sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

http://dn.sapo.pt/inicio/portugal/interior.aspx?content_id=1733158

PARA QUEM QUISER VER O DEBATE ENTRE OS 4 CANDIDATOS NO DN



http://dn.sapo.pt/inicio/portugal/interior.aspx?content_id=1733158

CAMPANHA ( Fim da primeira parte)

Terminou a minha campanha para Bastonário da Ordem dos Médicos As eleições de 15 de Dezembro deram a vitória ao candidato de Coimbra, seguido da candidata da continuidade obrigando a uma segunda volta.
A minha candidatura obteve a medalha de bronze e por isso subiu ao Podium, em Lisboa-Cidade conquistou a medalha de prata ( 2ºlugar) o que muito me alegrou.
Agradeço aqui a todos os que me apoiaram e cito mais uma vez Martin Luther King,Jr :- "In the End, we will remember not the words of our enemies, but the silence of our friendes"
Quem tiver curiosidade em rever ou ver a minha campanha visitem o site http://www.jaimeteixeiramendes.com/
Os urubus voam cobiçando os votos dos meus apoiantes, mas a decisão das suas atitudes na segunda volta das eleições pertencem a eles.
Terei agora mais tempo para o blogue e o livro dos amigos do Pão?

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Ordem dos medicos

A batalha para as eleições na Ordem dos Médicos toma-me todo o tempo. Desculpem os meus seguidores aqui vai uma mensagem da campanha

Lisboa, 07 set (Lusa) - O candidato a bastonário dos médicos Jaime Teixeira Mendes afirmou hoje que a Ordem deve ter uma atuação preventiva e ser mais célere nas situações de suspeita de má prática da profissão.


Em declarações à agência Lusa, o cirurgião considerou que a "Ordem dos Médicos tem de dar resposta rápida aos problemas que aparecem e [atualmente] não dá".

"Não se pode estar quatro anos à espera de uma resposta. A Ordem dos Médicos não pode ser um exemplo do que se passa, infelizmente, nos tribunais portugueses, tem de ser um exemplo ao contrário, tem de dar respostas céleres" e definir prazos, defendeu.
Acerca da situação do médico Ferreira Diniz, condenado a sete anos de prisão por pedofilia no âmbito do processo Casa Pia, Jaime Teixeira Mendes realçou que a Ordem devia ter tido uma intervenção logo no início do processo. "Se há suspeitas de pedofilia de um médico, a Ordem devia ter intervindo", disse.

"Numa acusação de pedofilia e de uma condenação do tribunal, tem de haver uma suspensão [por parte da Ordem], retirada da carteira profissional ao clínico, mas temos de ter a certeza absoluta", afirmou.

"Os pedófilos são doentes que têm de ser tratados, mas temos de proteger as crianças e adolescentes que são seguidos por esse médico", disse ainda.

Sobre o caso da clínica de Lagoa, em que vários doentes ficaram cegos após terem sido operados aos olhos por um médico holandês, "já tinha sido denunciada a suspeita de má prática pelo diretor de oftalmologia do hospital de Portimão, que fez um pedido de intervenção e uma exposição à Ordem dos Médicos, em 2006", salientou Jaime Teixeira.

Para o candidato a bastonário, a Ordem "tem de ter uma atuação preventiva e ir lá ver se havia ou não problemas de má prática e não estar à espera que fosse a Inspeção Geral das Atividades em Saúde, para depois ter uma ação reativa".

As eleições na Ordem dos Médicos realizam-se no final deste ano.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Documentos Perdidos



Nos princípios do ano de 1937 os revoltosos franquistas preparavam-se com o apoio das tropas italianas de Mussolini para o grande ataque à República Espanhola.

A invasão de Málaga, a Vermelha, foi a 8 de Fevereiro de 1937, a repressão foi impiedosa. Milhares de simpatizantes da República foram executados sem julgamento. Fuzilava-se nas praias, queimava-se junto aos cemitérios.

O bombardeamento de Guernica, pela aviação nazi, foi em Abril de 1937.

E como se comportava a neutralidade de Salazar.

Estes 2 documentos, perdidos nas páginas de um livro, mostram à evidência o apoio do ditador, dos grupos económicos (neste caso a industria farmacêutica) e da Cruz Vermelha Espanhola aos revoltosos fascistas contra o governo republicano legitimo espanhol.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

MEMORIAS

As razões que levaram ao blogue estar parado, durante algum tempo, devem-se fundamentalmente ao lançamento da minha campanha para a eleição de Bastonário da Ordem dos Médicos e, por outro lado, à preparação de um livro de memórias com diversos amigos.

Durante as minhas férias fiz uma viagem nostálgica a Figueira de Castelo Rodrigo que como os meus seguidores sabem foi onde passei a fronteira a salto quando saí de Portugal em 1965, o mesmo caminho do Elefante Salomão. Seguramente no tempo do Elefante Salomão, assim como agora, a fronteira estava aberta. Quando eu passei estava fechada, não havia caminho nem de terra batida nem alcatroada. Agora vi uma ponte que aproxima mais a Beira Interior a Castilla y Léon e as aldeias de Escarigo a La Bouza.

Vejam as fotos e como tudo mudou em 45 anos…….



Passagem do riacho

A guarita ao longe
Até neste pueblo há uma Plaza Mayor
Ao fundo avista-se Espanha

E agora…….



Um trecho do Livro



" A viagem do Porto a Figueira de Castelo Rodrigo foi longa, quase um dia, as estradas nessa época, em Portugal, eram más, o que tornava as distâncias ainda mais longas. Chegámos à noite e fiquei na casa de um amigo do Alexandre, julgo que se chamava José Ricardo, e explorava uma pequena eira que pertencia à família da mulher. Tinha vindo de propósito de Lisboa para me acolher, nunca soube ao certo qual era a sua profissão.

As notícias não eram boas, tinham acabado de passar a fronteira cerca de trinta emigrantes ilegais vindos do Minho.

Figueira de Castelo Rodrigo ainda hoje é uma terra pequena, naquele tempo era uma pequena vila, com a sua praça central e o pelourinho. Toda aquela gente ficou acampada nessa praça na véspera da passagem a salto e fizeram, segundo as vozes do povo, um autêntico arraial.

O passador era homem “sério”, ao que diziam, recebia uma metade rasgada das notas em Portugal, conforme o preço previamente combinado, e a outra metade só encaixava passados os Pirenéus.
A ideia que eu tinha, e provavelmente certa, era que muitos destes passadores colaboravam com a PIDE, por isso decidi passar pelos meus próprios meios sem o auxílio de tais profissionais.

Em Figueira de Castelo Rodrigo esperava-se por um sinal do passador, pois todos os habitantes das zonas fronteiriças ou eram passadores ou guardas-fiscais, ou acumulavam as duas funções.
Assim, tive que esperar cerca de uma semana nesta pequena vila. O dono da casa apresentou-me, aos curiosos da terra, como um primo da mulher vindo de Lisboa para descansar, estávamos perto da Pascoa. Jantávamos no único restaurante da vila, num gabinete recuado, com mesa marcada. A entrada do restaurante era uma taberna.

À nossa mesa sentava-se o Sr. Capitão, assim era chamado, penso que era um militar expulso do exército depois de uma qualquer intentona contra o Salazar.

Era um homem de meia-idade e tinha aquela tez trigueira dos homens que vivem todo o ano no campo. Soube mais tarde que foi o Primeiro Presidente da vila, após o 25 de Abril, era à data, apoiante do MDP/CDE.
Ele foi o cérebro e o organizador da minha passagem a salto. O Alexandre ficou de me arranjar um carimbo falso de fronteira, pois o meu passaporte ainda era válido e só em Portugal pediam a autorização militar.

Um belo dia, chegou a boa notícia, na missa de domingo, em Pinhel, tinha sido visto o passador de braço dado com o chefe do posto da PIDE de Vilar Formoso, em amena cavaqueira.
O alerta estava dado, a travessia clandestina da fronteira, podia continuar.
Antes que viesse outro grupo de Minhotos, pressionei os meus amigos para dar o salto.

O esquema estava todo montado, o Capitão levava-me no seu carro, até onde podia, em direcção à fronteira, onde estaria um espanhol que me conduziria até ao primeiro “pueblo”. Aí o único carro de aluguer da vila estaria à minha espera e levava - me a Salamanca e daqui o Alexandre guiava-me até Hendaia.
Mas nem tudo aconteceu assim.

A passagem estava prevista para o dia 10 de Abril, dia do aniversário do meu pai, mas o Alexandre ainda não tinha o passaporte carimbado, de um posto fronteiriço português e assim tinha de aguardar mais uma semana. Por temperamento nunca mostrei a ansiedade e os nervos mas estava o que se diz em brasa e disse: "passo a salto dia 10 e está decidido".

O Alexandre concordou só que tinha de esperar por ele e o passaporte em Salamanca, ficaria aí perto de uma semana indocumentado. Assumi o risco e combinámos que todos os dias entre o meio-dia e a uma da tarde, estaria na Plaza Mayor, em Espanha todas as terras têm uma Plaza Mayor.

Na véspera de passar a fronteira a salto, à noite com a televisão ligada vi o meu irmão Carlos, com os Sheiks, a cantar em cima de um camelo, era a primeira apresentação do grupo na TV. O meu anfitrião disse com um ar de intimidade: “conheço muito bem este puto e toda a família, é um gajo porreiro”. Só que ele não adivinhava que estava sentado ao lado de um dos seus irmãos.
Entre as 7 e as 8 da manhã tinha de passar a fronteira pois o render da guarda fazia-se numa taberna de uma aldeia, e assim tínhamos uma hora para atravessá-la.

Fui transportado no carro do Capitão até onde ele podia chegar e depois caminhei a pé até avistar o espanhol. Durante o trajecto, o Capitão enganou-se no caminho e uma aldeã já de idade avançada com aquela cara enrugada de muitos e árduos trabalhos que a vida lhe tinha dado, sentada à ombreira da porta disse: - “Olhem senhores o caminho para a fronteira é pelo outro carreiro”

Depois de ter passado um riacho que se atravessava a pé, logo avistei o espanhol, era um jovem da minha idade vinte e poucos anos. O Capitão deixou – me e disse: “ segue sempre o espanhol mas com uma certa distância porque se fores apanhado não o comprometes”.
Assim fiz, chegado ao alto de um monte o jovem fez sinal para me aproximar e apontou para um pequeno pueblo plantado num vale, fazia lembrar aqueles pinturas a óleo do século XIX.

O espanhol disse “eu fico aqui, e tu vais até aquele pueblo, onde estará o táxi à tua espera”.
Estava em Espanha.

Olhei para trás para Portugal e pensei em tudo o que deixava, a Teresa ainda presa em Caxias, até quando? Será que foi muito torturada? Sabia pelo Alexandre, que já tinha tido visitas na cadeia. Os meus pais, os meus irmãos (o Abílio prestes a ser mobilizado para a Guerra), a minha avó, os camaradas, a Alameda, o Pão de Açúcar, as noitadas a discutir politica e a luta que iria continuar lá fora.

Ainda hoje não sei porquê, virei-me para aquele jovem desconhecido e disse “deixo para trás o meu país e há pessoas que nunca mais vou ver”, ao que ele retorquiu “solo las montañas nunca se encuentran” ..."



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segunda-feira, 12 de julho de 2010

ELEIÇÕES NA ORDEM DOS MEDICOS

RAZÕES DE UMA CANDIDATURA






A minha candidatura a Bastonário da Ordem dos Médicos é lançada por um grupo aberto e alargado de médicos, o Movimento Alternativo à Ordem dos Médicos, que em reuniões periódicas, desde há quatro anos, estudam e discutem os problemas que afectam os médicos e a saúde em Portugal.
O M.A.O.M, tem ainda como objectivo a busca alargada de uma solução para salvar a Ordem dos Médicos da crise de orientação estratégica em que se tem afundado nos últimos anos.

O meu percurso cívico, académico e profissional, que me deu o conhecimento da Medicina praticada noutros países, e a experiência adquirida em todas as áreas de intervenção, desde a medicina preventiva à medicina curativa, hospitalar e ambulatória, esteve na base dessa escolha para candidato.

Costuma dizer-se que um dos privilégios da reforma é o de poder dizer o que se pensa sem arriscar um lugar ou uma promoção, o que seria mais uma vantagem a meu favor. Mas todos aqueles que me conhecem sabem bem que durante toda a minha vida me bati pelos meus ideais sem receio das consequências.

Isto dá a garantia de que não concorro a este cargo para me servir da Ordem mas sim para servir, na Ordem, os médicos, a medicina e a saúde das populações.

A minha candidatura é uma candidatura independente, aberta ao diálogo, que irá em conjunto com todos os médicos das mais diversas sensibilidades e qualificações definir uma estratégia de defesa da qualidade da medicina, dos interesses dos médicos, dos serviços de saúde e da saúde dos portugueses.

No exercício de um cargo de tamanha importância os princípios da transparência, da independência, da honestidade, da franqueza e da abertura de espírito são essenciais.

Adoptamos, como princípios fundamentais:
• A DEFESA DA QUALIDADE DA MEDICINA

• A CONTINUAÇÃO DA DEFESA DAS CARREIRAS MÉDICAS NA PRESPECTIVA TÉCNICO CIENTIFICA

• A DEFESA EM PROGRESSO DO SERVIÇO NACIONAL DE SAÚDE CONSTITUCIONAL

• A PROMOÇÃO SOCIAL E CULTURAL DOS MÉDICOS

• A REORGANIZAÇÃO DEMOCRÁTICA DA ORDEM

• A DEFESA DOS INTERESSES DOS JOVENS MÉDICOS


A Medicina está num momento de viragem. Sem dúvida a investigação de ponta traz-nos uma contribuição indiscutível, mas por outro lado os limites da prática clínica conduzem a numerosas transformações indispensáveis quer nos hospitais quer nos centros de saúde.

É um facto que o prestígio da profissão médica tem vindo a agravar-se nas últimas décadas em Portugal e em muitos países da Europa. Mais de 40% dos utentes dos sistemas de saúde recorrem às medicinas alternativas ou doces. No caso do nosso país não podemos esquecer os ataques constantes à classe por parte da tutela, sobretudo desde o consulado Leonor Beleza.

Uma das razões apresentadas, por alguns estudiosos desde tema, é o número cada vez maior de especialidades, que naturalmente a investigação científica exige, mas que tem resultado numa fragmentação do saber e de um fraco grau de comunicação horizontal.

A fragmentação dos conhecimentos médicos deveria exigir o funcionamento de equipas multidisciplinares e de transdisciplinaridade, no sentido que lhe deu Piaget, com a coordenação de um generalista ou de um internista. Isto não tem acontecido, antes pelo contrário, tem servido para aumentar os custos médicos, prejudicar o tratamento dos doentes ou conduzir muitas vezes à catástrofe.

A Direcção da Ordem, nos últimos anos, de uma forma irresponsável, tem aumentado o número de especialidades e subespecialidades médicas, muitas vezes por influência de lobbies e não por necessidade dos doentes. Em vez de promoverem o diálogo sobre os problemas da organização do trabalho médico, os membros do Conselho Nacional Executivo insistem neste erro sem delinearem nenhuma estratégia.

A formação universitária ainda privilegia muito o ensino da patologia orgânica em detrimento de um conhecimento holístico.
O hábito do trabalho de equipa e de continuidade das terapêuticas, centradas no doente e não na doença, deve ser uma preocupação dos médicos criando uma colaboração entre o hospital, o ambulatório e o domicílio do doente. Os circuitos de informação médica não devem ser bloqueados.

A sociedade está em constante e rápida mudança e a medicina tem de acompanhar esta evolução e não ficar agarrada a uma organização de trabalho artesanal.

A promoção social e cultural dos médicos é um dos objectivos desta candidatura: “as ciências humanas são tão importantes na medicina como as ciências naturais”.

A reflexão de Abel Salazar, nos anos 30 do século passado, com a sua frase “Quem só sabe Medicina nem Medicina sabe”, é uma evidência esquecida, desprezada e muitas vezes negada na prática.

A direcção da Ordem deve ter um papel activo também na formação pré graduada, em colaboração com as Escolas Médicas e não se limitar, como até agora, a aparecer apenas para a fotografia quando é convidada para sessões públicas.

A defesa das carreiras médicas é uma constante da nossa actuação, uma hierarquia por competência deve ser a base da organização do trabalho médico. A Ordem falhou nesta questão alheando-se da discussão, desprezando o seu património histórico legado pela luta dos jovens médicos nos anos 50-60, deixando aos sindicatos toda a participação no processo de negociação das carreiras.

A Ordem deve dar todo o poder aos Colégios da Especialidade, órgãos eleitos pelos seus pares, para verificarem periodicamente a idoneidade dos serviços, assim como a definição dos programas de formação.
Afirmo, com a autoridade que me dão 17 anos, quase ininterruptos, na Direcção do Colégio da Especialidade de Cirurgia Pediátrica, que estes órgãos eleitos têm vindo a ser menosprezados pelos órgãos executivos da Ordem, sobretudo a partir das direcções do actual Bastonário.
Os Colégios são a principal razão de ser da Ordem, por isso devem ser tratados com respeito. Efectivamente são eles que definem os programas de formação e as idoneidades dos serviços quer públicos quer privados, vigiando a qualidade da medicina praticada.
Actualmente, estes colegas trabalham em condições físicas muito deficientes, apesar do esforço hercúleo das secretárias administrativas. Não existe nem sequer um local para guardar documentação.

Pugnamos pela defesa do Serviço Nacional de Saúde com a introdução dos aperfeiçoamentos necessários. Para quê mudar de sistema se este tem dado bons resultados?
“…um sistema cuja ambição é de permitir a cada um de aceder aos cuidados melhores executados deve ser financiado, e suficientemente financiado, pelo Estado ou por um sistema de seguros organizado pelo Estado. O mercado não é capaz de garantir um equilíbrio de oferta e procura médica, visto que ele produz a exclusão ou o consumo excessivo, ou ainda, como mostra o exemplo dos Estados Unidos da América, ambas as coisas”. Quem o afirma é Ruth Dreifuss, ex-presidente da Confederação Helvética, país capitalista e liberal, com um sistema de saúde baseado nos seguros.

A reorganização democrática da Ordem passa obrigatoriamente pela revisão dos estatutos.

Os actuais estão obsoletos e são a imagem de uma época que queremos estar ultrapassada em que a vontade do Presidente se sobrepunha a todos.

Queremos assembleias deliberativas e participativas e não mais reuniões de carácter consultivo em que a última palavra pertence sempre aos dirigentes. As eleições devem ter em conta o método de Hondt, a fim de que todas as correntes de pensamento dos médicos estejam representadas.

Eu pertenço a uma geração que conquistou e beneficiou de muitos privilégios entre os quais a segurança do pleno emprego, mas estamos também conscientes que as nossas experiências não são verdades absolutas.

É nossa preocupação promover um debate que mobilize as gerações mais jovens.

Assumo o compromisso de:

1. dar maior poder aos colégios, de forma a garantirem a qualidade na formação dos internos e a procederem a uma avaliação justa;

2. defender o jovem em formação de toda a prepotência dos Directores de Serviço;

3. pugnar por um mapa de vagas transparente, que não seja feito à pressa e apenas para tapar deficiências imediatas.

No passado muitos erros destes foram cometidos pelo Ministério.
A Ordem deve intervir e estar presente.

As outras candidaturas a Bastonário, que se apresentam às próximas eleições, são de continuidade do actual stato quo.
Ambos os candidatos pertencem ainda ao Conselho Nacional Executivo e daí a sua enorme responsabilidade pela actual situação que se vive na Ordem.

Uma vitória destes candidatos nas eleições nada de bom auguraria para o prestígio da classe, antes pelo contrário, iria persistir a imagem triste de acusações de gestão deficiente e de suspeição de má utilização dos dinheiros de todos nós.

As declarações de intenção destes candidatos vão ao ponto de defender propostas feitas há três anos pelo nosso movimento nas últimas eleições.

A revisão dos estatutos, tão violentamente criticada numa célebre reunião de médicos na FIL, a dignificação dos colégios da especialidade menosprezados pelo actual Conselho Nacional Executivo, o retomar do fórum médico, o diálogo com as associações de doentes e utentes são metas agora por eles apontadas, quando no passado nem um passo foi dado para a sua efectivação.

A revitalização do fórum médico vem em todos os programas, mas na prática nem sequer uma colaboração com as Sociedades Médicas foi feita. Para o provar está o escândalo dos congressos da comunidade médica de língua portuguesa em que não foi permitida a entrada ao simples médico, nem aos presidentes das Sociedades, algumas das quais com programas de colaboração com os PALOP.
A Ordem tem de ser transparente.
Todas estas promessas fazem lembrar a célebre frase de Tancredi ao Príncipe de Salina, quando lhe explica a decisão de se unir às tropas do Piemonte, imortalizada no romance do Leopardo de Lampeduza : -"Se vogliamo che tutto rimanga come è, bisogna che tutto cambi!".

Colegas! Foram três anos perdidos, passados em querelas, acusações e zangas mesquinhas impróprias de médicos.
A primeira coisa que farei, se ganhar as eleições, será:

1. proceder de imediato a uma auditoria externa e independente das contas da Ordem;

2. proceder à revisão das quotizações, nomeadamente as exigidas para pertencer ao quadro de especialista em titularidade por consenso (actualmente paga-se 400 euros)

Dêem-me vocês força para pôr ordem na Ordem, que uma lufada de ar fresco entrará nesta casa da Avenida Gago Coutinho.

CONTO CONVOSCO!

quarta-feira, 7 de julho de 2010

AS VUVUZELAS

AS VUVUZELAS




(A pesquiza na Internet passando pela minha filtragem, ou direi mesmo censura)

O barulho ensurdecedor das vuvuzelas e omnipresente no campeonato do mundo de futebol ficou famoso em todo o Mundo.

Apesar das queixas de teleespectadores de toda a parte, de jugadores que disputam o Mundial em risco de se desconcentrarem como aconteceu ao Cristiano Ronaldo, a especialistas em audição que afirmaram o perigo para a saúde pública dos 127 decibéis que atingem tais instrumentos, nenhum responsável ligou nehuma.

Este barulho é maior que o de uma motoserra (100 decibeis), de uma corneta inglesa e do que o apito de um árbito.

A importância deste instrumento é de tal ordem que em vez de o proibirem na medida sensata de prevenção dos danos auditivos causados em todo o Mundo, criando uma epidemia maior que a da gripe A, um cientista de nome Cheryl van der Merwe, afirma que existem meios de diminuir o impacto da vuvuzela e cito: “- Há vários dispositivos de proteção auditiva, de plugues de espuma a faixas abafadoras de som, que podem ajudar a proteger os fãs”.

Os próximos jogos que passarem na televisão não me telefonem porque estarei munido de plugues de espuma.

Fiquei a saber que a origem da vuvuzela é muito antiga. Ela é originária de tribos ancestrais sul-africanas, tradicionalmente feita com o corno da pala-pala, pelo que é conhecida no sul de Moçambique como xipalapala[3], e servia para convocar reuniões.

Aqui deixo a sugestão para aqueles Partidos e Associações em que poucos comparecem às reuniões marcadas.

Parece que este instrumento já existia no Brasil e chamam-lhe corneta, o que levou um empresário Sul Africano a exigir que lhe mudem o nome. Francamente isto é mesmo dos nossos irmãos além-mar, chamar corneta às vuvuzelas! Parece que em São Paulo a coisa está preta com os direitos da marca. Felizmente que a Galp não se lembrou de chamar à vuvuzela, gaita-de-foles ou pífaro se não tinha a Masincedane Sport à perna

Mais de 90 por cento das buzinas vendidas, em todo o Mundo, foram fabricadas na China, as da Galp serão também chinesas?

O fabricante de plástico chinês Wu Yijun, conheceu este instrumento, numa foto na Internet que mostrava um grupo de africanos a tocar trombetas de bambu para espantar babuínos.

Este homem viu chegar o que ele acreditou ser a sua grande oportunidade, quando soube que a África do Sul tinha sido escolhida como anfitriã do Campeonato do Mundo de Futebol.

Segundo o articulista a China já exportou 50 milhões de unidades desde que começou as suas vendas.

Porém o nosso amigo Wu não teve tantos lucros como tinha imaginado, primeiro porque a sua capacidade de produção não foi suficiente para atingir os 10 milhões de unidades, e depois devido aos reembolsos fiscais para os exportadores, quem quiser saber mais leia o artigo em castelhano.

O que mais me interessa, é que Wu enfrentou um panorama relativamente novo no mundo do trabalho chinês a escassez de mão-de-obra, tendo de aumentar ligeiramente os salários.

Mas Wu está com dificuldade para contratar novos empregados para o trabalho que muitos vêm como muito duro e mal pago.

As condições destas fábricas são desumanas, as máquinas de injecção de plástico para fazer Vuvuzelas, chegam a produzir com frequência 100 graus centígrados.

Os trabalhadores chineses, nascidos nos anos 80/90, já não aceitam estas condições, consideram que os ganhos não correspondem ao trabalho que executam.

O movimento grevista que a China enfrenta, contra as condições de trabalho e os baixos salários, a exemplo dos trabalhadores de pequenas fábricas fornecedoras de peças para as grandes empresas Japonesas da Honda e Toyota e que se tem alastrado por toda a costa do país, é um bom sinal para todos os trabalhadores do Mundo.

Nalguns casos os trabalhadores conseguiram aumentos de dois dígitos.

O fim da mão-de-obra barata na China significará um longo e duro período para os fabricantes nacionais, a reestruturação do tecido industrial não é fácil de conseguir.

Quando Alan Greenspan, ex presidente da Reserva Federal Americana, elogiou os salários baixos, na China, como solução para manter os preços baixos e competitivos dos produtos, estava a colocar um peso para os trabalhadores de todo o Mundo.

O aumento dos níveis de vida na China deverá reforçar as perspectivas de uma mudança interna progressista. Estas greves são tão boas para a China como para o resto do Mundo

Quem quiser saber mais sobre o assunto, leia o excelente artigo a Vuvuzela de Alvaro Cuadra na Argenpress.info

http://www.argenpress.info/2010/06/vuvuzela.html

sexta-feira, 25 de junho de 2010

O CAMPEONATO DO MUNDO DE FUTEBOL


Os jogadores da selecção da Argentina mostram um pano o apoio à candidatura das " Avós da Praça de Maio" para o Prémio Nobel da Paz de 2010

As avós da praça de Maio é uma ONG de defesa e promoção dos Direitos Humanos, que se tem ocupado especialmente do Direito à Identidade.

O seu objectivo proseguido desde, 1977, é de restituir aos seus legitimos familiares todas as crianças sequestradas e desaparecidas pela repressão policial que teve lugar na Argentina durante a ditadura militar.
Este crime repugnante de violação do mais elementar direito das crianças, a sua identidade, nunca mais se deve repetir e os responsaveis devem ser castigados.
Para isso é preciso não esquecer. NÃO APAGUEM A MEMÓRIA DOS POVOS

Até ao momento as Avós, conseguiram localizar e restituir a identidade a 101 pessoas.

A filiação de uma criança na ausência dos seus pais, é feita através de analises de ADN, o Banco Nacional Genético e a Comissão Nacional pelo Direito à Identidade colaboram na recuperação dos ex centros clandestinos de detenção para serem transformados em cultos de memória

( escrito a partir do texto da mensagem enviada pela Noémia)

O Ano da Morte de José Saramago

A notícia da tua morte correu mundo, a noticia foi publicada em todos os jornais de grande e pequena divulgação, na maioria dos blogues e percorreu o ciberespaço com mensagens das tuas obras.
Até um candidato a bastonário da ordem dos médicos que se calhar nunca te leu, te cita, imagina!
O meu blogue deve te o nome, porque foi baseado no teu romance A viagem do Elefante, que seguiu o mesmo caminho que o meu, apenas com a diferença que eu parei na Suiça e ele seguiu até Viena de Áustria.

Quase todos se inclinam perante o grande Homem e o único escritor português a quem foi atribuído o prémio Nobel da Literatura.

Só vi uma excepção, o Osservatore Romano, o órgão oficial do Vaticano, num artigo de um desconhecido, que não ficará na história, como já todos esquecemos o nome daquele secretário de estado do Cavaco que te irritou.
É certo que alguns tentam menorizar o teu valor, faz-me lembrar a reacção ultra direita que no tempo do outro nosso prémio Nobel, o da Medicina, que diziam ter sido apenas meio prémio por ter sido dividido com um cientista suíço. Estas atitudes apenas movidas pelo ódio e a inveja.

Acabei de ver um vídeo lindíssimo que me enviou a Lena Pato, filmado em Espanha numa adaptação dum conto teu A MAIOR FLOR DO MUNDO, por Juan Pablo Etcheverrya um, em que tu dizes teres pena de não saberes escrever para crianças, mas esta história é maravilhosa e terminas assim
“ Y si las histórias para niños fueram
De lectura obligatoria para los adultos?
Seriamos realmente capaces de aprender
Lo que, desde hace tanto tiempo venamos ensenãndo?”

O melhor é ver e ouvir o vídeo http://videos.sapo.pt/yR4WfB3GBbi0OFbbbuCA

As crianças certamente dirão: - quando envelhecermos gostaríamos de ser como Saramago LIVRES

quinta-feira, 17 de junho de 2010

O SOCRATES MENTIU?

MENTIRA (de mentir), segundo o grande dicionário enciclopédico ediclube, é a afirmação contrária à verdade, com intenção de enganar; engano propositado; falsidade; peta.

No mesmo dicionário a definição de detector de mentiras é: Dispositivo capaz de discernir no mentiroso uma reacção emocional (respiratória, cardíaca, vascular ou psicogalvânica) desencadeado por algo que proposto bruscamente, se relacione com a sua mentira.

O velho polígrafo foi posto de parte, assim como o Pentotal de má memória, apelidado de soro da verdade pelas polícias de todo o mundo.

A ciência de novo ao serviço da sociedade, desenvolveu e a indústria construiu o NO LIE MRI, o que quer dizer, a utilização de imagens de Ressonância Magnética Nuclear Funcional, como um novo detector de mentiras, aqui detecta-se durante a reacção emocional do mentiroso uma actividade cerebral acelerada.

Já tentou ser prova num tribunal do Tennessee (estas coisas, só se passam nestes estados americanos), apesar de o juiz ter recusado.

No nosso caso e estando em causa o nosso primeiro – ministro é urgente esclarecer se trata de um mitómano, ou seja com tendência mórbida para exagerar ou mentir, mesmo não sendo psiquiatra arriscaria este diagnóstico: o Sócrates sofre de mitomania.

Porque francamente dizer que o Chico Buarque o queria conhecer!

Apesar da crise e dos vários cortes efectuados na saúde e na justiça, é urgente que se adquira um desses aparelhos, pelo qual deverão passar todos os políticos e naturalmente em primeiro lugar o primeiro-ministro. Vejam só o dinheiro que se poupava, evitando comissões de inquérito com sessões intermináveis, com horas extraordinárias pagas pelo erário público.

Admira até que o relator, sendo médico e oriundo dos renovadores, não tenha proposto a submissão do Engº (ou também será mentira) à nova máquina da verdade. Ficaríamos a saber logo tudo, se era engenheiro, se sabia do negócio da PT, Freeport, Chico, etc… Era só perguntar de forma brusca.




sábado, 12 de junho de 2010

Discurso de José Fernandes Fafe


Que posso eu dizer do Dr. Abílio Mendes? Umas memórias caseiras...
Ele era médico dos meus filhos, e daí, muito falado em casa. Foi o que aconselhou o Dr. Abílio, respondia-me a minha Mulher. Foi o que mandou o Dr. Abílio, calava-me a minha filha. Dr. Abílio dixit, magister dixit ... O argumento de Autoridade. Submeti-me sempre. Explico porquê.

Minha Mulher tinha no Dr. Abílio Mendes uma confiança total. Minha filha, que foi sempre bem disposta, quando o via ficava ainda melhor disposta. O meu filho, uma vez, acabara o Carlos Mendes de ganhar um Festival da Canção, entrou pelo consultório do Dr. Abílio, a cantar: O Verão já terminou/foi um sonho que findou... - E o dr. Abílio?, perguntei à minha Mulher. - Riu-se a bom rir. E ele tinha um riso bom, o dr. Abílio Mendes.
Como se chama aquele livro do Hemingwai ... Paris é uma festa. Os meus filhos, irem ao consultório do dr. Abílio, era para eles uma festa.

Já fiz, de uma forma pouco canónica, talvez, mas eu não sei quais são os cânones...- canónico elogio.

Infundia a maior confiança na sua competência profissional. Estabelecia com as crianças uma imediata relação simpática, que lhe dava as melhores condições de observação clínica. Ergo : um pediatra excepcional.

O cidadão?
Cidadão: o que se preocupa com o interesse geral, e está treinado para reconhecer as situações em que deve sobrepor esse interesse a qualquer outro, incluindo o pessoal.
Do meu conhecimento directo do dr. Abílio Mendes e pelo que me dizem dele, retiro que faz jus ao grau republicanamente sagrado, de cidadão.

Ele pertenceu à vaga geracional que trouxe António Macedo, os Cal Brandão, José Magalhães Godinho, Raul Rego ..., à nossa " longa marcha ", 1926-1974, quarenta e oito anos, quantos ficaram pelo caminho?, mortos, e os feridos, os presos, os torturados, os marginalizados,,,

Isto sem martirológico, que tende a levar a uma espécie de auto-compaixão que não aprecio. Estamos cientes de que a nossa " longa marcha" é apenas um episódio local de uma longuíssima marcha, que vem desde... a origem do Homem, e vai até... - se dissemos " origem do homem", temos de dizer até ao fim do Homem...Porque isto começou sem nós e com certeza acabará sem nós.
Para não falar das informações que nos chegam sobre o post-humano que os geneticistas nos estão a preparar...

Mas eu não vim aqui para incutir mais pessimismo às pessoas...Adiante
Adiante, aonde?     Um riso de criança...  Não ouvem?    São as crianças de que o dr. Abílio Mendes foi médico, que mandaram o seu riso a esta homenagem.      Dançam à roda da evocação que estamos a fazer dele, álacres cintilações de risos de crianças.

E o melhor de tudo, não são ( o Fernando Pessoa enganou-se ) as crianças, mas o riso das crianças.

Já ganhámos o dia

HOMENAGEM A ABILIO MENDES


HOMENAGEM A ABILIO MENDES


BOM DIA a todos.

Queria, em primeiro lugar, agradecer à Câmara Municipal de Lisboa, na pessoa da Drª Catarina Vaz Pinto, Vereadora da Cultura, a linda homenagem ao meu pai que se está a realizar.

Drª Catarina peço-lhe que transmita os meus agradecimentos a toda a equipa da Câmara que trabalhou mais de perto neste projecto. Drªs Teresa Gil, Cristina Bento, Paula Levy, Patrícia Melo e Castro, Isménia Neves e Dr. António Oliveira.

Agradeço também as palavras do Grão Mestre Adjunto do Grande Oriente Lusitano, Dr. António Justino Ribeiro, que muito me sensibilizaram, assim como a mensagem amiga do Dr. Fernandes Fafe, amigo, diplomata e escritor.

Aproveito para enviar um muito obrigado ao Conselho de Administração do Hospital dos Lusíadas e em especial ao Dr. Nobre Leitão pela pronta cedência do auditório e da oferta do Porto de Honra.

Ao Dr. Pedro Grilo, grande impulsionador desta iniciativa, o meu enorme reconhecimento pelo carinho e empenhamento que pôs na realização deste evento, que sem ele não teria sido possível. Peço um grande aplauso.

“Last but not the least”, a todos os amigos que aqui se deslocaram solidarizando-se com esta homenagem, num sábado de manhã, a seguir a um feriado. A eles muito obrigado sobretudo aos que apesar da avançada idade cronológica, mas com uma eterna juventude, se deslocaram de Sever do Vouga, Caldas da Rainha, Évora e Algarve.
Os dados biográficos do meu pai estão bem transcritos na brochura que os serviços da Câmara editaram e que agora distribuíram.
Por isto não me vou alongar na vida do puericultor, que baseado no estudo da escola behaviorista e de Pavlov, criou um ensino de alimentação infantil próprio, que privilegiava, não só os nutrientes como a forma de comer, diferente das escolas académicas, nem do pedagogo no seu ensino continuado aos pais, baseado nas leituras dedicadas à Pedagogia Cientifica, à Escola Activa e aos Filósofos do socialismo. Nem ao tratamento do eczema atópico ou dos Angiomas.
Estas foram algumas das causas do sucesso da sua clínica, durante três gerações consecutivas.

Todos os presentes conheceram, de uma maneira ou de outra, o meu Pai, os consultórios da Travessa do Calado e depois da António Augusto de Aguiar, a figura da D. Odete … , a consulta na CNE e depois EDP, com a competência profissional da enfermeira Edite, E todos têm certamente inúmeras e gratas recordações.

No regresso da Suíça, fui trabalhar com o meu Pai e o meu irmão no consultório. Aprendi muito com eles, ensinaram - me aquilo que as Escolas Medicas não ensinam. Recordo que ele me dizia: Nunca olhes para o relógio durante a consulta, nós estamos a ser observados por toda a família e esse gesto é a maior falta de respeito pelo doente.
Conceitos, que hoje parecem ultrapassados, como a disponibilidade completa para os doentes e as suas famílias, ouvir, reflectir, ter tempo para perguntar, e estudar.
O sentido, que o medico está ao serviço da sua comunidade e deve estar preparado para cuidar das seus molestares e tratar os doentes e não apenas as doenças.
É por isto que a Medicina não pode ser um negócio, nem os hospitais geridos como as antigas fábricas, tão bem caracterizadas nos TEMPOS MODERNOS de Charlie Chaplin.

A atenção ao desenvolvimento da criança, numa visão holística da medicina, foi uma constante na sua clínica. Cito uma frase dum dos seus artigos de divulgação: “ … É, informados neste programa que sempre dizemos às Mães: Vale mais educar do que engordar”

As Faculdades têm de perceber que para o ensino da Medicina, as ciências humanas são tão importantes como as ciências naturais.

Os conceitos de liberdade e democracia que perfilhou, ainda adolescente, foi o legado que nos deixou a mim e ao meu irmão e que ambos tentamos transmitir aos nossos filhos e netos.

No centenário da República vem a propósito recordar uma história que ele contava, sobre Tomé de Barros Queiroz, que além de primeiro-ministro, da 1ª República, foi durante anos Presidente do Conselho de Administração dos Caminhos de Ferro de Lisboa. Um dia, fez a viagem Lisboa/ Porto em 3ª classe, perante o espanto do revisor que o reconheceu: “então o Senhor Presidente em 3 ª classe?” Ao que ele respondeu. “ Porquê existe 4ª?”

Nunca esqueci uma das muitas frases que ele nos dizia: “Não há nada melhor para uma pessoa que olhar-se todas as manhãs ao espelho e ficar satisfeito com o que vê”.

Na parede do escritório lá de casa havia um quadro, oferecido por um amigo, com a sua caricatura e uns versos, que diziam:

Democracia! Imortal! Nunca serás vencida!
Creio em ti, e esta crença é toda a minha fé!
Um ideal como o teu não cai nem se intimida
Enquanto um Abílio Mendes ainda restar com vida
Enquanto um filho teu ainda existir de pé!

E eu agora acrescento enquanto um neto ou um bisneto teu ainda existir de pé.

Convido agora a Drª Catarina Vaz Pinto e todos os presentes a dirigirem-se ao auditório do Hospital dos Lusíadas, onde se servirá um Porto de Honra seguido de um pequeno convívio.
Muito Obrigado!

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Homenagem a Abílio Mendes


No dia 5 de Junho de 2010, foi inaugurada a Rua Abílio Mendes por decisão da comissão de toponomia da Câmara Municipal de Lisboa. O descerramento da placa esteve a cargo da vereadora da Cutura, Drª Catarina Vaz Pinto que acompanhada dos filhos, Jaime Mendes e Carlos Mendes, retiraram a bandeira que cobria a placa, ao toque do hino da Maria da Fonte da Câmara Municipal de Lisboa

A rua fica situada no Alto dos Moinhos, na freguesia de São Domingos de Benfica e passa a ter o nome da rua do Hospital dos Lusíadas. Ironia do destino de um homem a quem foi proibida a carreira hospitalar.
A evocação da figura do homenageado ficou a cargo do Grão Mestre Adjunto do Grande Oriente Lusitano, Dr António Justino Ribeiro, do diplomata e escritor, Dr. Fernandes Fafe, do filho, Jaime Teixeira Mendes e da vereadora para a Cultura da Câmara Municipal de Lisboa, Drª Catarina Vaz Pinto

Seguiu-se um cocktail, gentilmente oferecido pelo Conselho de Administração do Hospital dos Lusiadas, e de um convivio no auditório.

O neto, Francisco Mendes, apresentou a sessão, onde foram lidas cartas de amigos do Abílio Mendes que não conseguiram comparecer. O Dr. Ferraz de Abreu usou da palavra lembrando a acção do homenageado nos serviços médico-sociais, primeiro da Companhia Nacional de Electricidade, mais tarde EDP, seguido do Dr. Pedro Grilo, amigo e antigo cliente do consultório.

Seguiu-se um momento cultural com Jazzafari, com a interpretação do outro neto João, que cantou um bolero, um momemto de poesia por Joaquim Pessoa terminando com uma intervenção do filho Carlos Mendes cantando, o menino do bairro negro de Zeca Afonso.


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quinta-feira, 3 de junho de 2010

Dia Mundial da Criança de Abílio Teixeira Mendes

Neste dia aconselho a leitura de um artigo escrito pelo meu saudoso irmão Abílio, nos anos idos de 1973 na Revista de Pediatria que foi reeditado no ano passado.

www.spp.pt/App/default.asp?IDE=16&offset=10
Editorial

Não poderia a Sociedade Portuguesa de Pediatria deixar de assinalar o Dia Mundial da Criança, convidando os colegas a meditar sobre o destino dos pequenos seres cujo desenvolvimento controlam, arrancando-os, não raras vezes, a uma morte precoce ou à invalidez total.

Publicado, originalmente, em separata na «Revista Portuguesa de Pediatria» Vol. 4, N 2, 1973.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

HOMENAGEM A ABILIO MENDES


HOMENAGEM ABILIO DA COSTA MENDES



A Câmara Municipal de Lisboa vai atribuir o nome, Abílio Mendes, a uma rua situada no Alto dos Moinhos, numa sessão que terá lugar no próximo dia 5 de Junho. A tribuna ficará colocada em frente ao Hospital dos Lusíadas (ao lado do quiosque)

A sessão será presidida pela Senhora Vereadora da Cultura, Drª Catarina Vaz Pinto, seguindo-se um pequeno convívio no auditório do Hospital dos Lusíadas, que foi gentilmente cedido pelo seu Conselho de Administração.

Espero encontrar, no sábado, muitos amigos.

O quadro com a caricatura  esteve sempre  pendurado na parede do seu escritório. Os versos inscritos  foram sempre um guia para mim e para os meus irmãos. Hoje, o quadro está no meu escritório.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Economia é uma ciência?

Texto retirado de Carta Maior

O mais que isto/É Jesus Cristo/Que não sabia nada de finanças/nem consta que tivesse biblioteca
F. Pessoa




A crise financeira internacional provocada nos States e que se globalizou, ferindo a zona Euro no seu locus minor: a Grécia, é por muitos analistas, descrita como se tratasse de uma epidemia.
Por exemplo, a situação na Grécia já foi comparada a um furúnculo, que não tendo sido lancetado ou extraído em devida altura, havendo o risco de desenvolver uma septicemia que atingisse Portugal e Espanha e mais tarde os outros dos chamados PIIGS, (a sigla é inglesa e não espanhola como disse em cima Marshall Auerbak, aliás só os ingleses são tão simpáticos!)
Assim, nós estamos em risco grave de infecção generalizada no sangue, sem nos prescreverem o antibiótico adequado.
Como não sou economista, “nem percebo nada de finanças e nem tenho uma grande biblioteca”, só posso constatar que a crise foi provocada por economistas seguidores de Milton Friedman, prémio Nobel em 1976 e prolongada por treze outros seguidores, galardoados também pela Academia Sueca que arrumaram a um canto os Keinesianos.
No nosso rectângulo passa-se o mesmo, economistas que saltam de Marx para Friedman, mas todos com responsabilidade nos últimos anos de governação do país.
Ultimamente num simulacro de uma conferência médica, estiveram onze reunidos em Belém (10 +1) mas nenhuma terapêutica para o mal, saiu do conciliábulo.
O que ouvimos, propor, é a destruição da segurança social e de todas as conquistas dos trabalhadores portugueses e europeus.
O perigo é que esta queda é a queda intelectual de quem nos governa todos detentores das “ciências económicas”.
Imaginem o que aconteceria se agora, em pleno século XXI, se descobrisse que Pasteur, Lister e Koch, os três fundadores da Medicina Moderna estavam errados.

sábado, 15 de maio de 2010

OS ESTRANGEIRADOS

O País sempre foi padrasto para aqueles que, por uma ou outra razão, viveram no estrangeiro.

Hoje encontrei mais uma pessoa que tem os dois filhos licenciados a trabalhar no estrangeiro. Disse-lhe que até era bom para eles, viam outros mundos, abriam-se-lhe novos horizontes, levavam um banho de modernidade e cultura, etc etc... Mas não convenci a triste senhora, que assim não via os seus netos crescerem com a frequência que desejava. Mas o seu argumento mais forte foi: - e depois? o regresso? Será que não fazem falta ao país?

Estes dois irmãos, que eu vi pequeninos no consultório, são hoje economistas com mestrados feitos em Portugal e um está no Banco Mundial em Nova Iorque e a outra em Londres no FMI, segundo percebi. São, pelo menos, seis jovens portugueses que eu conheço a trabalhar nestas instituições internacionais.

Mas há muitos mais, e cada vez, jovens licenciados impedidos de trabalhar no nosso país devido aos lobbies instituídos pelas diversas corporações que têm de partir para o estrangeiro.

A situação dos estudantes de medicina no estrangeiro, que conheço melhor, dá razão a esta avó: o regresso vai ser difícil.

Devido ao numerus clausus, nas faculdades de medicina, inúmeros jovens estão a tirar este curso no estrangeiro, espalhados por Inglaterra, Espanha, República Checa. Só em Pilsen estudam cerca de 150. Como está mais que provado a relação entre altas classificações no curso liceal e bons médicos não é directamente proporcional.

A Ordem dos Médicos, com o apoio do Ministério, já veio alertar que quando estes estudantes regressarem só podem concorrer às vagas de especialidade que não foram preenchidas, o que quer dizer que primeiro escolhem os nacionais residentes e só depois os estrangeirados.

Isto num país que diz ter falta de médicos, e que tão maltrata os médicos estrangeiros, maltrata agora também os seus nacionais formados noutros países.

Habilmente, a Ordem ladeou as normas europeias e instituiu um exame de “comunicação” para todos estes médicos, havendo a possibilidade de os impedir de exercer a profissão em Portugal por razões linguísticas. Contam as más-línguas que num destes exames foi reprovado um estudante açoriano, tendo sido obrigado a atrasar a entrada na vida profissional.

Assistimos agora também à fuga dos médicos dentistas recém formados, principalmente para Inglaterra, devido a um lobby vergonhoso de um grupo de dentistas residentes que impedem a instalação dos novos, proibindo-os de contratar convenções com as seguradoras.

Ainda me lembro da Embaixada dos Estados Unidos recrutar médicos na Faculdade de Medicina de Lausana na época da caça aos cérebros promovida por este país.

Mas o nosso país sempre tratou mal aqueles seus filhos que se formaram noutros países, pobre pequeno país, de mentalidades tacanhas e invejosas.

Vejamos o que aconteceu ao longo da nossa História!

“Estrangeirados era um nome pejorativo que era dado em Portugal aos intelectuais portugueses dos finais do século XVII e particularmente no século XVIII, o século do Iluminismo, que tinham vivido no norte da Europa ou que tinham tido contacto com novas ciências, desconhecidas em Portugal e que por terem tomado contacto com uma realidade estrangeira mais "moderna" (liberdade de pensamento, revolução científica, secularismo, democracia, nascer do capitalismo) eram desprezados por sectores influentes da sociedade portuguesa, católica conservadora, autocrática, que ainda menosprezava as ideias da Europa protestante”, segundo a Wilkipedia

Um dos mais conhecidos foi Luís António Verney (1713- 1792), autor do livro “ O Verdadeiro Método de Estudar”.

A pedido do rei D. João V, Verney inicia a sua colaboração com o processo de Reforma Pedagógica de Portugal, contribuindo inquestionavelmente para uma aproximação profícua com os ventos do progresso cultural que animavam os espíritos iluministas dos europeus mais progressistas. Devido a problemas de saúde e, principalmente, devido a incompreensões por parte dos seus compatriotas, nomeadamente os cortesãos e o Marquês de Pombal, parte definitivamente para Roma, onde vive até ao fim dos seus dias. (Wikipedia)

A razão desta prosa deve-se ao tratamento que ainda se faz ao acolhimento dos emigrantes.

O emigrante português em geral é apenas visto como um motivo de receitas e o seu regresso e integração são mesmo desaconselhados.

Nem todos os emigrantes são os da “valise de cartão”, isto sem nenhum sentido pejorativo, e aqui presto-lhes homenagem e ao seu sofrimento nos vários “bidonvilles” das cidades onde ajudaram a construir o futuro desses países.

Quero aqui referir-me aos intelectuais, descendentes mais directos de António Verney, aqueles que os outros países abrem os braços, naquilo que já foi chamado a caça aos cérebros.

A implantação do fascismo em Portugal levou muitos intelectuais a ter de sair do país, o número dava para encher várias páginas.

Os exilados começam logo a seguir ao inicio do “Estado Novo”, com membros do findo Partido Democrático que fundam em Paris a Liga da Defesa da República juntamente com Álvaro de Castro, José Domingues dos Santos, Jaime Cortesão e António Sérgio.

Alguns destes morreram no exílio, como Afonso Costa, outros regressaram a Portugal, tendo Jaime Cortesão participado activamente na Guerra Civil de Espanha com o grupo Buda.

Na Guerra Civil espanhola distingue-se Emídio Guerreiro (1899 a 2005), professor de Matemática no Porto. Combateu nas brigadas internacionais, como muitos portugueses, e depois no “maquis” em França, leccionou Matemática em Paris. Regressou no 25 de Abril e aderiu ao PPD.

A expulsão, de uma assentada, de 21 professores com famigerado decreto 35 317 foi a grande machadada que o fascismo deu na intelectualidade portuguesa e levou a que muitos tivessem de emigrar.

Entre estes foram o caso de alguns do designado núcleo da Matemática, Física e Química, como Ruy Luís Gomes, que foi docente numa universidade na Argentina e na Universidade de Pernambuco, no Recife. Nesta universidade leccionaram os portugueses: José Morgado, Alfredo Pereira Gomes e Manuel Zaluar Nunes. José Morgado só em 1979 foi reintegrado como Professor Catedrático na Universidade do Porto. Aniceto Monteiro leccionou no Brasil e Argentina. Todos regressaram a Portugal depois do 25 de Abril e as Universidades portuguesas reconheceram os seus valores. Mas por exemplo Aniceto Monteiro, segundo me contaram familiares, ficou muito entristecido com o acolhimento na sua Pátria e regressou à sua Universidade na Argentina, onde veio a morrer. Manuel Valadares, um dos pioneiros portugueses em Física Atómica e Nuclear, ficou a viver e a leccionar em França. Rémy Freire, outro do grupo das matemáticas, leccionou em Curitiba, Brasil. Em abono da verdade, apesar de com alguns atrasos, todos acabaram por ser reconhecidos após o 25 de Abril e condecorados. Em contrapartida, a lista de exilados de outras áreas, como Rodrigues Lapa, é enorme e muitos desses ficaram esquecidos.

A reintegração, a todos os títulos justa, de muitos destes Professores Universitários deveu-se ao facto da Assembleia da República ter votado uma lei que reintegrava na função pública todos aqueles que tinham sido expulsos por motivos políticos. Ou este não fosse o país das leis! Mas mesmo com leis as corporações não foram vencidas.

Nessa lei ficava de fora a grande maioria dos exilados dos anos 60 e 70. Jovens universitários por perseguição política ou por recusarem-se a combater na guerra de África não podiam ter sido funcionários públicos.

A estes exilados, o Estado, estrutura anquilosada e reaccionária, e as corporações levantaram todos os entraves à admissão na função pública.

Como anedota, que não o é, conto a história de um exilado que fugiu de Portugal perseguido pela PIDE e que voltou no 25 de Abril de 74, passados 15 anos. Tinha trabalhado na Suíça, Bélgica e depois Brasil. Quando da aplicação da dita lei foi reintegrado no mesmo lugar administrativo de um hospital psiquiátrico, na mesma mesa e na mesma cadeira que abandonara 15 anos antes. Ele dizia, com graça, que até os malucos eram os mesmos.

Por questão de pudor não irei aqui falar do meu caso. Durante a minha transcrição do caminho de Salomão - que por agora parou em Figueira de Castelo Rodrigo - acabarei por abordar o meu regresso porque, ao contrário do Elefante, resisti ao frio dos Alpes e voltei a Portugal.

Cito apenas os casos que se passaram com médicos portugueses exilados que regressaram ao país no 25 de Abril.

À excepção, diga-se em abono da verdade, do Serviço de Pediatria de Coimbra, que acolheu o António Torrado, já falecido, reconhecendo o excelente trabalho realizado em prol da assistência às crianças a nível nacional. O Torrado contou - me que tinha primeiro colocado os seus préstimos em Lisboa, cidade de onde era oriundo e onde se situava a Escola Médica que o formou, mas os directores dos diversos serviços de Pediatria da capital prescindiram do seu currículo como pediatra na Suíça e nos Estados Unidos. Surge-lhe então um convite de Coimbra, penso que em muito devido ao saneamento que tinha sido feito ao Professor de Pediatria Santos Bessa, que acumulava à data com o lugar de deputado à Assembleia Nacional, e também à abertura de espírito de Professor Carmona da Mota, regressado na altura de Inglaterra. Mais tarde foram para Coimbra outro ex exilados médicos como Luís Lemos, Gabriel Tamagnini e Henrique Delgado Martins.

Este último foi o primeiro ortopedista infantil em Coimbra e no período em que lá trabalhou formou vários ortopedistas, entre eles Jorge Seabra, figura de destaque nacional na ortopedia pediátrica. Quando abriram vagas para ortopedia, este médico ortopedista pela Federação Médica Helvética, que trabalhou em grandes centros, considerados internacionalmente, em França, Inglaterra e no Brasil, foi obrigado a repetir o internato de ortopedia. Rompeu com os Hospitais de Coimbra e veio para Lisboa, para o Hospital de São José, onde terminou a carreira como Director do Serviço 3 de Ortopedia. Já reformado foi homenageado num Congresso de Ortopedia em Portugal.

Outro médico Neurologista, formado na Suíça, teve de passar por um célebre concurso no Porto, onde obteve a classificação de dez valores. Um dos membros do Júri deu-lhe zero, obrigando o outro a dar 20 valores.

A “burrocracia“ ou a inveja dos seus e meus pares entravavam sempre, tivesse o exilado sido formado no Canadá, na Suíça, na Suécia ou na Checoslováquia, etc.. Os seus curricula não eram reconhecidos, obrigando-os a repetir a formação em Portugal!

Neste caso estão Pedro Lemos, cirurgião vascular, e Victor Branco, anestesista, médicos a exercer no Canadá que tiveram que regressar a esse país que os tinha acolhido. António Barbosa (já falecido), formado em urologia pela Faculdade de Medicina de Praga, teve de repetir toda a formação em Lisboa e terminou a carreira como chefe de serviço.

Nos exilados que estudaram Medicina isto foi recorrente e aconteceu em muitos casos, contrastando com outros das “chamadas boas famílias” da Medicina portuguesa, que após dez anos nos States são recebidos com tapete vermelho e clarins com bilhete directo para Professor e Director de Serviço.

Muitos médicos e outros profissionais ficaram no estrangeiro. Para quem ainda não conhece, aconselho a leitura do livro “À Espera de Godinho“, escrito por quatro exilados que ficaram na Bélgica, onde todos atingiram o topo nas suas carreiras.

No outro dia contaram-me uma situação caricata passada na altura da ministra Leonor Beleza. Para se aconselhar, Leonor Beleza teria convidado um especialista sueco em Psiquiatria. A Suécia enviou-lhe um médico português, refractário da guerra colonial, que na Suécia chegou ao topo da carreira.

Alguns, agora reformados, são finalmente convidados como peritos em diversos campos da medicina como palestrantes. É óbvio que agora não fazem sombra a ninguém e assim podem ser bem recebidos pelas Faculdades.

Nos anos 60, os Estados Unidos foram acusados de praticarem a caça de cérebros. Portugal tem tido uma política contrária, a expulsão destes.

A causa, no meu ponto de vista, é a defesa corporativa mesquinha e invejosa que este pequeno rectângulo não se consegue ver livre e assim tem sido desde o século XVII.

Os exilados regressaram na sua maioria no 25 de Abril de 1974 com o sonho de transformar este país num país melhor. Foi pena que muitos tivessem tido de voltar para trás. Prosseguindo esta politica, a maioria dos novos estrangeirados não irá regressar, direi mais, os melhores ficarão nesses países que lhes deram a oportunidade de se formarem como médicos.

domingo, 18 de abril de 2010

CANTINA

Recepção aos caloiros de Medicina
Eu a discursar na Cantina 1963


O CONVIVIO OU A CANTINA VELHA

DIA DO ESTUDANTE 24 DE MARÇO, novo jantar de comemoração, 38 anos passados da greve de 1962.
Este ano o jantar foi na Cantina velha, como disse o meu amigo Artur Pinto, até a Cantina está velha.

Como sempre nestes encontros de memória, que durante muito tempo detestei e agora com a idade a avançar vou aderindo, revi muitos amigos nas brumas da memória, há anos.

Momentos de recordações, lembrei-me da inauguração da Cantina, ou melhor do Convívio, e para refrescar as lembranças nada melhor que recorrer a uma informação dada por um bufo à PIDE nessa noite de inauguração. Para onde fossemos havia sempre um bufo, que vendia as suas informações à Policia por dez reis de mel coado, que miséria!

Hoje em dia espalha-se a ideia que a PIDE era uma polícia muito eficiente, a minha opinião nunca mudou, que esta como outras policiais políticas sempre funcionou à custa dos informadores.

Mas vamos ao que interessa, a tal informação histórica: INFORMAÇÃO Nº 26/63, datada de 29-1-63 e com um visto de 31-1-63.

“… No passado sábado, dia 26, desloquei-me ao “Convívio” da Cidade Universitária, para assistir ao Baile dos Alunos de Medicina e Direito, o qual teve início cerca das 23h00. (Os bufos também dançam)

À entrada fui surpreendido por dois indivíduos, segundo julgo estudantes, que distribuíam o “Comunicado nº 15“, sem qualquer receio de serem vistos. Tal distribuição continuou enquanto se dançava e em pleno recinto.” (IMAGINE-SE!)

Em seguida o relatório refere-se ás manifestações estudantis «… gritando em coro efe,erre e FRa….Hurra!...» Aí o Reitor interrompe e continua o relato assim: «….Meus Senhores! Cumpre-me interromper, para vos dizer que autorizei a realização desta festa………porque me prometeram que a única finalidade…era divertirem-se…….Pois bem verifico que isto não é mais uma festa mas sim uma reunião com uma única finalidade: “Actividades subversivas”…»

(Já adivinharam quem era o Reitor, exacto o PAULO CUNHA)

Mas a eloquência do Bufo, vai melhorando com o decorrer do texto: «…Estas afirmações foram recebidas com assobios e frases indignas de indivíduos com cultura geral, como o são JORGE SAMPAIO LUCENA, JOSÉ MARIA SANTOS, ALBERTO TEIXEIRA, etc.» O primeiro nome, é uma mistura entre Jorge Sampaio e Manuel Lucena, o Alberto Teixeira, está anotado a tinta, na margem do papel Teixeira Ribeiro e o José Maria Santos não consigo identificar.

O Magnifico Reitor continua a falar dizendo que conseguiu com o Ministro da Educação libertar três estudantes dos quatro presos, «…o outro MEDEIROS FERREIRA, continuou, visto não estar preso apenas como dirigente associativo mas sim por actividades contra a segurança do Estado, o que já estava provado pelas Autoridades competentes»

Vejam os mais novos a naturalidade com que um Reitor afirma, segundo palavra de bufo, que o Medeiros Ferreira não estava preso apenas como dirigente associativo, como se fosse o mais normal, mesmo naquela época, andar por aí a prender dirigentes associativos.

O relatório continua transcrevendo o discurso do Paulo Cunha: «…”Há dias, acompanhado por um professor universitário argentino, entrei no Bar do “Convívio”; os estudantes não só não cumprimentaram, como nem sequer se levantaram, demonstrando assim, perante um desconhecido, a falta de educação e respeito pelo Reitor, o que não é digno de estudantes.”
Tudo isto que o Reitor estava a apontar-lhes, era recebido com assobios e urros, perante milhares de pessoas.»

O bufo depois de comunicar que os dirigentes associativos pediram para usar da palavra ao que o Reitor acedeu, escreve: «um deles, segundo me parece o ABÍLIO TEIXEIRA MENDES*, quintanista de Medicina, não só desmentiu em público o seu Reitor como disse ainda que concordava em absoluto com a abertura do Museu (prometido por Paulo Cunha) e que, para isso, ele próprio iria colaborar na sua qualidade de aluno, mas que, nunca era de esquecer a colocação ali do Decreto-Lei 44.632. Nesta altura o Reitor interrompeu, tendo este aluno terminado o seu discurso, que eu considero “sujo e indigno”, dizendo que a Universidade dependia deles e que, para a vida académica, eram necessárias duas coisas: a autonomia e a autodeterminação…….
…Falou ainda o estudante JORGE SAMPAIO LUCENA (e o bufo insiste, mas temos que o desculpar pois o Jorge ainda não tinha sido eleito Presidente da República), do 5º ano de Direito, que não só tornou a desmentir o Reitor como, depois deste o ter interrompido, disse que um dos princípios da democracia era que não se interrompia qualquer orador quando proferia o seu discurso. Disse ainda que concordava em absoluto com a ideia do Reitor esclarecer o público por intermédio da Imprensa pois eles tanto o têm tentado mas a “suja Censura” sempre o tem evitado.»

O relatório do informador termina aqui, com a pressa de mostrar serviço, não ficou para o baile, nem para a eleição da Miss Caloira.

Assim, não pôde informar que o Reitor – Palhaço não resistiu ao convite da Miss Caloira de Medicina e veio dançar, comer e beber para o meio dos estudantes em festa.

O que levou alguns de nós, mais radicais, a propor o seu rapto, o que nunca sucedeu.

Os “soixantards“ meus amigos devem lembrar-se que terminámos todos a cantar o “hino da Cantina”:
“ Passa a Benard**,/ Passa e a barretaça vai enfiar/ A rapaziada come / fica com fome tem de pagar/ e se a malta faz barulho por ter entulho à refeição/o Reitor não acha graça e ameaça fechar a Associação.
Uma cantina para estudantes/ isso era bom mas era dantes/ agora a malta se quer comer/ tem de pagar, sem refilar e a Benard a encher.”
(Música da marcha do Bairro Alto, vencedora em 62 das marchas populares, e letra de JL Boaventura e A. Mendes)

Tenho que admitir que à parte alguns erros o relatório retratou a realidade daquele dia.

O Reitor tinha prometido aos dirigentes associativos da Universidade Clássica, Medicina, Direito e Letras, a abertura do Convívio e de um Museu. Os dirigentes devem ter exigido a libertação dos colegas presos entre os quais Medeiros Ferreira.

Foi decidido, portanto, nesse ano realizar em conjunto o Baile de recepção aos caloiros de Medicina e Direito e era com este tipo de manifestações que se trazia muitos estudantes à luta contra a Ditadura; por isso o ódio que tinham a todas as formas de movimentos associativos.

Se a memória não me falha foi em 1963 que na inauguração do ano lectivo esteve presente o Presidente da República, Américo Tomás. Um grupo de estudantes, entre os quais eu, numa atitude quixotesca, virou as costas ao presidente, o que valeu uma tarde passada na António Maria Cardoso, onde conheci o Chefe Rego e o Sub-inspector Passo, os dois seguramente vieram a auferir, mais tarde, pensões de reforma por serviços prestados à Nação.

_______________________________________________

*nesta data o Abílio estava no Porto, por ter sido expulso da Universidade de Lisboa por participação na greve de 1962

**A pastelaria Benard era a concessionária da Cantina, contra a vontade das Associações de estudantes da Universidade Clássica que se tinha proposto fazer a sua gestão

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Centro de Saude de Lisboa

  A História do Centro de Saúde de Lisboa está descrita neste artigo, da minha autoria, publicado na Acta Pediátrica Portuguesa. Por ter sido uma experiência relevante, que foi apagada dos arquivos da DGSaúde, aconselho vivamente a sua leitura.
http://www.spp.pt/Userfiles/File/App/Artigos/17/20100115185619_Hist%20Medicina_Mendes%20JT_40(4).pdf

domingo, 21 de março de 2010

TERRAMOTO

HAITI




Faculdade de Medicina, Lausana, Suíça, verão de 1967, exame de Histologia e Embriologia: “ Entrez Monsieur Mendes, vous êtes portugais n’est ce pas? Dizia M.Bucher, o Professor da disciplina, com o seu típico sotaque suíço alemão. Depois prosseguiu: - No seu país o Ditador é médico, não é? Ah é verdade é formado em Direito, médico é o do país do senhor que o precedeu no exame.

Era o Jean Paul, estudante haitiano, e o Ditador a que o Professor se referia era o não menos sanguinário Papa Doc, François Duvalier, fantoche dos Estados Unidos que governava a ilha desde 1957 e que na década de sessenta exterminou toda a oposição e tornou-se tristemente célebre pelos famosos tontons macoutes (bichos papões) que espalhavam o terror em toda a ilha.

No meu curso, havia três estudantes do Haiti, dois rapazes e uma rapariga, e foi depois deste exame que os conheci melhor. Tínhamos em comum ser oriundos de dois países com ditadores, um com o curso de Medicina e outro com o curso de Direito, mas bem distantes, um nas Caraíbas e outro na Europa.

A história deste país nem sempre foi de desgraças, o Haiti que actualmente, ocupa parte da ilha de São Domingos, a primeira ilha da América onde atracou Cristóvão Colombo na sua viagem ao serviço dos Reis Católicos, regista tempos heróicos no sec. XIX, quando se torna a primeira república negra do Mundo.

País de escravos negros revolta-se em 1803 contra a França, potência colonial, e derrota as tropas de Napoleão Bonaparte ocupadas em guerras na Europa, esta humilhação custou-lhe cara, apesar disso, o Congresso de Viena, em 1815, formaliza a derrota da França e determina a extinção do tráfico de escravos, embora limitada a norte do Equador.

A Espanha invade a ilha em 1871, como consequência esta fica dividida em dois países: o Haiti e a actual República Dominicana. A Inglaterra apodera-se deste estado em 1877, por sua vez os Estados Unidos invadiram três vezes o Haiti: 1914, 1915 e novamente em 1969.

República de escravos livres, assente nos ideais da Revolução Francesa, acolhe Simão Bolívar, como refugiado e ajuda-o, quando foi derrotado pelos espanhóis, na sua luta pela independência.

O governo, deste país entregou-lhe navios, armas e soldados, com uma única condição, de que Bolívar libertasse os escravos em cada país que se tornasse independente do jugo colonial espanhol.

Em 1915 o Haiti é invadido pelos Estados Unidos, consequência da politica baseada na Doutrina Monroe: “ a América para os americanos” que propugnava a supremacia dos EUA sobre todo o continente. Tal política, na prática, traduziu-se na intervenção sistemática nos países da América Latina, tendo sido apelidada por Theodore Roosevelt de “ big stick”.

Os norte-americanos só deixaram este país em 1934, ou melhor só se retiraram quando cobraram as dívidas do City Bank e aboliram o artigo constitucional haitiano, que proibia vender plantações aos estrangeiros e voltaram a invadi-lo em 1969.

Cada invasão significa um novo terramoto com saques, ruínas, destruição e morte. As invasões isoladas não foram suficientes para exterminar o Haiti e nos intervalos o povo foi vítima de duas ditaduras sanguinárias: a do Papa Doc, o médico François Duvalier (1957 a 1971) e a do seu filho Jean Claude Duvalier apelidado de Baby Doc (1971 a 1986)

A população do Haiti são 9 milhões de habitantes, mas as imagens das televisões só nos mostrou o povo sacrificado, os assaltos selvagens aos bens que eram distribuídos pela ajuda internacional, a indiferença aparente perante os mortos, o acumular de cadáveres.

A tradição racista e xenófoba imperou nos media ou este não fosse o país de escravos negros que humilhou a Europa vencendo as tropas de Napoleão, tropas essas que por exemplo, obrigaram a nossa família real a abandonar Portugal e a refugiar-se no Brasil, ou este não fosse o país das religiões africanas do vudu que a Igreja Católica e os “ocidentais” tão hedionda nos apresentaram através de livros e de filmes medíocres.

Onde estavam os médicos haitianos, os professores, os engenheiros e outros profissionais ? Gostaria de os ter visto e ouvido falar do futuro, da reconstrução e da ajuda internacional necessária, do seu país independente desde 1803.

A imprensa internacional mostrou além das imagens violentas e comoventes de sobreviventes debaixo de destroços, de mães em transe aconchegando filhos mortos no seu colo, apresentou também ao Mundo um país, um Estado falido, uma nação desgovernada por completo.

A mensagem passada, à opinião pública, foi a de um país incapaz de se organizar e se governar por si só, em resumo ser Independente.

Que futuro espera este país? Poderá respeitar os velhos ideais da sua história ou estará condenado à subjugação de uma grande potência e acabar como país independente, tornando-se um protectorado de qualquer grande potência.

A esperança nasceu ao ler o texto do Professor de antropologia brasileiro, Omar Ribeiro Thomaz, que estava no Haiti a 12 de Janeiro e a tudo assistiu.

Texto que aconselho a ler. Aí ficamos a saber que a ajuda internacional chegou muito tarde e como ele diz, os membros da ONU ajudavam os membros da ONU e os haitianos ajudavam os haitianos. Os feridos foram assistidos por médicos, enfermeiros e freiras haitianas, seguramente os meus ex colegas estariam lá na primeira ajuda. As estruturas “primitivas” começaram a funcionar, os pequenos comerciantes, os chamados, madanm sara, expuseram nas ruas as suas bancas de víveres e água, sem especulações monetárias. Segundo este antropólogo os supermercados é que ruíram e foram assaltados por gente com fome, ao contrário dos pequenos comerciantes que não foram atacados nem tiveram de se defender com armas, como os soldados da ONU, estas estruturas nunca foram utilizadas pelas organizações de ajuda humanitária.

As imagens televisivas mostraram-nos também um povo crente, educado na influência e confluência das religiões Vudu e Católica, pedindo a graça de Deus. Quando alguém era salvo in extremis, a palavra milagre era pronunciada à exaustão.

A morte de 200 000 pessoas e a destruição total de Port-au-Prince, não foi por vontade de Deus. Há mais de 200 anos, quando em 1755, o terramoto, o fogo e depois o tsunami, destruiu Lisboa e matou cerca de 20 000 pessoas, horrorizou a Europa e perturbou alguns filósofos, na suas crenças religiosas.

Voltaire, no seu célebre poema sobre o desastre de Lisboa interrogava-se: “ Direz – vous “C’est l’effet des éternelles lois/ Qui d’un Dieu libre et bon nécessitent le choix » ?/Direz – vous, en voyant cet amas de victimes:/ «Dieu s’est vengé, leur mort est le prix de leur crime» ?/ Quel crime, quelle faute ont commis ces enfants/Sur le sein maternel écrasés et sanglants ?»

O sociólogo Zygmunt Bauman define esta data, 1755, como a gota de água que mudou toda uma concepção do Mundo fundada na Providência divina.

Tenho a esperança que depois do desastre que matou 200.000 pessoas e destruiu metade do país, os haitianos reconstruam a sua terra livre de tabus e construam uma sociedade livre de ingerências estrangeiras. O povo tem a memória da sua história e, libertado das crenças, pode deixar de ser o país mais pobre do Planeta.

quinta-feira, 4 de março de 2010

Brassens - Le roi (des cons)

Pas de chance

O CENTENARIO DA REPUBLICA

0 31 DE JANEIRO VISTO POR UM HEROI DA REPUBLICA


No dia 31 de Janeiro de 1891, na cidade do Porto, registou-se um levantamento militar contra as cedências do Governo (e da Coroa) ao ultimato britânico de 1890 por causa do Mapa Cor-de-Rosa, que pretendia ligar, por terra, Angola a Moçambique. Esta é a explicação mais comum da primeira tentativa de implantação da República em Portugal

Neste discurso, proferido numa efeméride da data, já durante a Ditadura, o Almirante Tito de Morais fala de outras causas, além desta, que deu origem à “ Portuguesa “, composta por Lopes de Mendonça e Alfredo Keil, que viria a ser o Hino Nacional.

Como estes documentos são de difícil leitura, passo a transcrever algumas partes do discurso que acho interessante sublinhar:

“ O movimento revolucionário de 31 de Janeiro de 1981 foi um brado da indignação colectiva contra os desmandos dos governos da Monarquia, agravados pela afronta recebida em 11 de Janeiro do ano anterior; traduzindo o anseio da consciência democrática do País pela mudança………………………………..”

“………..Os defensores da Monarquia não quizeram ou não souberam ver no seu verdadeiro significado aquele brado da Nação……………………………………..trataram, sim, de engrandecimento do poder real, enveredando por actos dictatoriais , falta de cumprimento da Lei e falta de respeito da Constituição, publicação de leis de excepção, repressão cada vez mais violenta da liberdade de reunião e da liberdade de Imprensa – com assaltos de policia às redacções dos jornais – e permitindo nova invasão jesuítica que, em breve, dominaria todas as actividades oficiais, verificando-se a resistência dos prelados ao poder civil.”

“……..escândalos era interminável: empréstimos a bancos e a outras instituições particulares, sem disponibilidades que as permitissem mas e cujas administrações alguns ministros não eram estranhos; a administração dos fundos públicos constantemente deficitária; a concessão de Mac – Murde, os “bonds” de Hersent, as cédulas de Burnay, o contracto dos Tabacos, o monopólio dos Fósforos, as jóias de D. Miguel, as questões dos Sanatóios e do açúcar da Madeira, a convenção com o Transvaal sem o “ ad referendum” do Governo, a partilha e venda das colónias tratadas na imprensa estrangeira, e defendidas por ministros, os desfalques elevadíssimos no Credito Predial e na Companhia Vinícola a cujas as administrações pertenciam os políticos mais em evidencia e, a mais importante de todas, a questão dos adiantamentos ilegais à Casa Real. ………………………………………………………………………………….”

O brado do 31 de Janeiro culminou com a Vitoria do 5 de Outubro”

terça-feira, 2 de março de 2010

Chopin Nocturne Op.9 No.2 (Arthur Rubinstein)


Há 200 anos nasceu Chopin.
 Em homenagem à minha mãe coloco este video : Nocturno op.9Nº2 tocado por Arthur Rubinstein.
Esta musica, que ela tão bem tocava, acompanhou toda a minha infância e adolescência.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

IN ILLO TEMPORE


IN ILLO TEMPORE


Quando saí do aconchego do lar, para iniciar os meus estudos, os meus pais inscreveram-me no Colégio Infante Sagres por ser um estabelecimento de ensino aonde não seria obrigado a receber aulas de religião e moral e de frequentar a mocidade portuguesa.

Nisso o meu pai fez uma boa escolha, pois eu e os meus irmãos, nunca fomos obrigados a vestir aquela farda esverdeada (tipo feijão verde) com um S de Salazar gravado no cinto. Quanto às aulas de religião e moral ministrada por um padre, o Padre Freitas, senti uma discriminação imprópria de um estado laico. Éramos apenas 3 alunos, na minha classe, que não frequentávamos essas aulas: eu, Salomão Benoliel e um Palma Carlos (pelos nomes percebe-se porquê).

A pressão sobre nós do Padre Freitas era de tal ordem violenta que uma vez o Dr. Manuel João da Palma Carlos entrou de rompante pelo portão do colégio para pedir satisfações ao dito padre pelos comentários que tinha feito ao filho.

In illo tempore, os exames da 3ª e da 4ª classe em estabelecimentos públicos eram obrigatórios. Como o Colégio Infante Sagres pertencia ao ensino privado realizei os exames da 3ª classe algures numa escola em São Sebastião da Pedreira e o da 4ª classe no liceu Camões.

Estas provas de entrada, para o ciclo liceal, eram uma verdadeira tortura para todas as crianças da minha idade, obrigados pela primeira vez a vestir fato e gravata.

As provas decorriam sempre durante o mês de Junho, normalmente em dias de grande calor.

In illo tempore, as esferográficas não existiam, o que nos obrigava a escrever com caneta tinta permanente, uma das prendas obrigatórias nos aniversários ou no Natal para grande desgosto nosso. Agradecíamos sempre com um sorriso amarelo, o estojo com a caneta de tinta-da-china, régua e esquadro que faziam também parte do arsenal obrigatório para o exame.

O mais difícil para mim foi sempre a prova de desenho, quando o esquadro esborratava espalhando a tinta-da-china, ainda não tinham sido inventadas as canetas Rotring, mas para algumas crianças o mais temível era a hipersudação das mãos, desvio fisiológico incontrolável, obrigando-os a limpar o suor regularmente com um lenço branco.

O dia do exame da 4ª classe chegou numa manhã quente daqueles anos em que o mês de Junho sugeria praia e mar e lá me vesti com o fato com calções, camisa branca e gravata a rigor.

O meu pai levou-me no seu carro até ao gradeamento do liceu Camões onde já estavam à nossa espera o professor primário e o director do Colégio.

No exame da 4ª classe, na prova de português, pedia-se para narrar uma história em que a figura principal fosse um cão.

Como citadino a única história que conhecia com cães era aquela, do Bob, que tantas vezes tinha ouvido do meu pai e acabava sempre com as gargalhadas gerais das visitas.

O Bob era um lobo de Alsácia que tinha sido oferecido ao meu pai e vivia numa quinta dos meus avós maternos na Cruz Quebrada.

O meu irmão mais velho tinha acabado de nascer e o cão, como acontece frequentemente com estes animais, vigiava o berço e o bebé e só deixava aproximarem-se os meus pais.

Um dia um amigo lá de casa foi visitá-los e quis ver o rebento da família. Não tendo feito caso dos avisos repetidos do meu pai, resolveu pegar no meu irmão ao colo. Num salto o Bob atacou-o e rasgou-lhe os fundilhos das calças, ao que ele retorquiu: - “ livra que este cão é fascista morde pelas costas”.

Ora aí estava na minha memória a história ideal para um exame de admissão aos liceus.

Quando o meu Professor da 4ª classe, o Professor Pimenta, alentejano e suspeito que também antifascista, viu a redacção, chamou o meu pai, o director do colégio e ainda um Professor do Liceu Camões, que nunca soube o nome, e lá resolveram da melhor forma o assunto.

Só me chamaram para dizer: - “Não sabes que fascista não se escreve com X?” Esse erro, de certeza, não mo tiraram.

Foi assim que entrei nos liceus e manifestei a minha primeira atitude antifascista.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

COMISSÃO PRÓ ASSOCIAÇÃO DOS LICEUS

 
A COMISSÃO PRÓ ASSOCIAÇÃO DOS LICEUS


A maioria das associações de estudantes universitárias foi encerrada, nos anos cinquenta, por ordem da Ditadura. Exemplo disto foi o encerramento pela PIDE da Associação de Medicina, à época situada no Campo de Santana, com a destruição de todo o seu espólio. O ódio à cultura levava à destruição dos livros, considerados funesta influência da sociedade, o que o regime de Salazar fez sempre na boa tradição, da inquisição e do nazi-fascismo.

O associativismo em Portugal foi desenvolvido durante a primeira República, que neste ano se comemora o primeiro centenário. António Sérgio foi o grande divulgador e impulsionador da educação cívica nos liceus, exortando à participação dos alunos no governo das escolas através dos seus colegas eleitos, numa verdadeira preparação para a vida adulta em Democracia, habituando, como escreveu “as crianças à acção cívica, ao exercício dos futuros direitos de soberania…”

O seu livro “Educação Cívica “, escrito em 1915 e reeditado pela Editorial Inquérito, trinta e nove anos depois e ainda tão actual, dizia:

“ …o hábito escolar de obedecer a uma governação de que o estudante não participa amolda um futuro cidadão que aguentará apaticamente todos os desmandos, todos os abusos, todos os atropelos e traficâncias dos grandes senhores que todo lo mandam, sob políticos autoritários; ficam assim desde o tempo dos estudos determinados os nossos modos de procedimento para com o governo da comunidade….”

Salazar conhecia bem o perigo dos métodos de ensino moderno, por isso à imagem da juventude nazi e fascista italiana cria, por Decreto-Lei n.º 26 611, de 19 de Maio de 1936, a organização nacional Mocidade Portuguesa que pretendia abranger toda a juventude - escolar ou não - e atribuía-se, como fins, estimular o desenvolvimento integral da sua capacidade física, a formação do carácter e a devoção à Pátria, no sentimento da ordem, no gosto da disciplina, no culto dos deveres morais, cívicos e militares.

A ela deveriam pertencer, obrigatoriamente, os jovens dos sete aos catorze anos. Os seus membros encontravam-se divididos por quatro escalões etários: os lusitos (dos 7 aos 10 anos), os infantes (dos 10 aos 14 anos), os vanguardistas (dos 14 aos 17 anos) e os cadetes (dos 17 aos 25 anos). Estava dotada de um hino e fazia a saudação fascista de braço estendido.

A grande maioria dos jovens da minha geração (fim de anos 50 /60) era avessa a esta organização para militar, conhecida entre nós pela “ Bufa”, nome pejorativo que a identificava com um dos sentimentos mais baixos, a delação.

Foi neste ambiente que, em inícios de 1960 tive conhecimento da existência da Comissão Pró Associação dos Liceus, por um panfleto que propagandeava uma sessão de cinema no Instituto Superior Técnico. Na altura, frequentava o Liceu Francês Charles LePierre, que era uma das escolas mais liberais.

Influenciado pelos ideais de António Sérgio e com um irmão que já pertencia à Comissão Pró – Associação de Medicina, aderi rapidamente à ideia de criarmos uma Associação Liceal em Lisboa. O grupo inicial era muito pequeno, mas com jovens cheios de entusiasmo, desejosos de sair da “ paz podre” que era a vida nos liceus, onde qualquer iniciativa cultural era nado – morto.

Alguns deles já escreviam os seus textos no Juvenil do Diário de Lisboa, com a orientação de Costa Dias, outros tinham ligações ao Partido Comunista e eram mais politizados.

No verão de 1960, o Luís Garcia convidou – me para ser candidato à Presidência da Pró Associação, o que aceitei. Fui eleito numa reunião realizada na Associação de Direito, com cerca de vinte e tal estudantes. Durante o ano lectivo 60/61 o movimento cresceu muito, havendo delegados em quase todos os liceus de Lisboa, apesar da proibição imposta pela maioria dos Reitores. O ideal associativo estendeu-se também às escolas comerciais e industriais.

Abrimos uma sede numa sala do bairro S. Miguel, em Lisboa, fizemos inúmeras realizações de convívio, saraus culturais, participamos nas RIAs (reuniões inter - associações) e no Dia do Estudante de 1961, na Faculdade de Ciências, onde pela primeira vez ouvi e vi cantar o Zeca Afonso a balada do Bairro Negro.

Recordo as inúmeras viagens que fiz ao Porto, com o Carlos Mire Dores para incentivar o movimento associativo liceal nesta cidade. Hospedávamo-nos na casa do pai Barrias, que morava perto da sede da PIDE no Porto, e que acolhia todos os estudantes “associativos” que lhe batiam à porta. Lembro-me de alguns dos membros da Pró Associação do Porto: José Mário Branco, Milice, Isabel Alves Costa, etc….

Em Coimbra, onde a tarefa foi atribuida a Ruy D’Espinay, a acção era mais difícil porque os estudantes liceais, apelidados na gíria académica de “bichos”, não podiam, pela praxe, sair à rua durante a noite, o que dificultava as nossas reuniões. Imagine – se como odiávamos a praxe coimbrã!

A ideia de um movimento associativo liceal que afrontava o bastião da Mocidade Portuguesa, visto que já tinham perdido toda a influência nas Universidades - tinha de se impor no convívio com os colegas universitários, que numa sociedade anquilosada e retrógrada não via com bons olhos “os putos” a opinarem.

Fui presidente durante um ano e dirigi a mesa que, em Outubro de 1961, elegeu a nova direcção numa assembleia, muito concorrida, na Associação do Técnico. A esta eleição concorreram duas listas, uma encabeçada pela Teresa Tito Morais e outra pelo Ruben de Carvalho, com o apoio do Saldanha Sanches. Ganhou a primeira com uma votação esmagadora.

Na greve de 62, a pró associação dos liceus tinha o estatuto de observador nas RIAs, o que não impediu a grande agitação feita nos liceus por todo o país e a participação nas manifestações estudantis.

O fascismo odiava todo o movimento associativo quer de trabalhadores quer o de estudantes, por isso as tentativas de ilegalização destes movimentos foram uma constante durante o “ Estado Novo”.

A PIDE tentava sempre assimilar a comissão pró associação dos liceus com o Partido Comunista. Quando fui chamado à polícia, fui acusado de pertencer às comissões pró associações (Medicina também era pró associação). Contudo, o interrogatório focava apenas aspectos e nomes de estudantes liceais.

Na ficha da PIDE de Teresa Tito de Morais está escrito, na primeira observação, que foi denunciada por pertencer à Comissão Pró Associação dos Liceus.

Ontem como hoje, a participação dos alunos no governo das escolas - uma verdadeira educação cívica - é a vacina contra a formação de cidadãos apáticos e que aceitam todos os desmandos. Como dizia António Sérgio: -“ a escola autocrática forma cidadãos passivos que possibilitam a corrupção administrativa”.

A Pró Associação dos Liceus conseguiu os seus objectivos iniciais. Foi uma escola de exercício democrático e de cidadania, apesar da PIDE e das vagas de repressão que se abateram sobre ela. A maioria daqueles que pertenceram à sua organização vieram a ser cidadãos honestos e amantes da liberdade, independentemente dos caminhos que seguiram.





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