terça-feira, 27 de março de 2018




VACINAÇÃO OBRIGATÓRIA ?


O recente surto de sarampo no nosso país, que se iniciou no Porto e que foi detectado como primeiro transmissor um cidadão estrangeiro, veio levantar de novo, a velha polémica da vacinação obrigatória.

O sarampo é uma doença altamente infecciosa que pode ter complicações graves, necessitando muitas vezes de hospitalização. Tem como consequência, um absentismo escolar de cerca de 10 dias com um custo elevado para os serviços de saúde e para a sociedade no seu conjunto.

Graças ao alto índice de vacinação, em Portugal há mais de 20 anos que não se detectava um caso de sarampo. Isto não acontecia em muitos países, nomeadamente da Europa.

A Itália, por exemplo, faz parte dos 18 Estados europeus onde a transmissão endémica não foi interrompida* de 2008 a 2012, 14 375 casos foram declarados, atingindo pessoas de todas as idades.  Lácio, região central da Itália, registou 295 casos (20,5%) dos quais 27% atingiram crianças com menos de 14 anos. Neste período, a taxa de cobertura vacinal aos 2 anos era de 84,5%. Entre os 248 doentes que recorreram às urgências do hospital pediátrico de Lácio, 113 (45,6%) foram hospitalizados.

Apesar dos esforços dos serviços de saúde de todos os países que seguem as recomendações da OMS, os maus resultados devem-se ao crescimento do movimento anti vacinas que se tem espalhado por vários países e continentes.

O movimento anti vacinas não é novo. Contudo, seria mais compreensível no início do século XX. As medidas corretas de saúde pública tomadas ao longo dos séculos foram muitas vezes impostas às populações, recorrendo não poucas vezes às forças da ordem (isolamento dos casos de lepra, etc..).

Lembremos como a primeira vacina isolada, a antivariólica, nem sempre foi bem aceite. Mas, foi devido a ela e à teimosia dos profissionais de saúde pública que se conseguiu erradicar do planeta esta terrível doença.

A sua obrigatoriedade, no Brasil, ficou conhecida como a revolta da vacina**

Vejamos: entre os dias 10 e 18 de Novembro de 1904, a cidade do Rio de Janeiro viveu o que a imprensa chamou de "a mais terrível das revoltas populares da República". O cenário era desolador - bondes tombados, trilhos arrancados, calçamentos destruídos - tudo feito por uma massa de 3000 revoltosos. A causa foi a lei que tornava obrigatória a vacina contra a Varíola. E a personagem principal, foi o jovem médico sanitarista Oswaldo Cruz.
No meio do conflito, com saldo de 30 mortos, 110 feridos, cerca de 1000 detidos e centenas de deportados, aconteceu um golpe de Estado… A revolta foi sufocada e a cidade, remodelada… O Rio de Janeiro perderia o título de " túmulo dos estrangeiros"… A futura "Cidade Maravilhosa" era, então, pestilenta. A situação era tão crítica que durante o verão, os diplomatas estrangeiros, se refugiavam em Petrópolis, para se livrar do contágio. Em 1895, ao atracar no Rio, o contratorpedeiro italiano Lombardia perdeu 234 de seus 337 tripulantes pela febre amarela.
Apesar de todos os incidentes, foi com a mesma firmeza que Oswaldo Cruz bancou a campanha contra a Varíola. Na noite de 14 para 15 de Novembro, enviou a mulher e os filhos para a casa do amigo Sales Guerra e seguiu, ele mesmo, para a casa do cientista Carlos Chagas, que mais tarde descobrira a causa do mal de Chagas.
(Cássio Leite Vieira - https://super.abril.com.br/historia/oswaldo- cruz-e-a-varíola-a-revolta-da-vacina) **

Entre nós, a causa próxima da revolta da Maria da Fonte deveu-se à proibição, pelo ministro Costa Cabral, de enterrar os mortos nas igrejas. Uma medida correta de saúde pública.

Porém, em pleno seculo XXI, a contestação às medidas de saúde pública são mais sofisticadas e apresentam argumentos pseudocientíficos (taxa de mercúrio, etc..).

O substrato apresentado para a não obrigatoriedade da vacinação é apenas filosófico - a liberdade de escolha e a relação médico doente. O médico deve esforçar-se por explicar ao seu interlocutor os benefícios da vacinação para ele e para a comunidade.

A obrigatoriedade de cumprir o plano nacional de vacinações não pressupõe que este seja feito apenas por decreto e em nada retira o papel importantíssimo das equipas de saúde de proximidade no esclarecimento das populações. Mas o que fazer quando uma minoria de pais recusa a vacinação dos seus filhos e por outro lado exige a sua frequência escolar.

Na defesa da obrigatoriedade da vacinação está o facto de que a liberdade individual não se pode sobrepor ao interesse da colectividade

Por isso defendo que a obrigatoriedade da vacinação para crianças e profissionais de saúde seria uma medida correta, na certeza de que não levaria a uma nova revolta da Vacina.


*Ciofi degli Atti M e Coll. : Measles cases in children requiring hospital acess in na academic pediatric hospital in Italy, 2008-2013. Pediatric Infect. Dis J.,2017;36:844-848
**Figueiredo Lima: Serendipidade e outras histórias na Medicina, ed. Chiado, 2018;164-165


quarta-feira, 14 de março de 2018


Carregue neste link , para ler o artigo do público sobre a gestão privada dos hospitais públicos



https://www.publico.pt/2018/03/11/sociedade/opiniao/o-malestar-nos-hospitais-publicos-1805131

quinta-feira, 1 de março de 2018

Galinha Turista


Contos de emigração e exílio
A Galinha turista
A pedido de vários seguidores, retomo a escrita sobre estas historietas passadas em países distantes.

O José, transmontano de várias gerações e de boa cepa, exilado em terras helvéticas, suportava bem o frio e a neve do longo Inverno, pois já tinha sofrido temperaturas muito baixas na sua região.
Terra conhecida por ter nove meses de inverno e três de inferno, infelizmente sem as condições mínimas para guardar o calor do corpo, o que torna rija as gentes aí nascidas.
O sítio onde apanhei mais frio foi na Lixa, numa casa desabitada, quando andei fugido da PIDE, e muito mais tarde nas campanhas de dinamização cultural, em Sernancelhe, durante o inverno de 75. Aí, eu ressenti o mesmo frio que gela os ossos.
À noite, os lençóis da cama estavam alagados e a Dona Emília, cozinheira e parteira do hospital, entre muitos mais atributos, passava-os carinhosamente a ferro, antes de nos deitarmos.  
Voltemos ao nosso amigo José. As grandes saudades que ele tinha da terra eram da comida, do cheiro do fumeiro e do paladar apurado.
Por nunca na vida trocaria um bom presunto por uma fondue de queijo. Que raio de povo em que as especialidades culinárias são queijo aquecido ou queijo com batatas cozidas (raclette) e de entrada a viande séchée, comentava.
O José andava triste, não sentia falta do mar,  como acontecia a muitos outros patrícios, pois como dizia “nunca tinha visto um transmontano com saudades do mar”, mas o que lhe faltava eram os petiscos da sua terra.
Os pais do José quiseram fazer-lhe uma surpresa e, nas férias de verão, partiram das serranias em direção à Suíça, em caravana, com uma galinha do campo.
Nas inúmeras paragens obrigatórias até aos Alpes, soltavam o galináceo que, apesar de ter o seu destino traçado, regalava -se com o milho espanhol e francês.
Chegados à fronteira, os guardas suíços (não são os do Vaticano) implicaram com a pobre galinha e perguntaram pelas vacinas do animal.
Ils sont fous ces suisses !! Onde é que já se viu vacinar galinhas e ainda nem se falava da gripe das aves.
Os pais do José não tiveram problemas e, dando razão à fama do desenrascanço luso, deram meia volta, pararam na localidade francesa mais próxima e mataram o bicho,  que entrou clandestinamente na Suíça em forma de arroz de cabidela.

NOTA: Qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018



Aqui está um exemplo de uma varanda perigosa.

Qualquer criança normal de 2 a 4 anos fará uma tentativa de trepar pelas barras horizontais da varanda
Este tipo de construção é muito comum no nosso país, assim como o numero de quedas de crianças em prédios
Existem países onde nas vistorias dos prédios é obrigatório o aval da sociedade de pediatria.

Se este tipo de varanda com barras horizontais fosse proibido muitas crianças ainda estariam vivas ou sem lesões permanentes de graves traumatismos craneanos

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CULTURA DE PREVENÇÃO





A Cultura da Prevenção

Mais vale prevenir que remediar, assim diz o povo. Mas, infelizmente, neste cantinho à beira mar plantado, atravessado por muitos povos, não passa de uma frase feita.
Não sei se a culpa é da nossa herança judaico-cristã ou se daqueles outros povos que trouxeram até nós o fado.
A verdade é que para nós todos os acidentes que acontecem são azares. Já estava fadado. Bem podem especialistas de várias áreas explicarem que o centro de convívio de Vila Nova da Rainha tinha muitos erros de construção: chaminé da salamandra mal colocada, esferovite e outros materiais inflamáveis colocados entre o tecto e o telhado, porta que abria para dentro, porta sem barras de segurança, falta de sinalética, etc..
Bem podem explicar as causas dos incêndios florestais, dos acidentes rodoviários e como se pode e deve prevenir, mas não serve de nada.
A verdade é que as vistorias não são feitas ou se são não se cumprem as indicações e os regulamentos, a reforma florestal não é feita, não se investe em prevenção na saúde, etc.
O mal só acontece aos outros. Mas prevenção de acidentes nunca. Claro que os custos para remediar a falta de prevenção são muito maiores. Mas o país é rico…
Porém, nem todos pensam assim. Senão vejamos, a seguir ao desastre do centro de convívio de VN da Rainha, o Presidente da República disse que tudo estava em ordem, as vistorias tinham sido realizadas e foi um azar a porta abrir para dentro e a outra porta não estar visível (parece até que estava fechada a sete chaves).
Quando foi dos incêndios em Pedrogão, no primeiro dia, o Presidente Marcelo entrou de rompante para dirigir-se aos populares. Um membro da proteção civil disse-lhe em bom som: "Sr. Presidente é perigoso ir por aí", pois foi por ali que ele foi.
Bem pode a Direção Geral de Saúde publicar lindos folhetos sobre o risco de acidentes na terceira idade com pavimentos escorregadios em casa ou na rua ou com as varandas perigosas espalhada em prédios por todo o país que poucos ligam.
Gastam-se milhões de euros a curar o que falha na prevenção. Todos os anos assistimos a mortos, feridos, estropiados por incúria de quem nos governa.
Por mais aviões e água que se gaste a apagar fogos, não resolvemos os incêndios florestais. Por mais obras que se façam sem vistorias competentes e exigência de cumprimento de regulamentos, todos os anos vamos ter edifícios assassinos (ponte de Entre-os-Rios, salas em Vila Nova da Rainha, estádios de futebol, queda de crianças de andares e de idosos em suas casas ou nas ruas e o rol não tem fim). Por mais leis e regulamentos aprovados se não houver fiscalização tudo irá continuar na mesma. O combate à ignorância e à falta de cultura da prevenção, que não é mais que o desrespeito pelos outros, deve começar desde o berço e seguir por toda a vida e, Sr. Presidente, não podemos esquecer que o exemplo vem de cima.
Como já alguém disse, não se pode inventar um povo. O grande problema consiste em interpretá-lo e esclarecê-lo.

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

ADRIANO CORREIA DE OLIVEIRA - CANTAR DE EMIGRAÇÃO






A FUGA DE CEREBROS
"Este parte, aquele parte e todos e todos se vão ...."
Cantar da emigração

Os mais velhos lembram-se, ainda, da magnifica voz de Adriano Correia  de Oliveira que interpretou o Cantar de Emigração com letra de Rosália de Castro e música de José Niza.
A saída massiva de jovens sobretudo do Norte de Portugal e da Galiza, fugidos da fome e da guerra colonial, zonas castigadas pelo êxodo, regiões que ficaram sem homens "que podem cortar teu pão".
Nos anos sessenta Paris era considerada a segunda cidade do país, com maior concentração de portugueses.  
Uma semana antes de passar a fronteira a salto para fugir de ser preso pela PIDE, tinham atravessado de uma vez, por essa fronteira, trinta jovens minhotos que seguiam clandestinamente para trabalhar em França, e em que condições! atravessaram a Espanha e transpuseram os Pirenéus.
 Hoje, volvidos cinquenta anos, com a liberdade conquistada, a descolonização e o desenvolvimento do país. O terceiro D da revolução de Abril, nunca completamente realizado.
Assistimos ao êxodo de jovens com formação universitária que deixam o país outra vez sem mulheres e homens que possam cortar o seu pão.
A fuga de cérebros é uma emigração em massa de indivíduos com aptidões técnicas ou de conhecimentos, normalmente devido a fatores como conflitos étnicos e guerras, falta de oportunidade, riscos à saúde e instabilidade política nestes países. Uma fuga de cérebros é geralmente considerada custosa economicamente, uma vez que os emigrados obtiveram suas formações de maneira patrocinada pelo governo.
A fuga de cérebros pode ser estagnada, através do fornecimento de conhecimento científico para a sociedade para que ela tenha oportunidades de carreira iguais e dando-lhes oportunidades de provar as suas capacidades.  O termo foi usado para descrever a fuga de cientista no pós guerra da Europa para a América do Norte. ( definição dada por Wikipedia)

No nosso país, a saída massiva de técnicos, entre os quais profissionais de saúde médicos e enfermeiros, deve-se às más condições de trabalho, falta de oportunidade destruição de carreiras e baixos salários.
A troika impôs-nos despedimentos e cortes salariais e este governo foi muito para além das medidas impostas o que levou ao aumento nunca visto de desempregados.
O estudo, coordenado por Tiago Reis Marques, ele próprio a trabalhar no King´s College, em Londres e  publicado na Acta Médica Portuguesa, revista cientifica da Ordem dos Médicos chega a resultados preocupantes, que os nossos governantes devem tomá-los em conta e não assobiar para o lado como é costume.
Quatrocentos mil euros é quanto custa ao país formar um médico e cerca de 60% de estudantes, admite emigrar e o numero aumenta para 74% quando se interrogam os internos no ultimo ano da especialidade.
Estes números vem provar o que há muito a Ordem dos Médicos alertava.  O numero de pedidos de atestados para exercer medicina no estrangeiro tem vindo a aumentar, só na região sul os pedidos atingem no primeiro quadrimestre de 2015, uma média mensal de 22 atestados.
Há muito que os médicos perceberam a politica deste governo, formação em massa de médicos indiferenciados para numa lógica puramente economicista da lei da oferta e da procura oferecer baixos salários.
A promessa do Ministro em dar um médico de família a um milhão de portugueses, até ao fim do mandato ficou nisso mesmo, uma Promessa.
A contratação de médicos reformados revelou - se um fracasso porque as verdadeiras causas das reformas antecipadas, degradação dos serviços médicos, não foram compreendidas.
Este período, pré eleitoral faz lembrar outra canção também cantada por Adriano o Sr. Morgado, para quem não conheça cito uma das estrofes Topa um influente, sou um seu criado/ Eleições à porta, seja Deus louvado/ Seja Deus louvado/ Seja Deus louvado.
A fuga dos cérebros não se limita apenas aos médicos e aos enfermeiros onde as agências estrangeiras vêm ao nosso país proceder ao seu recrutamento. 
A porta da emigração estende-se a outros profissionais com habilitações superiores.
O Conselho Nacional das Ordens Profissionais C.N.O.P.,  que representa 16 Ordens Profissionais e mais de 300 mil profissionais redigiu em 9 de Junho de 2015 uma carta dirigida ao Primeiro-Ministro dando conta da remuneração de profissionais qualificados oferecidas pelo Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP) consideradas ofensivas da dignidade destes jovens.
Assim, a carta dá conhecimento de um anuncio publicado no jornal Diário de Notícias, em 16 de Abril deste ano:
" Um engenheiro mecânico que aceite um trabalho na zona de Anadia vai ganhar 515 euros mensais ilíquidos. A oferta, publicada no site do IEFP, insere-se no programa Estímulo Emprego, que financia empresas para contratar desempregados......"
A esta noticia, similar a outras, somaram-se referências à subcontratação do Estado a valores que rondam os 4,0 Euros/hora para profissionais qualificados.
E desiludam-se aqueles que pensam que a maioria destes jovens vão retornar ao país, com as péssimas condições de trabalho oferecidas, os nossos concidadãos irão fixar-se noutras regiões e aí, casam, têm filhos e irão contribuir para o desenvolvimento de outros países.
Há países como a Irlanda que também sofreram o êxodo de profissionais qualificados devido às medidas de austeridade impostas pela Troika mas  tentam agora reverter a situação oferecendo salários mais justos. Este é o caminho que os nossos governantes devem seguir.