sábado, 18 de abril de 2020

Geolocalização







Geolocalização Móvel Medos e Perigos

O medo atávico do contágio tentou desde tempos imemoriais identificar os doentes sobretudo nos tempos de epidemias. Assim foi na Idade Média, com a peste, em que os doentes eram obrigados a movimentarem-se com um sino amarrado ao tornozelo para avisar as outras pessoas.   Hoje, em pleno século XXI, com os meios de comunicação que chegam a milhares de pessoas, com imagens televisivas assustadoras de enterros em massa e de hospitais cheios de doentes em corredores e hospitais de campanha, como se de uma guerra mundial se tratasse e a agravar esta situação o desconhecimento científico do novo vírus e das suas formas de contágio leva a um pânico generalizado e compreensível.
Esta pandemia pôs na ordem do dia a questão ética se se deve denunciar as pessoas infectadas pelo COVID. Autarcas querem possuir esses dados referentes aos seus munícipes, chegando a dizer: "andam umas bombas relógio à solta que deviam estar em casa (…) portanto o estado de emergência devia ampliar as condições – só que as entidades são obtusas para entregar os dados individuais dos positivos (…) eu entrego os dados em envelope fechado à Polícia Municipal (…)”.
(Antena 1, 11.04.20).
Na Idade Média colocava-se um sino, hoje com a tecnologia avançada made in China coloca-se um chip.
A aplicação no telemóvel para identificar os infetados com o novo coronavirus começou na China e foi seguida pela Coreia do Sul e Singapura. Há anos que os informáticos chineses tinham à sua disposição  centenas de milhões de caras para treinar os seus computadores no reconhecimento facial, o que se tornou muito útil para resolver problemas diários como compras no supermercado, transportes, entrar nos prédios, pagar as contas nos restaurantes ou ainda retirar dinheiro do banco. Basta fazer um scanner no código de barras  e mostrar a sua cara na caixa. Aí, uma câmara inteligente reconhece-a e valida as suas compras. Daí a usar uma aplicação no telemóvel para identificar e seguir os COVID positivos  é uma brincadeira de crianças.
O medo está a levar países europeus (Itália e Espanha) a fazer contratos com start-ups chinesas e coreanas para identificarem e seguirem os seus concidadãos portadores do novo coronavírus, o que permite a qualquer um identificar se está próximo de um infetado, se existe alguém na sua rua ou no seu prédio com o vírus. O reverso da medalha consiste no saber se esta aplicação irá servir para vigiar os cidadãos a fim de criar uma sociedade de controle, verdadeiro Big Brother, que ultrapassa toda a imaginação de Aldous Huxley ou de George Orwell.
A memória é curta, mas todos este países assinaram em 1948 a Declaração Universal dos Direitos Humanos que diz no seu artigo 12, cito: "Ninguém sofrerá intromissões arbitrárias na sua vida privada, na sua família, no seu domicílio ou na sua correspondência, nem ataques à sua honra e reputação. Contra tais intromissões ou ataques toda a pessoa tem direito a protecção da lei".
Este conceito abre as portas a outros direitos online e offline, como o direito à não discriminação
A Liberdade é o bem mais precioso que os povos conquistaram e o nossa foi alcançada há 46 anos.
A História ensinou-nos que nada justifica a interrupção da Liberdade, seja para satisfazer a fome, combater a desigualdade ou, como agora, ter mais segurança
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Lisboa,17 de Abril de 2020
Jaime Teixeira Mendes
Cirurgião Pediatra

CRISE SANITÁRIA CRISE ECONOMICA



 CRISE SANITÁRIA CRISE ECONÓMICA




Retomo a escrita neste blogue um mês depois de ter sido declarada, pela OMS, a pandemia de um novo coronavirus altamente contagioso que se iniciou em Whuan, na China
Em Portugal como em quase toda a Europa para fazer fase a esta pandemia foi declarado um regime de excepção obrigando a um isolamento com distanciação social.
Portanto, estamos eu a Teresa e a Luísa confinados na nossa casa de Casais de Aroeira, situada a 7km de Santarém.
Existe um consenso quase mundial para se tomarem estas medidas de confinamento com consequências desastrosas para o pequeno comercio e sobretudo para milhares de trabalhadores que já sofrem a situação de desempregados.  Contrariando este consenso quase mundial e atacando as decisões da OMS estão os Presidentes dos Estados Unidos da América e do Brasil- Donald Trump e Jair Bolsonaro.

Vou postar aqui o comunicado que a Associação Médica pelo Direito à Saúde enviou para a imprensa.

COMUNICADO

A Associação de Médicos pelo Direito à Saúde (AMPDS) condena publicamente o Presidente dos Estados Unidos da América, Donald Trump, por suspender a contribuição do país à Organização Mundial da Saúde (OMS).
Ao mesmo tempo apoia a posição do secretário-geral das Nações Unidas, da União Europeia, da União Africana e de diversas nações entre as quais Portugal que consideram não ser o momento para fragilizar a organização.
No momento em que existem mais de dois milhões de casos confirmados no mundo e 133 mil mortes, em 193 países e territórios, Donald Trump acusa a China de “má gestão e ocultação da disseminação” da pandemia do COVID-19 e ordena “a suspensão, por um período entre 60 a 90 dias, do financiamento para a Organização Mundial da Saúde enquanto estiver a ser conduzido um estudo para examinar o papel da OMS na má gestão e ocultação da disseminação do novo coronavírus".
Neste momento os EUA são o país que regista o maior número de mortos por COVID-19, estimado em quase 26 mil mortes, dos mais de 600 mil casos confirmados, 2.200 das quais nas últimas 24 horas, apesar do presidente norte-americano ter minimizado desde o princípio as consequências da pandemia.
O director da revista médica The Lancet,  o médico britânico Richard Horton, classifica a decisão de Trump como  “um crime contra a humanidade” e “uma traição atroz contra a solidariedade global”.
Richard Horton afirma que “todos os cientistas, todos os trabalhadores da área da saúde, todos os cidadãos devem resistir e rebelar-se contra esta traição atroz contra a solidariedade global.”
Deste modo, a AMPDS junta-se a todos os que condena a atitude do presidente dos Estados Unidos que considera um crime humanitário.

O presidente da AMPDS
Jaime Teixeira Mendes

Lisboa, 16 de Abril de 2020

quinta-feira, 5 de março de 2020

QUARENTENA

Coronavirus


O termo quarentena foi utilizado a primeira vez em Veneza, no ano de 1127  durante uma epidemia de lepra. Nessa altura os leprosos eram obrigados a usar um sino preso ao artelho para alertar as pessoas da sua passagem.
Esta forma de isolamento foi em seguida largamente retomada no decorrer de outras epidemias como a peste negra e da cólera. Quem não se lembra do excelente filme de Visconti, baseado no livro de Thomas Mann, Morte em Veneza, em que os turistas estavam confinados à praia de Lido di Jesolo.
Mais recentemente em 2014 assistimos ao isolamento de aldeias inteiras em África durante a epidemia do Ebola.

Esta palavra hoje está associada ao vírus COVID-19 que colocou em quarentena em todo o planeta pessoas que estiveram em contacto com a infecção.

Este isolamento pode ser uma experiência negativa para aqueles que estarão sujeitos.
Assim, uma equipa de investigadores ingleses fizeram uma meta analise de trabalhos publicados (24 artigos) sobre o impacto psicológico da quarentena, em domicilio ou em estabelecimentos.

Estes trabalhos evidenciaram sinais de stress pós traumático e que podem atingir uma em cada 4 pessoas segundo alguns estudos.A depressão, o stress, a tristeza, irritabilidade, perturbações do sono, esgotamento emocional foram frequentemente relatados.

A gravidade está em que muitos destes sintomas foram constatados passados 3 anos após o isolamento. Estudos realizados com profissionais de saúde, depois de estarem em quarentena, mostraram condutas de evitar o contacto com doentes ou mesmo de permanência no local de trabalho.

Factores agravantes foram identificados, como a duração da quarentena: mais de 10 dias o risco é mais elevado. Outros factores podem estar associados ao medo das infecções, frustração e aborrecimento ligado ao confinamento, abastecimentos insuficientes ( alimentação, água, roupa,etc.) e uma informação desadaptada ( uma falta de clareza de os riscos corridos leva as pessoas a temer o pior). Alguns queixaram-se mesmo de um certo estigma de que foram alvo por parte da sua entourage mais próxima.

A duração possível destas perturbações justifica certas precauções.
 Para os autores, se a medida da quarentena é julgada necessária, a experiência deve ser o menos traumatizante possível.
E dão algumas sugestões: - Fixar a quarentena no período mais curto possível e explicar às pessoas implicadas a natureza dos riscos e as razões da medida de confinamento. As autoridades sanitárias devem assegurar-se que às pessoas isoladas no seu domicilio não lhes falta nada e sejam reabastecidas de alimentos o mais rapidamente possível em caso de necessidade. Conselhos para combater o aborrecimento podem ser necessários para certas pessoas, e assegurar os meios de melhorar as comunicações à distância. Para os autores reforçar a ideia que a quarentena e que o seu confinamento é benéfico para a saúde de outros pode favorecer o sentimento de altruísmo e melhorar a aceitação do isolamento
Por este e outros factos deve-se ponderar os prós e contras antes de decidir um confinamento em massa de uma comunidade.

Referência
  Brooks SK. e coll.: The psychological impact of quarantine and how to reduce it: rapid review of the evidence.Lancet 2020

quarta-feira, 24 de outubro de 2018

Mercado e Indústria Alimentar








Mercado e Indústria Alimentar

O coração tem razões que a própria razão desconhece
Blaise Pascal
Uma das características do mercado livre é o recurso ao marketing apoiado numa propaganda antiética em que para a venda de um produto vale tudo.
Durante toda a minha, já longa, carreira de médico tenho assistido às guerras na indústria farmacêutica a maioria das vezes não dignificantes para os respectivos laboratórios.
Mas, agora, esta minha reflexão é sobre a guerra comercial que se instalou na indústria alimentar, na maioria senão na totalidade dos casos de uma forma muito pouco ética.
Todos se aperceberam do ataque feroz dos produtores de soja* aos produtores de lacticínios, levando estes a seguirem o velho ditado popular: "Se não os podes vencer, junta-te a eles". Assim, nos escaparates dos supermercados já vemos "leites de soja" com a marca comercial dos verdadeiros leites.
Esta confusão instalada de leites vegetais e leites animais também pertence a uma manobra de marketing muito pouco ética, induzindo no consumidor que se trata verdadeiramente de um leite. Se ao invés rotulassem de sumos vegetais baixaria seguramente a sua venda.
Como já escrevi: "até prova em contrário só as fêmeas dos mamíferos dão leite".
Nos anos pós Segunda Guerra Mundial e aproveitando a promoção, sempre o marketing, de uma imagem da mulher com uma silhueta esbelta, magra e de seios pequenos, a indústria farmacêutica/alimentar propagandeou, influenciando o meio médico, os leites industriais que iriam substituir o leite materno, sem qualquer prejuízo para o bebé.
Para quê incomodar as mulheres - mães, se o leite produzido em laboratório era superior ao materno? Vamos manter as nossas mulheres esbeltas e poupá-las ao "trabalho" de amamentar os seus filhos.
Ainda vivi esta situação, com muitas mulheres a pedirem ou "exigirem" para secar o leite após o parto. Porém, a investigação laboratorial provando que nenhum laboratório conseguia produzir algo semelhante ao colostro e a observação clínica de muitos pediatras preocupados com a ausência de relação mãe/criança, essencial para o desenvolvimento psíquico da criança, começou a reverter o problema.
Até que nos anos sessenta realizou-se um congresso mundial de pediatria em que se chegou à conclusão que a melhor alimentação para a criança era o leite materno, facto que hoje ninguém contesta.
Também nos anos sessenta em muitos países em vias de desenvolvimento, entre eles Cuba, preocupados com o crescimento das suas crianças que saíam de uma situação de fome e má alimentação realizaram-se campanhas nas escolas de distribuição de leite.
Infelizmente em Portugal optou-se, muito mais tarde, pela distribuição de garrafas de leite achocolatado muito mais calórico que o leite simples.
Parafraseando Pascal direi que os mercados tem razões que a própria razão desconhece.
Hoje a guerra está instalada contra os produtores e os industriais de lacticínios. Os grandes produtores de soja tinham de escoar os seus produtos dos enormes latifúndios e por isso quando vamos aos supermercados encontramos "leites" de soja, coco, amendoim, arroz e cada um publicita as suas vantagens. O controlo dos suplementos alimentares na Europa não tem uma directiva comum, ficando a autorização e vigilância à responsabilidade de cada Estado membro, o que julgo ser negativo.
Claro que o lucro é o objectivo dos industriais e produtores destes produtos e infelizmente arranjam sempre argumentos pseudo científicos para convencerem os incautos.
Debrucemo-nos, agora, sobre a composição nutricional do leite de vaca.
Vejamos a composição e o valor nutritivo médio de 100 ml de leite meio-gordo pasteurizado, o mais utilizado pelas nossas famílias:
1.       Água: 90 ml, contribui para a hidratação do nosso organismo
2.       Cálcio: 117mg
3.       Glúcidos: 4,8 g
4.       Proteínas: 3,3g
5.       Lípidos: 1,5g,  o teor em matérias gordas varia com a desnatação: o leite gordo contêm 3,6g e apenas traços no leite magro.
As calorias são 46 Kcal, a contribuição energética do leite é pequena em face da sua riqueza em nutrientes.
O valor incontornável do leite é sem dúvida o Cálcio. Uma única caneca de leite é suficiente para 1/3 das necessidades diárias. Os outros compostos do leite (fósforo, proteínas e lactose) participam na assimilação do cálcio. O leite contém também: iodo, potássio, zinco e vitaminas B2 B12 e A. 
Devido ao seu alto teor de Cálcio há pelo menos três fases da vida humana em que se torna obrigatório consumir lacticínios (leite, iogurte, queijos): durante o crescimento, na gravidez e na terceira idade.
Para aqueles que afirmam serem intolerantes à lactose devem fazer o teste e em caso positivo já existem no mercado leites sem lactose.
   * O poderoso negócio mundial da soja e dos seus derivados envolve muitos biliões de dólares, sendo os Estados Unidos o maior produtor mundial.



terça-feira, 31 de julho de 2018

PERIGO AMÊNDOAS DE CAROÇOS DE ALPERCE 
Durante muitos anos pensou-se que com o avanço da medicina as superstições e as charlatanices desapareciam por si, sem haver necessidade de as combater. Porém, a evolução do ser humano e dos seus medos provou o contrário.
Inquéritos realizados em vários países europeus mostram que cada vez é maior o numero de pessoas que recorrem a este tipo de charlatães e abandonam as consultas da medicina convencional. 

Um dos motivos para esta procura, senão o principal, é a deterioração da relação médico doente sujeita à pressão de horários ridículos com o objectivo de aumentar a produtividade ( maior numero de consultas). A visão alopática da biomedicina, assim como a atitude da industria farmacêutica não estão também isentas de culpa. 

O recurso a estas terapêuticas, muitas vezes anunciadas na net, podem ser prejudiciais para a saúde e é nosso dever como médicos denunciá-las.  

Já há alguns anos, um "medicamento" milagroso apareceu as amêndoas do caroço do alperce, consideradas, por alguns como um alimento anti-cancerígeno. 
Os vendedores deste produto milagroso, propõem que se consumam, como prevenção do cancro, uma dose diária de 10 amêndoas e caso já tenha cancro,uma dose curativa de 60.

Quando as doses diárias a não ultrapassar são, três amêndoas no adulto e a meia amêndoa  na criança. Atenção:. estes produtos " naturais" encontram-se, também, à venda, com o nome de sementes de damasco ou "amêndoa amarga".

A agência francesa de segurança sanitária da alimentação, do ambiente e do trabalho ( Anses) lembra, num  comunicado, que não existe qualquer prova cientifica para sustentar esta tese e assinala, por outro lado, que numerosos casos de intoxicação aguda foram notificados estes últimos anos  aos centros anti-venenos.

O responsável  por estas intoxicações é uma substância, bem conhecida dos pasteleiros e dos escritores de romances policiais, a amigdalina, um glicosido cianogénico, que liberta o ácido cianídrico ( cianeto) altamente tóxico quando ingerido. 
A agência de segurança alimentar sublinha  « Em caso de intoxicação aguda, os órgãos mais sensíveis ao cianeto são o cérebro e o coração, a vítima apresenta muito rapidamente sinais neurológicos e cardíacos. Numa dose baixa, a intoxicação pode provocar sintomas como febre, cefaleias, náuseas, insónias, letargia, dores articulares e musculares, hipotensão. Em doses elevadas, a intoxicação manifesta-se por convulsões, problemas respiratórios, diminuição da frequência cardíaca, perda de conhecimento e coma."  

Alerta ao consumidor: Cuidado com os riscos de intoxicação graves, nomeadamente nos casos de consumo em alta dose como aconselham para a cura do cancro


Baseado um artigo publicado em http://www.jim.fr


quinta-feira, 7 de junho de 2018

IRLANDA

 Teresa a falar na Universidade de Cork
IRLANDA


Fui a Cork , segunda cidade mais populosa da república da Irlanda, no dia 26 de Abril de 2018, acompanhar a Teresa que ia falar na universidade local, importante centro educacional, para apresentar a experiência portuguesa no acolhimento aos refugiados.
Certamente porque esta é uma boa experiência.
Decorria então a campanha para a votação da despenalização do aborto e pudemos  assistir a várias manifestações prós e contra.
A velha Irlanda católica, com uma igreja considerada das mais retrógradas do mundo que ainda há pouco tempo viveu um confronto sangrento com os seus compatriotas protestantes do Norte, iria votar SIM pela despenalização do aborto, numa escrutínio popular muito concorrido, com 66,4% dos votos expressos.
Assim, a ilha fica dividida, a parte sul, república da Irlanda, de maioria católica, votou pela interrupção voluntária da gravidez, ao passo que a parte norte, pertencente à Grã Bretanha, apesar desta ter promulgado a lei  da despenalização do aborto, exclui dessa possibilidade
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Sobre o lema Her Body Her Choice os irlandeses entraram na via do progresso, não sem terem passado, como em muitos países, pelas mortes de algumas grávidas que chocaram a sociedade, nomeadamente a de uma jovem indiana.

Por isso, há quem proponha que a nova lei se passe a chamar " Lei Savita": nome de uma jovem de 31 anos que imigrou para a República da Irlanda para continuar a sua carreira de dentista. No verão de 2012, tudo parecia sorrir para esta jovem, estava grávida. Mas, ao 4ºmês de gestação, um aborto espontâneo interrompe abruptamente todas as suas esperanças.

Apesar da confirmação segura do insucesso da gravidez e da não viabilidade do feto, os médicos recusaram-se a proceder à evacuação uterina que teria podido impedir a sua morte por septicémia.
Foi a morte desta jovem que relançou, neste país, os debates sobre a lei que proibia absolutamente o aborto.

Efetivamente, a sociedade conservadora irlandesa tinha, em 1983, por referendo, introduzido a proibição da Intervenção Voluntária da Gravidez (IVG) na sua constituição. A morte de Savita lembrou a perigosidade e a inadaptação da legislação irlandesa.
Lá como cá uma nova geração de militantes surgiu combatendo as velhas causas defendidas por uma sociedade retrógrada. Foram os mesmos jovens que combateram a favor da adopção por casais homossexuais, a mesma que contribuiu à chegada ao poder do jovem primeiro ministro progressista Leo Varadkar.  Desde o inicio do seu mandato, Varadkar, apostou numa evolução da sociedade irlandesa, ele que nunca escondeu a sua homossexualidade, mas mostrava-se reservado sobre a questão do aborto porque temia que ela levasse a uma cissão no seio da sociedade da república.
Mas quando em 25 de Maio a Irlanda vota a favor da revogação da oitava emenda constitucional que impedia qualquer lei liberalizante do aborto, Leo Varadkar disse : " Nós não somos um país dividido" 1,4milhões de pessoas votaram pela supressão da emenda (ao passo que 840.000 tinham contribuído para a sua adoção há 35 anos) não houve diferença entre as cidades e o campo nem entre mulheres e homens, estes últimos votaram maioritariamente "sim".
Leo Varadkar num discurso arrebatado citou a poetisa norte americana Maya Angelou na sua obra célebre Phenomenal Woman : " Os sofrimentos sofridos durante decénios pelas mulheres irlandesas não podem ser apagados, mas hoje, nós assegurámos  que eles não poderão repetir-se"
O governo está determinado a andar depressa e publicar uma lei, até ao fim do ano, que permitirá a IVG até às 12 semanas sem condições e até às 24 semanas em caso de perigo grave para a mãe ou para a criança.

Assim a ilha fica dividida se uma parte importante da população está favorável a uma mudança da lei, uma parte da classe política é contra (ao contrário da Irlanda do Sul)
Um responsável da Amnistia Internacional afirmou num comunicado publicado a seguir à votação no Sul: " Nós não podemos ser considerados como cidadãos de segunda e ser deixados num canto do Reino Unido e da Ilha".

A bola está do lado de Teresa May, mas a sua maioria instável depende do apoio de seis deputados conservadores irlandeses do Democratic Unionist Party, e …  politique oblige.
Esperemos que esta vitória eleitoral na República da Irlanda dê um novo alento aos militantes pró aborto do Norte.



sexta-feira, 1 de junho de 2018





Um desconhecido em Maio de 68

Este é um dos grafitis mais citados no cinquentenário da revolta de Maio de 68, em França. A frase, Sous les pavés, la plage, é referida como de autor desconhecido, em inúmeros sites referentes à revolta iniciada em Paris.
Ao ler o jornal digital jim.fr, como habitualmente, verifiquei que tal não era o caso, e luz era feita num artigo muito interessante de Aurélie Haroche. Daí ter sido logo minha intenção compartilhar convosco as descobertas feitas neste texto.
A autora inicia o artigo com uma reflexão sobre as celebrações do cinquentenário de Maio de 1968, dizendo: "em França foram muito tímidas".
Talvez porque a revolta de Maio, pela sua irreverência, não se possa fechar numa data evocativa ou porque aqueles que estão no cume da pirâmide, não estejam à vontade com a apologia de greves e revoluções.
Entre nós, também, os momentos de contestação e de rebeldia estudantis, greves de 62 e 69, ficam-se por comemorações tímidas na esperança de serem esquecidas nas brumas da memória. E este ano foi um bom exemplo disso. Até fomos comemorar a greve de 1962 à Casa do Alentejo, quando a tradição era na Cantina "Velha" da Universidade.
Lá como cá, a grande maioria dos jovens não ficou indiferente à revolta e às manifestações contra um regime retrógrado e opressor e muitos dos atores destes movimentos estão hoje longe do que eram, em outros ciclos, defendendo outros ideais.
Lá como cá, estas celebrações e convívios fazem-nos conhecer os verdadeiros protagonistas de certos acontecimentos.
E no jim.fr, a revelação da verdadeira identidade do autor do slogan " Sous les pavés, la plage" aconteceu. Chamava-se Bernard Cousin.
Infelizmente, o criativo morreu, a 13 de Abril, em Montrésor, antes das festividades, ou as suas promessas, tivessem começado.
Bernard Cousin não era um nome conhecido entre os dirigentes de Maio de 68, nem um militante político, definia-se como "le bourgeois catholique" quando falava da sua juventude.
Estudante de medicina e jovem publicitário, trabalhava com Bernard Fritsch, fundador d'Internote Service, que usava o nome de Killian. "Era um nome celta que tinha escolhido, pró-situacionista, parisiense e eu fiquei com o meu nome Bernard dado pelos meus pais em 1943, católico, burguês e provinciano. Foi uma das magias de 68, ter proporcionado que gentes tão diferentes pudessem encontrar-se e falar”, declarou, há dez anos, ao jornal Libération.
Em fins de Maio, os dois amigos pensam num slogan que resuma o estado de efervescência da juventude e da sociedade, naquele momento.
O futuro Dr. Cousin propõe " Il y a des herbes sous les pavés", mas Killian não gosta. A dimensão naturista da erva não o convence e teme que se possa assimilar muito rapidamente ao haschich.
Então, continuam a pensar nas dezenas de pedras da calçada levantadas, e a água deitada nos passeios para afogar as granadas dos CRS (polícia de choque) e a imagem da areia aparece. Esta imagem faz-lhes lembrar o paraíso, os sonhos de criança. Bernard vai escrevê-la em vermelho, no dia seguinte, com a indispensável vírgula à qual o futuro médico fazia questão. Inspirava-lhe, dizia ele, um certo swing, "Sous les pavés, la plage".
O slogan será grafitado milhares de vezes nos muros de Paris, com a boa caligrafia de Killian. Bernard guardou um bilhete com a frase nos seus arquivos e mostrou aos seus filhos, enquanto outros, como Jean-Edern Hallier, tentaram arrogar-se a paternidade da frase e outros ainda a ridicularizaram, sugerindo que ela significava que depois da revolta, os estudantes iam para a praia. 
Para Bernard, a interpretação deste slogan é mais profunda: "A pedra da calçada representa as nossas construções, as estradas, o plano de circulação e o que se edifica à volta, se se arranca é porque não compreendemos a sua instalação, a sua utilidade, o planeamento, talvez este seja incompreensível, eu não julgo,  eu constato. A praia é muito mais antiga, está debaixo e está antes da rua. É bem possível que antes de subir sobre a duna para explorar o vasto mundo tenhamos vivido alguns milhões de anos como mamíferos anfíbios. A felicidade completa da criança chapinhando à beira mar, a nossa evocação na tarde em que criámos este grafiti, pode ter sido o nosso paraíso perdido, isso explicaria muitas coisas do corpo humano e do seu comportamento", escrevia no Libération.
Bernard Cousin, depois das pedras da calçada, não foi à praia, mas teve numerosas experiências: enfermeiro no l'Hôtel Dieu, fotógrafo de casamentos, empregado e finalmente médico em Montrésor. O que não o impediu de prosseguir as suas paixões políticas (foi primeiro adjunto do Presidente da Câmara, entre 1983 e 1995, encarregado dos assuntos ligados ao ordenamento do território) e artísticas (expôs regularmente as suas fotos e desenhos). Amava igualmente passeios de moto, numa sensação de liberdade.
A  pequena comunidade de Montrésor não o recorda como um agitador de Maio de 68, mas como o clínico geral, um verdadeiro "médecin de campagne" , dizem os seus filhos.
Além da sua devoção aos doentes interessa-se pela inovação, inscreve nos Estados Unidos a patente de um novo esfigmomanómetro e interessa-se pela despistagem precoce da diabete. Era a sua personalidade inquieta.
Fundou, a seguir a Maio de 1968, um clube cuja especificidade era de dispor de uma oficina de mecânica, projeto em que tentou integrar Killian. Mas desesperado pelo fim da "revolução", o jovem suicidou-se atirando-se para a linha numa estação de metro.
Se a desilusão foi forte para alguns sonhadores, os acontecimentos de Maio de 68 não foram sem consequências. Em medicina, nomeadamente, em que os estudantes se mobilizaram em força depois de algumas hesitações, a revolta contribuiu para o fim do mandarinato (le grand patron) e a tomada de consciência dos limites de certos professores. Mas é igualmente em medicina que se observa as mais fortes bolsas de "resistência" devido ao " contra revolucionarismo".