quinta-feira, 20 de julho de 2017

Contos da Emigração




Contos da Emigração
Primeira Parte
(escrita em género de novela…)

O Jerónimo, conheci-o em Lausanne e rapidamente ficámos amigos.
Oriundo de Matosinhos saiu a salto de Portugal, ainda muito novo, atravessou a nado o rio Minho e a pé os Pirenéus, onde muitos portugueses se perderam abandonados pelos passadores.
Pouco tempo ficou em Paris, onde a vida nos bidonvilles não lhe agradou.
Chegou a Lausanne no início dos anos sessenta. Como? Não sei, nunca lhe perguntei, nem ele me contou.
Quando precisei de um carpinteiro, indicaram-me o Jerónimo. Estava inscrito no consulado com esta profissão.
A representação de Portugal em Lausanne era feita, à época, por um cônsul honorário de nacionalidade suíça e durante alguns anos muitos portugueses fugidos do país obtinham aí passaporte, alegando que lhe tinham roubado os papéis.
Jerónimo era forte, moreno e de estatura mediana, alegre e folgazão, e guardava uma pronúncia forte do norte.
Como muitos emigrantes, fugiu da fome que grassava em Portugal, sem nenhuma preparação profissional ou instrução. Jerónimo era analfabeto.
Mas tinha aquela característica do povo português, referida por muitos filósofos e pensadores, o desenrascanço*.
Lembro-me do nosso primeiro contacto. Telefonei-lhe (era o tempo dos telefones fixos. Telefonávamos para Portugal de cabines públicas, onde segurávamos uma moeda com uma pastilha elástica e um fio longo e assim que atendiam do outro lado puxávamos a moeda. Mais um desenrascanço…) e perguntei-lhe onde queria que nos encontrássemos e como o iria conhecer. Ele respondeu prontamente: "Na estação de metro*, em Ouchy, e estarei com uma mama de fora". Claro que mal desci na estação reconheci-o imediatamente, não precisou de mostrar um peito fora da camisa. Era facílimo identificar aquele português brincalhão no meio dos sorumbáticos suíços.
*dicionário Priberam: Capacidade de solucionar problemas ou resolver dificuldades rapidamente e sem grandes meios
** em 1965, o metro em Lausanne era um transporte de superfície que só tinha uma linha que ligava a praça central da cidade, Saint François, ao lago do Leman. Os habitantes da cidade chamavam-lhe Ficelle (o fio).
(Continua  ...)
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sexta-feira, 14 de julho de 2017






Carta Aberta ao Primeiro-Ministro António Costa

A razão de os signatários se dirigirem directamente ao Primeiro-Ministro decorre da análise que fazem da actual situação no sector da saúde, a qual, quase a meio do mandato do governo, permanece sem sinais de mudança que alterem a natureza do modelo de política de saúde, promovendo a saúde dos portugueses e reabilitando e requalificando o Serviço Nacional de Saúde.
As várias greves dos profissionais de saúde – médicos, enfermeiros, técnicos de diagnóstico -, em que se verificou tanto uma grande adesão desses profissionais como uma considerável compreensão por parte da população, representam sinais que devem ser entendidos e interpretados como manifestações críticas da situação que se está a viver no sector.
O diagnóstico que melhor caracteriza a saúde da população é dado pelos seguintes indicadores-chave. (1) com 70% de esperança de vida saudável, os portugueses tinham o mais baixo valor dos países do sul da Europa – Espanha, França, Itália e Grécia; (2) com 32% de esperança de vida saudável aos 65 anos, os portugueses ficam bastante aquém dos valores daqueles países; (3) no grupo etário 16-64 anos só 58% da população considerava que a sua saúde era boa ou muito boa, quando na Grécia ou em Espanha é superior a 80%; (4) no grupo com mais de 64 anos aquela percepção é de 12%, sendo em Espanha e França superior a 40%; (5) mais de 50% da população tem excesso de peso; (6) em 2016 verificou-se o maior excesso de mortalidade da década, correspondente a 4 632 óbitos.

Nos setenta e sete hospitais da rede pública, cerca de 800 000 utentes aguardam com excesso de espera uma primeira consulta hospitalar, correspondendo a 30% das primeiras consultas realizadas em 2016. Esse excesso varia entre 2 -> 800 dias. Mais de oitocentos mil portugueses não têm médico de família atribuído. Entre 2014 e 2016 verificou-se um aumento de 529 000 urgências. Em seis anos (2009-2015) a despesa pública da saúde diminuiu quase dois mil e quinhentos milhões de euros, tendo passado de 6,9% para 5,8% do PIB.

Esta situação é já bastante preocupante. Continua a insistir-se num modelo de política de saúde exclusivamente orientado para o tratamento da doença e centrado nas instituições de saúde. Quando a regra é ser-se saudável e a excepção é estar-se doente, a quase totalidade dos recursos são canalizados para a excepção, embora a promoção e a protecção da saúde sejam as condições que mais contribuem para melhorar o bem-estar das pessoas e das comunidades, e a estratégia que torna os sistemas de saúde sustentáveis.

Mas mesmo quando se trata da prestação de cuidados na doença, o acesso mantém-se como o maior obstáculo aos serviços de saúde no momento em que são necessários, com as consequências daí decorrentes para a saúde dos doentes. Os tempos de espera inadmissíveis são disso a melhor evidência e a afluências às urgências o pior sintoma da disfunção que reina no sector.

O sistema público de saúde carece do financiamento ajustado à sua missão: promover a saúde, prevenir e tratar a doença. Sem essa condição não só o SNS vê reduzido um dos seus principais valores, a cobertura universal, como as respostas que vai dando são canalizadas quase exclusivamente, e já em condições precárias, para o tratamento da doença.

Os signatários desta Carta têm uma longa história de serviço público no Serviço Nacional de Saúde. A maior parte deles contribuiu para que ele se implantasse nos primeiros anos da sua criação, foram seus profissionais desde então e bateram-se por diversas vezes contra os ataques que lhe foram movidos. Não estão, por isso, dispostos a assistirem ao seu progressivo definhamento. Se, como é defendido, o SNS representa um dos mais relevantes serviços que a democracia tem prestado aos portugueses, então há que proceder á mudança que se impõe da política de saúde. Passados 38 anos da sua criação, o SNS não pode ficar imóvel e alheio aos desafios que lhe são colocados. Nesta exigência estamos acompanhados pelos mais prestigiadas autoridades na matéria, como Ilona Kickbusch, David Gleicher e Hans Kluge da OMS, Nigel Crisp, coordenador da Plataforma Gulbenkian Health in Portugal e Tonio Borg, comissário da UE para a saúde

Por isso nos dirigimos a si, senhor Primeiro-Ministro, na expectativa de que seja sensível a esta necessidade inadiável e tome as decisões que a situação descrita exige. Entendemos e reconhecemos que as medidas a tomar, dada a sua natureza, não produzem efeitos imediatos. É no médio e longo prazo que os resultados se tornam demonstrativos da razão que assiste às soluções para as quais estamos disponíveis a dar o nosso contributo. Mas é imperativo que se comece já.

Lisboa,

Aguinaldo Cabral, Alberto Mendonça Neves, Almerindo Rego (Presidente do Sindicato dos Técnicos Superiores de Diagnóstico e Terapêutica), Ana Abel, Anita Vilar, António Manuel Faria-Vaz, Armando Brito de Sá, Augusto Goulão, Carlos Leça da Veiga, Carlos Vasconcelos, Cipriano Justo, Deolinda Barata, Fernando Gomes (ex-Presidente do Conselho Regional do Centro da Ordem dos Médicos), Francisco Crespo, Francisco Paiva, Guadalupe Simões (Vice-Presidente do Sindicatos dos Enfermeiros), Henrique Delgado Martins, Isabel do Carmo,  Jaime Correia de Sousa, Jaime Mendes (ex-Presidente do Conselho Regional do Sul da Ordem dos Médicos), João Álvaro Correia da Cunha, João Cravino,  João Proença, Jorge Espírito Santo, Jorge Seabra, José Aranda da Silva (ex-Bastonário da Ordem dos Farmacêuticos), José Carlos Martins (Presidente do Sindicato dos Enfermeiros), José Frade, José Manuel Boavida, Manuel Sá Marques (1º Presidente do Sindicato Médico da Zona Sul),  Maria Augusta de Sousa (ex-Bastonária da Ordem dos Enfermeiros), Maria Gorete Pereira, Maria João Andrade, Maria Manuel Deveza, Mariana Neto, Mário Jorge Neves (Presidente da Federação Nacional dos Médicos), Nídia Zózimo, Paulo Fidalgo, Patrícia Alves, Pedro Miguéis, Rui de Oliveira ( ex-Presidente do Conselho Regional do Sul), Sérgio Esperança (ex-Presidente do Sindicato dos Médicos da Zona Centro), Sofia Crisóstomo, Teresa Gago





terça-feira, 11 de julho de 2017

O Eterno Adão



O livro " O Eterno Adão" escrito por Jules Verne, em 1910, descreve a submersão da nossa civilização.

É um livro premonitório, cada vez mais real e menos de ficção científica como aconteceu com muitos livros deste escritor.

Senão vejamos, apesar de Trump não acreditar, ao ritmo actual da emissão de gazes com efeito de estufa os glaciares da Antartida, o icebergue Larsen C, que tem uma superfície equivalente a 2/3 da Córsega ou seja 5000 Km,  contribuirá ao aumento das águas dos oceanos.

Os americanos ricos que não são tão broncos como o seu ( deles) Presidente, em Miami, com casas à beira-mar, recuam para os sítios altos, reservados aos pobres no passado, e os preços das habitações no sul da Florida já baixaram de 7,6% em 2015.

Quando é que as imobiliárias no Algarve seguem este exemplo?

segunda-feira, 10 de julho de 2017

FALCATRUAS




A divulgação da prova de português para os alunos do 12º ano, em audio no facebook foi um escândalo
Recorrentemente assistimos a factos semelhantes.

Mas,sinais dos tempos, houve neste acto algo mais moderno e mais democrático na medida que a "fuga" de informação esteve disponível para mais candidatos à prova.

Nos idos anos cinquenta do século passado, estudei afincadamente para o  exame do antigo 5º ano, num mês de Julho escaldante, tive de prestar provas no Liceu Camões de fato ( terno) completo e gravata como mandava a lei.
Desejoso de ir de férias gozar as praias do Atlântico, rezei ( apesar de não ter tido educação religiosa) para dispensar das provas orais.
Corri logo de manhã para ver as pautas no dia aprazado.
Qual não foi o meu espanto e admiração que não só não obtive as classificações necessárias para dispensar das provas orais como o pior aluno do colégio tinha dispensado ás duas secções Letras e Ciências. Foi de tal maneira escandaloso que o Director e os Professores do colégio não puderam esconder as suspeitas de grossa trafulhice.
Nunca chegámos a saber como se processou a troca de provas mas na realidade o aluno não podia arriscar a ida às provas orais e assim cortou-se o mal pela raiz. Tudo ficou abafado nas paredes do colégio. Vivíamos na paz podre do Estado Novo e o MEDO de falar era muito.
Claro que este menino nunca mais estudou mas o pai que era rico conseguiu que este não fizesse o serviço militar como soldado.
Perdi de vista este colega, fomos por caminhos diferentes, mas desconfio que deve ter ficado isento do serviço militar.
Aquando do meu regresso no 25 de Abril soube que ele tinha uma lista de elementos subversivos e o meu nome constava dessa lista





ABAIXO O MEDO!