do Torres, colega do meu irmão Abílio no colégio. Eu devia ter uns dez anos e nunca mais me esqueci.
O Torres era um catalão que vivia no Estoril, como os condes de Barcelona1, mas além desta coincidência (?), era o melhor guarda-redes de andebol do Colégio Infante Sagres. Admirava-o pela sua destreza e os voos espetaculares na defesa à baliza apesar da sua forte constituição, que hoje seria mesmo classificada de obesidade.
Um dos seus entretimentos era irritar as meninas do PBX 2 em Espanha (nos anos 50 todos os telefonemas passavam por telefonistas em centrais telefónicas manuais ) quando  telefonava para a sua avó, em Barcelona, e falava em castelhano.

Franco, o ditador, tinha proibido a língua catalã, falada ou escrita, em toda a Espanha. O fascismo tinha saído vencedor e todo o poder ficou centralizado em Madrid, de tal forma que se chegava ao ridículo de que em qualquer ponto de Espanha os marcos na estrada mostrarem sempre a distância a que ficavam da capital.  

No Natal de 1938, as tropas fascistas iniciam o ataque à Catalunha que termina em fevereiro de 1939, com duzentos mil soldados republicanos feitos prisioneiros. São interrogados, separados, e os presumíveis culpados executados. Os outros,  libertados alguns meses depois, virão a ser os párias do regime. O fim da Catalunha foi o começo do grande êxodo, são trezentos mil a fugir para a fronteira. As tropas franquistas encerram a última fronteira. Os vencidos não podem já escolher o exílio.
A 31 de Dezembro de 1939, Franco proclama: "Do que precisamos é de uma Espanha unida, consciente. É preciso liquidar os ódios e as paixões deixadas pela nossa guerra passada". Não conseguiu, com a repressão, prisão e morte nos trinta e seis anos que reinou em Espanha, tal como antes a República Espanhola também não tinha conseguido.

Juan Negrin 3, presidente do governo da Segunda República, disse em plena guerra civil:"Não estou a fazer a guerra contra Franco para que se reviva em Barcelona um separatismo estúpido e medíocre".
O presidente Azaña 4 também se mostrou profundamente pesaroso com o nacionalismo catalão pelas, segundo ele, "escandalosas provas não solidárias e de indiferença, de hostilidade, de chantagem que a politica catalã destes meses deu à República". Momentos de alta tensão viveu-se entre a coligação republicano-socialista que governava Madrid e a Esquerda Republicana, maioritária na Catalunha.
Indalecio Prieto 5 chegou a afirmar que a atitude da ERC, desde a proclamação da República, constituía " um acto de deslealdade" como nunca tinha conhecido em toda a sua vida política". Mesmo no mais aceso da guerra civil espanhola as relações entre Madrid e Barcelona foram más, como mostra a decisão dos comunistas de considerarem fora da lei o (POUM) Partido Operário de Unificação Marxista e a proclamação por Negrin da ilegalidade desta organização. Durante a clandestinidade a esquerda espanhola e o nacionalismo catalão tentaram melhorar as suas relações. Socialistas e independentistas bascos e catalães aspiravam a criar uma "Comunidade Ibérica das Nações". Sol de pouca dura! Todos os povos de Espanha e Portugal sofreram as ditaduras fascistas.

Os governos pós franquistas também não conseguiram resolver este problema dos separatismos catalães e bascos. Rajoy e o PP são os herdeiros diretos do franquismo e na sua estúpida e brutal reação ao referendo catalão (juridicamente ilegal) conseguiram fazer mais adeptos independentistas do que nos 500 anos de luta da Catalunha pela separação de Espanha.

Como declaração de interesses digo que nada me une a uma ou outra parte.
Sou apenas um cidadão português que tem participado nas lutas políticas desde o início dos anos sessenta e penso que os acontecimentos nesta região irão ter repercussões sobre o nosso país. Alguém já disse que quando a Espanha espirra Portugal estremece…
A discussão nestes últimos dias face aos acontecimentos em Barcelona centra-se nas ideias de nacionalismo, legalidade e democracia.
Nacionalismo - Sempre achei que a esquerda convive mal com nacionalismos e pelo contrário luta pela união dos povos, sempre no respeito pelas diferenças.
A comparação da Catalunha com o nosso país é ridícula. Portugal já era independente séculos antes do domínio dos Filipes e a luta pela independência foi uma necessidade da burguesia em ascensão contra a aristocracia conservadora pró-Castela, além de que durou perto de 28 anos.
A legalidade e a democracia - Não sou jurista, mas todos estão de acordo que o referendo na Catalunha é ilegal segundo as leis espanholas, hoje um estado democrático.
Por um lado uma democracia deve respeitar as suas, leis votadas pelos representantes eleitos pelo povo, mas por outro lado a lei não pode ignorar as maiorias, o que parecia não existir, mas que a resposta brutal do governo Rajoy a transformou.
Face ao choque de dois nacionalismos, o catalão e o espanhol cabe aos espanhóis ultrapassar esta crise. Se necessário rever a Constituição e realizar novas eleições.
Por que é que a parte francesa da Catalunha, hoje Pirenéus ocidental, não pede a separação do estado francês e o seu sentir catalão resume-se a puro folclore?
Julgo que é por que a departamentação em França, decidida em 1790, logo após a revolução francesa, foi uma verdadeira regionalização, ao contrário do que sucedeu em Espanha.
Assistimos à exacerbação de todos os nacionalismos quer do lado catalão como do espanhol. Esperemos que o bom senso oriente os governantes e se encontre uma formula que satisfaça ambas as partes.
Quando não se acredita mais no diálogo para resolver dificuldades comuns, só restam os atos e os tristes exemplos que nos tem dado a História.
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(1) Pretendente ao trono de Espanha e exilado no Estoril durante o franquismo
(2) nos anos 50, as centrais telefónicas eram manuais e todos os telefonemas passavam por telefonistas
(3) . Ocupou o lugar de presidente do governo de Espanha de 1937 a 1939 e de Presidente do Governo da República no exílio até 1945
(4)  Segundo e último Presidente efectivo da Segunda República Espanhola
+++++Socialista e Ministro da Segunda República Espanhola