quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Morrer e Renascer em Guernica

Foto da parede do meu escritório

MORRER E RENASCER EM GUERNICA

«Decidi acabar rapidamente com a guerra no Norte: os que entregarem as armas terão a vida salva e os seus bens serão salvaguardados. Mas, se a submissão não for imediata, arrasarei toda a Biscaia»
   General Mola




No verão de 1967, estava a Teresa gravidíssima do nosso filho mais velho Carlos Miguel, visitei Praga integrado numa delegação de estudantes portugueses a viver no estrangeiro.

A reunião ia realizar-se em Varsóvia sob os auspícios da União Internacional de Estudantes. Na capital da Polónia reencontraram-se estudantes portugueses no exílio vindos de muitos países: França, Bélgica, Suíça, Itália, Alemanha, Checoslováquia, Hungria, Jugoslávia, Roménia, Polónia, URSS.

Em Praga, além das lembranças obrigatórias para a futura mãe e o bebé que ia nascer, comprei uma cópia da Guernica que ainda hoje, passados 50 anos, se exibe numa parede de minha casa.

Faz 90 anos que Pablo Picasso mostrou esta gigantesca obra de arte na Exposição Universal de Paris (25/5 a 25/11 de 1937).

Meses antes, precisamente na segunda-feira, 26 de Abril de 1937, dia de mercado, a população desta pequena vila basca, com cerca de sete mil habitantes, estava na rua aproveitando os primeiros raios de sol que anunciavam o início da primavera. Em seguida, às cinco da tarde os sinos tocam a rebate e cinco minutos depois….
a legião Condor, elite da Luftwaffe, menina dos olhos de Goering, experimenta um novo método, chamado "tapete de bombas", os aviões eram "Heinkel 111" e "Junker 52".

O bombardeamento durou três horas. As vagas sucediam-se com precisão de vinte em vinte minutos. Todo o centro desta cidade santa* chamada Guernica foi destruído. Mil seiscentos e cinquenta e quatro mortos, oitocentos e nove feridos.

O general alemão Galland, comandante da esquadrilha alemã, dirá mais tarde: «Guernica não era um objectivo militar, foi um lamentável erro». Hoje diria um dano colateral.

A Europa assiste, de balcão em Hendaye, à destruição da República Espanhola, perante a passividade da França, Inglaterra e dos Estados Unidos, apenas a União Soviética trabalha para a derrota do fascismo.
A política de não-intervenção permitiu a vitória do fascismo em Espanha e o reforço belicista da Alemanha e da Itália.

Perante este horror, Pablo Picasso, a viver em Paris, aceita o pedido do governo espanhol de participar na Exposição  Universal de Paris. A decisão estava tomada: seria Guernica. O quadro fará depois a volta por todos os museus do mundo a fim de financiar os republicanos espanhóis. Foi seu desejo que o quadro só seria exposto em Espanha depois do regresso da Democracia. E assim foi.

A força desta obra de um génio da pintura fez com que a guerra não tenha sido esquecida nem a besta nazi-fascista.

Fez com que a verdade tenha vencido mesmo em Espanha e  no Portugal fascistas que intoxicavam o povo com a mentira de que Guernica tinha sido incendiada pelos combatentes bascos e os vermelhos.

Esta campanha durou até aos anos 70, do seculo XX.

Só em 1975, a Alemanha reconhece oficialmente que Guernica tinha sido bombardeada pela aviação alemã. Em 27 de Março de 1997, o então Presidente da República Federal Alemã, Herzog, convidado pelo centro "Gernika Gogoratuz", entrega uma declaração formal assumindo aquele passado.

Símbolo do massacre de populações civis, Guernica não deve ser esquecida. Infelizmente a memória dos homens é curta e estes massacres repercutiram-se no Vietnam e perduram noutros conflitos, como atualmente no Médio Oriente. 

*Cidade santa. Ao longo dos séculos, os reis de Espanha vinham, uma vez por ano, diante do velho carvalho de Guernica (haritz em basco), prestar juramento de respeitar as liberdades dos bascos. Sob o carvalho de Guernica-a-Santa, os anciãos vinham fazer justiça.

Fontes: Marianne, Expresso, Morrer em Madrid

A saúde e o mercado


A saúde e o mercado

Nunca houve tanta preocupação, nem tanta informação, com os alimentos que ingerimos como neste século, mas espantosamente a epidemia da obesidade aumenta em todo o mundo dito desenvolvido.
Claro que as grandes empresas capitalistas aproveitam-se desta justa preocupação para vender os seus produtos, denegrir outros numa concorrência desleal.
Multiplicam-se as dietas "saudáveis " : Sem sal, sem gordura, sem açúcar, sem leite, sem alcool, sem chocolate".
 Vegetarianas com peixe ou sem peixe, com ovos ou sem ovos.
Pululam artigos científicos e pseudo-cientificos, a maioria das vezes a negar aquilo que julgávamos certo. "O chocolate faz bem se for negro, o café combate o Alzheimer, a gordura é necessária, um copo de bom vinho aquece o coração, a água deve ser alcalina, etc..etc..
 Publicitam-se na TV remédios milagrosos para emagrecer e os pobres dos obesos continuam cada vez mais obesos.
Isto vem a propósito de um possível incidente diplomático entre a Itália e a Inglaterra a propósito do prosecco.
Passo a publicidade, mas até há um mês não sabia o que era esta bebida italiana produzida em Veneza. Foi na festa do primeiro aniversário do Matteo que o seu pai ofereceu gentilmente a todos os convidados, adultos bem entendido, uma pequena garrafa de prosecco.
Se na pátria lusa esta bebida não é conhecida já não se passa o mesmo do outro lado do canal da mancha. Parece que um terço da produção de tal néctar é consumido por este povo. Um aviso foi dado pelos responsáveis britânicos pela saúde dentária dos seus compatriotas.
Médicos dentistas socorreram-se da imprensa generalista para alertar que esta bebida tão apreciada pelos súbditos de sua majestade  tinha o risco sério devido à sua acidez, gaseificação  e o seu teor elevado em açúcar na presença do álcool formarem um cocktail nocivo para os dentes. Claro que os jornais apelidaram os consumidores da bebida de um "prosecco smile" pouco sedutor.
A Itália não gostou que lhe estragassem o negócio do espumante veneziano. Responsáveis políticos convidaram a imprensa inglesa a abster-se de tais comentários. Luca Zaia, presidente da região de Veneza, troçou : " A ideia segundo a qual o prosecco tira o sorriso faz me rir"
Os dentistas britânicos ficaram em maus lençóis pois ignoraram a preocupação manifestada há um ano por Boris Johnson antes da votação do Brexit que a Itália não poderia recusar abrir o mercado à Inglaterra com medo de não poder vender o seu prosecco.
Os dentistas sem arrepiarem caminho vieram dizer que era apenas um aviso para o perigo do excesso dessa bebida assim como a soda e outras bebidas gasosas.   


domingo, 6 de agosto de 2017

Pais poderão acompanhar os filhos no Bloco Operatório


Pais poderão acompanhar os filhos no Bloco Operatório
…Mas as crianças, Senhor, porque lhes dás tanta dor?! …
Augusto Gil. Balada da Neve

Despacho n.º 6668/2017, publicado no DR nº 148/2017, serie II de 2017-08-02, ao permitir aos pais acompanharem  os filhos, na indução anestésica e durante o recobro,  veio legalizar aquilo que já se praticava há muitos anos nos serviços de cirurgia pediátrica em Portugal, como na maioria dos países desenvolvidos.
Quando iniciei a minha carreira cirúrgica, nos anos setenta, a entrada das crianças no bloco operatório e mesmo nas salas de tratamento era um verdadeiro drama. Arrancavam-se as crianças ao colo das mães eram anestesiadas aos gritos em choro convulsivo e todas elas acordavam também aos gritos.
Apesar de já existirem nos hospitais comissões de humanização que nada opinavam, eram quase sempre constituídas por médicos e enfermeiras de adultos.
Os direitos da criança hospitalizada e dos pais foi uma conquista alcançada como quase  todas com oposição de grande parte da classe médica e de enfermagem.
Estou a falar dos anos logo a seguir ao 25 de Abril de 1974.
Lembro-me da resistência que houve da parte de enfermeiras chefes em permitirem aos pais da criança doente permanecerem durante a noite nas enfermarias. Foi uma luta que os Pediatras juntamente com os pais das crianças ganharam*
Contudo, conseguir o acompanhamento dos pais até ao bloco operatório foi mais longo e difícil.
Deve-se aos cirurgiões e anestesistas pediatras, os pais poderem ir até ao momento da indução anestésica e ficarem depois no recobro quando a criança acorda.
Foi assim em todos os estabelecimentos de saúde onde trabalhei, depois dos mais velhos se terem aposentado ou convencido.
Foi prática no Hospital de Santa Maria, no IPOFGL e no Hospital Inglês.  Nunca houve nenhuma infecção hospitalar  e o mau comportamento dos pais foi excepção. Aqui tenho de fazer justiça às enfermeir@s que rapidamente aderiram ao novo procedimento tendo sido uma ajuda preciosa.
Segundo as últimas noticias que vi na comunicação social, hoje este procedimento  é norma em todos os serviços de cirurgia pediátrica do país e julgo saber também nos serviços de Otorrinolaringologia.
É evidente, que compete às direcções de serviços arranjarem condições para esclarecerem os pais e as crianças através de sessões explicativas de preferência na véspera seguidas de visita à enfermaria e ao bloco. Aliás, vem expresso no preambulo do despacho:

a)- A formação do pai ou da mãe ou de pessoa que os substitua, através de consultas pré-operatórias a realizar por parte da equipa de saúde, que podem incluir visitas pré-operatórias e vídeos informativos, no caso das intervenções cirúrgicas programadas;

b) A existência de local próprio onde o pai ou a mãe ou pessoa que o substitua possa trocar de roupa e depositar os seus pertences;
c) A prestação adequada de formação sobre o cumprimento de todas as regras relativas ao equipamento de proteção individual e de higiene inerentes à presença em bloco operatório e unidade de recobro;
d) A definição de um circuito em que o pai ou a mãe ou pessoa que o substitua possa movimentar-se, sem colocar em causa a privacidade de outras crianças ou jovens e seus familiares, nem o funcionamento normal do serviço.

Curiosamente foi devido as estes pressupostos que no Hospital de Santa Maria, a Cirurgia Pediátrica, conseguiu não ficar com salas operatórias nas obras realizadas do novo bloco cirúrgico ambulatório, exatamente por não terem sido previstas as determinações citadas  nas alíneas  b e c
Esperemos que no novo hospital a construir em Chelas/ Marvila se cumpra na integra o estipulado na carta do direito da criança hospitalizada**
Há cerca de 20 anos que se iniciou este caminho, por isso espanta-me a atitude de certos médicos, não querendo acreditar que seja a do colégio de anestesiologia da Ordem dos Médicos, que estão contra este despacho.
São estas atitudes que vão de encontra a chalaça que os hospitais são um sítio agradável mas sem os doentes.

* Os médicos norte americanos e europeus vieram do Vietnam impressionados positivamente pela atitude das vietnamitas a não se deixarem separar dos filhos doentes e do seu comportamento nas enfermarias que auxiliavam em muito as poucas enfermeiras existentes. Os exemplos vem de onde menos se espera.

** Carta aprovada por várias associações em 1988, em Leiden.

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

segunda-feira, 31 de julho de 2017

4ª e última parte



A Despedida de Jerónimo



Jerónimo era uma figura querida e conhecida em Ouchy, atrevo-me mesmo a dizer em toda a cidade. Tinha conquistado o coração de toda a comuna de Ouchy, desde os empregados e donos dos inúmeros restaurantes como da própria polícia que, como referi no capítulo anterior, exibia por detrás do balcão um enorme falo representante da nossa louça popular das Caldas.
Um dia aziago, estava eu a estagiar no Hospital Cantonal, no serviço de neurocirurgia do Professor Eric Zander ( 1918-1982), quando entrou o nosso amigo com o diagnóstico de tumor cerebral.
O Professor Zander começava a sua visita à enfermaria às 7 horas, não tivesse ele o posto de tenente coronel do exército suíço. Os seus assistentes chamavam à visita o içar da bandeira.
Para quem não sabe, abro aqui um parêntesis: os suíços cumprem o serviço militar obrigatório  até aos 45 anos, normalmente durante 3 semanas ou mais conforme o tirocínio para  oficiais.
Quase todos os meus professores eram de altas patentes, nunca abaixo de coronel.
Imaginem o meu espanto quando numa sexta-feira vi muitos colegas meus fardados e a guardar as espingardas metralhadoras nos respetivos cacifos.

Mas voltemos ao Jerónimo, foi-lhe diagnosticado um tumor cerebral, ainda na época pré TAC,
localizava-se no lobo frontal  e para os médicos suíços, com o seu pragmatismo, a personalidade desinibida do meu amigo era já um sintoma da sua doença. Nunca acreditei nesta causa-efeito.

A sua alegria de viver e o seu caracter desinibido em nada tinham a ver com a presença de um tumor. O Jerónimo era assim.
Uma vez, mostrou-me um verdadeiro dicionário fonético francês- português que ele ia escrevendo conforme ouvia uma nova palavra. Era uma maravilha e ainda hoje arrependo-me de não ter ficado com uma fotocópia.

Após ser operado e extraído o tumor convidou toda a equipa da neurocirurgia para uma almoçarada em Ouchy. Quando chegámos ao lago e nos aproximámos do seu lugar de aluguer de barcos um cheiro muito meu conhecido, mas desconhecido para os suíços, exalava a quilómetros de distância. O Jerónimo tinha presenteado os suíços com umas ótimas sardinhas assadas.

Durante o almoço, várias foram as excursões de nativos curiosos com aquele odor de um novo perfume que inundava o passeio à beira lago.



Ainda viveu o 25 de Abril de 1974, mas com o meu regresso a Portugal nunca mais vi o Jerónimo. Anos mais tarde fui a Lausana e já não existiam os barcos de recreio Mendes-Rouge e, provavelmente, o das Caldas estará guardado na casa do chefe da polícia aposentado.
Ficam as memórias desse tempo….





















RACE DE CHAUVINS


Ontem fiz uma saída pelo centro da cidade e foi impressionante o número de turistas franceses que encontrei. Parece que no Porto e no Algarve sucede o mesmo.

Assistimos à 4ª invasão, depois das três incursões das tropas napoleónicas, mas em vez dos jovens soldados e oficiais que por cá ficaram e certamente uniram-se em matrimónio a muitas portuguesas,* hoje somos invadidos por sexagenários e neo-precários.

Estas considerações vêm a propósito de um longo artigo publicado na revista Marianne**.
Depois de muitas apreciações sobre o nosso país e características do nosso povo, sob o sub-título "Le Portugais est beau", a revista escreve, com espanto e admiração, que as portuguesas estão mais bonitas.
Não sei o que se passou? Será da alimentação ou da descoberta do depilador elétrico?, diz a jornalista e continua, até já têm uma top model, a Sara Sampaio.
Este é o perigo das generalizações e dos preconceitos. A imagem das portuguesas para os franceses, é das emigrantes dos anos sessenta com estatura mediana baixa, peitos grandes, ancas largas e bigode. Race de Chauvin!!

Claro que perante estas considerações, apetece-me também generalizar e concluir que os franceses não se lavam, por isso desenvolveram a indústria dos perfumes. Nos idos anos sessenta, mais de 60% das habitações em Paris não tinham casa de banho e muitos dos portugueses exilados, oriundos de famílias da burguesia, frequentavam os banhos públicos.

Quem escreve este artigo desconhece, certamente, a beleza das portuguesas descritas por Oscar Wilde que afirmava nunca ter visto olhos tão grandes e húmidos, contrastando, com o olhar baço das britânicas. Nem sequer do nosso Eça quando comenta que a francesa mais bonita de Paris era oriunda de Marco de Canavezes e a paixão de Mariana Alcoforado e do oficial francês Noel Bouton de Chamilly, conde de Saint Léger. ***

Ou também o que escreveu Augusto Walhelen, numa obra acerca dos usos e costumes dos povos: "a bela carnação das portuguesas, os seus grandes olhos negros, os seus dentes brancos e bem alinhados, os seus longos cabelos de ébano e a sua amável vivacidade colocá-las-iam na linha das europeias mais sedutoras, se à graça das francesas unissem a pequenez do pé espanhol”.

O Grande Dicionário Universal do Século XIX, que começou a publicar-se em França em 1866, coloca as mulheres de Guimarães como as mais belas de Portugal: "A cidade de Guimarães está povoada de encantadoras portuguesas, notáveis pela beleza do colo e pela energia das suas paixões amorosas”. E acrescenta: "As inglesas e quase todas as alemãs são frias ou indiferentes ao amor; as portuguesas, as italianas e as espanholas são mais susceptíveis de o sentir que as francesas”.****


*Dizem dever-se ao cruzamento com os franceses a pronúncia dos setubalenses carregando nos rr
** Portugal, la belle vie low cost. (nº 1061, pgs 74,75,76,77)

*** Cartas de amor de uma freira portuguesa
****http://umaszona.blogspot.pt/2007/02/as-portuguesas-vistas-por-estrangeiros.html