segunda-feira, 21 de março de 2011

ALJUBE



No dia 14 de Abril deverá ser inaugurada a exposição a Voz das Vitimas na antiga cadeia do Aljube reconstruida


Acabo de encontrar este magnífico artigo de Vasco da Gama Fernandes, publicado no jornal a Luta, a 12 de Agosto de 1978.

Aí, relata minuciosamente uma visita ao campo de concentração do Tarrafal, em Cabo Verde, julgo que ainda exercia o cargo de Presidente da Assembleia da República (1976 – 1978).

Vasco da Gama Fernandes nasceu em São Vicente, Cabo Verde, em 1908, cedo veio para Lisboa, onde estudou no Liceu Passos Manuel e mais tarde na Faculdade de Direito.

Lutador antifascista, ainda estudante universitário, colaborou no Batalhão Académico e mais tarde, já advogado, pertenceu a quase todos os movimentos unitários e socialistas que existiram em Portugal, desde a Aliança Republicana e Socialista, o Movimento de Unidade Nacional Antifascista (MUNAF), o Movimento de Unidade Democrática (MUD), as comissões eleitorais, Norton de Matos, Quintão Meireles e Humberto Delgado, até ao Directório Democrato-Social donde veio a sair para aderir à Acção Socialista. Será um dos fundadores do Partido Socialista.
Como causídico, antes do 25 de Abril, defendeu nos tribunais plenários inúmeros presos políticos.

No Portugal democrático é eleito deputado por Leiria, nas listas do PS para a Assembleia Constituinte de que foi Vice-presidente.

É o primeiro presidente da Assembleia da República depois do 25 de Abril.

Rompeu com o PS e aderiu à Frente Republicana e Socialista. Mais tarde fundou com Ramalho Eanes o PRD que o levaria de novo à Assembleia como deputado (1985/1987).

Apoiou Francisco Salgado Zenha nas eleições presidenciais em 1986. Morreu em 1991

Esta sua atitude de combatente, que assumiu sempre com humildade, como escreve neste artigo: “O Tarrafal da maldição, nossa vergonha e nosso remorso.” e mais adiante:-“Pois ali estive algumas horas com uma grande amargura a picar-me o peito e com algum remorso por não ter feito mais para que isso não acontecesse” valeu-lhe a prisão com várias passagens no Aljube, e como escreve neste artigo escapou por uma unha negra ao internamento no Tarrafal.

Realço a sua determinação em descrever com todos os pormenores o campo da morte lenta para que as novas gerações tenham conhecimento e cito: “ Eu sei que é muito difícil reconstituir o que teria sido aquilo, por mais vivas que sejam as descrições, entre outros, dos meus amigos Edmundo Pedro, Francisco Miguel e Marcelino Mesquita.”

Mais adiante, no mesmo artigo, diz-nos que os responsáveis do governo de Cabo Verde independente prometeram-lhe que o campo seria reconstruído na sua traça primitiva, não esquecendo a tristemente famosa “frigideira”.

No fim do artigo, Vasco da Gama Fernandes faz uma proposta: “ Para quando instalar em Lisboa um museu, bem localizado no Aljube, abandonado com os seus “curros” e os seus “segredos”?

Para quando?

Quanto a mim – disponho-me a colaborar e talvez seja melhor isto do que estátuas e obeliscos por onde muita gente passaria desprevenidamente.”

Caro amigo, o governo Cabo-verdiano já cumpriu a promessa, hoje existe um museu no Tarrafal. A tua sugestão está quase a tornar-se realidade e é pena que não tivesses podido colaborar. Acredito que o Museu da Resistência ficará como tu desejaste.

abc





Sem comentários:

Enviar um comentário