quinta-feira, 7 de junho de 2018

IRLANDA

 Teresa a falar na Universidade de Cork
IRLANDA


Fui a Cork , segunda cidade mais populosa da república da Irlanda, no dia 26 de Abril de 2018, acompanhar a Teresa que ia falar na universidade local, importante centro educacional, para apresentar a experiência portuguesa no acolhimento aos refugiados.
Certamente porque esta é uma boa experiência.
Decorria então a campanha para a votação da despenalização do aborto e pudemos  assistir a várias manifestações prós e contra.
A velha Irlanda católica, com uma igreja considerada das mais retrógradas do mundo que ainda há pouco tempo viveu um confronto sangrento com os seus compatriotas protestantes do Norte, iria votar SIM pela despenalização do aborto, numa escrutínio popular muito concorrido, com 66,4% dos votos expressos.
Assim, a ilha fica dividida, a parte sul, república da Irlanda, de maioria católica, votou pela interrupção voluntária da gravidez, ao passo que a parte norte, pertencente à Grã Bretanha, apesar desta ter promulgado a lei  da despenalização do aborto, exclui dessa possibilidade
.
Sobre o lema Her Body Her Choice os irlandeses entraram na via do progresso, não sem terem passado, como em muitos países, pelas mortes de algumas grávidas que chocaram a sociedade, nomeadamente a de uma jovem indiana.

Por isso, há quem proponha que a nova lei se passe a chamar " Lei Savita": nome de uma jovem de 31 anos que imigrou para a República da Irlanda para continuar a sua carreira de dentista. No verão de 2012, tudo parecia sorrir para esta jovem, estava grávida. Mas, ao 4ºmês de gestação, um aborto espontâneo interrompe abruptamente todas as suas esperanças.

Apesar da confirmação segura do insucesso da gravidez e da não viabilidade do feto, os médicos recusaram-se a proceder à evacuação uterina que teria podido impedir a sua morte por septicémia.
Foi a morte desta jovem que relançou, neste país, os debates sobre a lei que proibia absolutamente o aborto.

Efetivamente, a sociedade conservadora irlandesa tinha, em 1983, por referendo, introduzido a proibição da Intervenção Voluntária da Gravidez (IVG) na sua constituição. A morte de Savita lembrou a perigosidade e a inadaptação da legislação irlandesa.
Lá como cá uma nova geração de militantes surgiu combatendo as velhas causas defendidas por uma sociedade retrógrada. Foram os mesmos jovens que combateram a favor da adopção por casais homossexuais, a mesma que contribuiu à chegada ao poder do jovem primeiro ministro progressista Leo Varadkar.  Desde o inicio do seu mandato, Varadkar, apostou numa evolução da sociedade irlandesa, ele que nunca escondeu a sua homossexualidade, mas mostrava-se reservado sobre a questão do aborto porque temia que ela levasse a uma cissão no seio da sociedade da república.
Mas quando em 25 de Maio a Irlanda vota a favor da revogação da oitava emenda constitucional que impedia qualquer lei liberalizante do aborto, Leo Varadkar disse : " Nós não somos um país dividido" 1,4milhões de pessoas votaram pela supressão da emenda (ao passo que 840.000 tinham contribuído para a sua adoção há 35 anos) não houve diferença entre as cidades e o campo nem entre mulheres e homens, estes últimos votaram maioritariamente "sim".
Leo Varadkar num discurso arrebatado citou a poetisa norte americana Maya Angelou na sua obra célebre Phenomenal Woman : " Os sofrimentos sofridos durante decénios pelas mulheres irlandesas não podem ser apagados, mas hoje, nós assegurámos  que eles não poderão repetir-se"
O governo está determinado a andar depressa e publicar uma lei, até ao fim do ano, que permitirá a IVG até às 12 semanas sem condições e até às 24 semanas em caso de perigo grave para a mãe ou para a criança.

Assim a ilha fica dividida se uma parte importante da população está favorável a uma mudança da lei, uma parte da classe política é contra (ao contrário da Irlanda do Sul)
Um responsável da Amnistia Internacional afirmou num comunicado publicado a seguir à votação no Sul: " Nós não podemos ser considerados como cidadãos de segunda e ser deixados num canto do Reino Unido e da Ilha".

A bola está do lado de Teresa May, mas a sua maioria instável depende do apoio de seis deputados conservadores irlandeses do Democratic Unionist Party, e …  politique oblige.
Esperemos que esta vitória eleitoral na República da Irlanda dê um novo alento aos militantes pró aborto do Norte.



sexta-feira, 1 de junho de 2018





Um desconhecido em Maio de 68

Este é um dos grafitis mais citados no cinquentenário da revolta de Maio de 68, em França. A frase, Sous les pavés, la plage, é referida como de autor desconhecido, em inúmeros sites referentes à revolta iniciada em Paris.
Ao ler o jornal digital jim.fr, como habitualmente, verifiquei que tal não era o caso, e luz era feita num artigo muito interessante de Aurélie Haroche. Daí ter sido logo minha intenção compartilhar convosco as descobertas feitas neste texto.
A autora inicia o artigo com uma reflexão sobre as celebrações do cinquentenário de Maio de 1968, dizendo: "em França foram muito tímidas".
Talvez porque a revolta de Maio, pela sua irreverência, não se possa fechar numa data evocativa ou porque aqueles que estão no cume da pirâmide, não estejam à vontade com a apologia de greves e revoluções.
Entre nós, também, os momentos de contestação e de rebeldia estudantis, greves de 62 e 69, ficam-se por comemorações tímidas na esperança de serem esquecidas nas brumas da memória. E este ano foi um bom exemplo disso. Até fomos comemorar a greve de 1962 à Casa do Alentejo, quando a tradição era na Cantina "Velha" da Universidade.
Lá como cá, a grande maioria dos jovens não ficou indiferente à revolta e às manifestações contra um regime retrógrado e opressor e muitos dos atores destes movimentos estão hoje longe do que eram, em outros ciclos, defendendo outros ideais.
Lá como cá, estas celebrações e convívios fazem-nos conhecer os verdadeiros protagonistas de certos acontecimentos.
E no jim.fr, a revelação da verdadeira identidade do autor do slogan " Sous les pavés, la plage" aconteceu. Chamava-se Bernard Cousin.
Infelizmente, o criativo morreu, a 13 de Abril, em Montrésor, antes das festividades, ou as suas promessas, tivessem começado.
Bernard Cousin não era um nome conhecido entre os dirigentes de Maio de 68, nem um militante político, definia-se como "le bourgeois catholique" quando falava da sua juventude.
Estudante de medicina e jovem publicitário, trabalhava com Bernard Fritsch, fundador d'Internote Service, que usava o nome de Killian. "Era um nome celta que tinha escolhido, pró-situacionista, parisiense e eu fiquei com o meu nome Bernard dado pelos meus pais em 1943, católico, burguês e provinciano. Foi uma das magias de 68, ter proporcionado que gentes tão diferentes pudessem encontrar-se e falar”, declarou, há dez anos, ao jornal Libération.
Em fins de Maio, os dois amigos pensam num slogan que resuma o estado de efervescência da juventude e da sociedade, naquele momento.
O futuro Dr. Cousin propõe " Il y a des herbes sous les pavés", mas Killian não gosta. A dimensão naturista da erva não o convence e teme que se possa assimilar muito rapidamente ao haschich.
Então, continuam a pensar nas dezenas de pedras da calçada levantadas, e a água deitada nos passeios para afogar as granadas dos CRS (polícia de choque) e a imagem da areia aparece. Esta imagem faz-lhes lembrar o paraíso, os sonhos de criança. Bernard vai escrevê-la em vermelho, no dia seguinte, com a indispensável vírgula à qual o futuro médico fazia questão. Inspirava-lhe, dizia ele, um certo swing, "Sous les pavés, la plage".
O slogan será grafitado milhares de vezes nos muros de Paris, com a boa caligrafia de Killian. Bernard guardou um bilhete com a frase nos seus arquivos e mostrou aos seus filhos, enquanto outros, como Jean-Edern Hallier, tentaram arrogar-se a paternidade da frase e outros ainda a ridicularizaram, sugerindo que ela significava que depois da revolta, os estudantes iam para a praia. 
Para Bernard, a interpretação deste slogan é mais profunda: "A pedra da calçada representa as nossas construções, as estradas, o plano de circulação e o que se edifica à volta, se se arranca é porque não compreendemos a sua instalação, a sua utilidade, o planeamento, talvez este seja incompreensível, eu não julgo,  eu constato. A praia é muito mais antiga, está debaixo e está antes da rua. É bem possível que antes de subir sobre a duna para explorar o vasto mundo tenhamos vivido alguns milhões de anos como mamíferos anfíbios. A felicidade completa da criança chapinhando à beira mar, a nossa evocação na tarde em que criámos este grafiti, pode ter sido o nosso paraíso perdido, isso explicaria muitas coisas do corpo humano e do seu comportamento", escrevia no Libération.
Bernard Cousin, depois das pedras da calçada, não foi à praia, mas teve numerosas experiências: enfermeiro no l'Hôtel Dieu, fotógrafo de casamentos, empregado e finalmente médico em Montrésor. O que não o impediu de prosseguir as suas paixões políticas (foi primeiro adjunto do Presidente da Câmara, entre 1983 e 1995, encarregado dos assuntos ligados ao ordenamento do território) e artísticas (expôs regularmente as suas fotos e desenhos). Amava igualmente passeios de moto, numa sensação de liberdade.
A  pequena comunidade de Montrésor não o recorda como um agitador de Maio de 68, mas como o clínico geral, um verdadeiro "médecin de campagne" , dizem os seus filhos.
Além da sua devoção aos doentes interessa-se pela inovação, inscreve nos Estados Unidos a patente de um novo esfigmomanómetro e interessa-se pela despistagem precoce da diabete. Era a sua personalidade inquieta.
Fundou, a seguir a Maio de 1968, um clube cuja especificidade era de dispor de uma oficina de mecânica, projeto em que tentou integrar Killian. Mas desesperado pelo fim da "revolução", o jovem suicidou-se atirando-se para a linha numa estação de metro.
Se a desilusão foi forte para alguns sonhadores, os acontecimentos de Maio de 68 não foram sem consequências. Em medicina, nomeadamente, em que os estudantes se mobilizaram em força depois de algumas hesitações, a revolta contribuiu para o fim do mandarinato (le grand patron) e a tomada de consciência dos limites de certos professores. Mas é igualmente em medicina que se observa as mais fortes bolsas de "resistência" devido ao " contra revolucionarismo".

terça-feira, 8 de maio de 2018

A Força de Trabalho



A FORÇA DE TRABALHO

Trabalhar demasiado aumenta o risco de alcoolismo



O capitalismo financeiro ou capitalismo selvagem ( a lei do mais forte ) é responsável por um retrocesso nas leis laborais. A revisão do código de trabalho na ordem do dia em todas as democracias ocidentais tem como objectivo o aumento da produtividade à custa da utilização da força do trabalho até ao seu limite provocando a exaustão dos trabalhadores.

A prestigiada revista médica, British Medical Journal ( BMJ) publicou um artigo de investigação em 2015 da autoria de Marianna Virtanen, alertando para o risco de alcoolismo no trabalho em excesso: " Long working hours and alcohol use systematic review and meta-analysis of published studies and unpublished individual participant data"

A União Europeia recomendou, como medida de protecção da saúde e segurança dos trabalhadores, limitar a jornada laboral a 48 horas semanais, incluindo as horas extra. Controlar o numero de horas de trabalho pode ser uma eficiente medida de saúde pública. 
Esta é a conclusão do trabalho da minha colega finlandesa.

Contudo, esta directiva da União Europeia sobre o tempo de trabalho nem sempre é cumprida que o digam os médicos e os enfermeiros. Imposições das administrações que obrigam a seguir o atendimento na urgência enquanto não se é substituído, o que leva o profissional a realizar assim 48 horas seguidas, não só é ilegal como é um atentado à saúde destes.

Marianna Virtanen, investigadora do Instituto de Saúde Ocupacional de Helsínquia, autora principal do artigo, explica: " Há quem beba álcool para aliviar o stress, a depressão ou as perturbações do sono" Beber um whisky ou uma cerveja alivia momentaneamente a tensão, mas o alcoolismo tem efeitos perniciosos sobre a capacidade de trabalho, responsável pelo absentismo e a ineficiência laboral.

Virtanen e a sua equipa levaram a cabo a primeira revisão sistemática dos estudos que se debruçaram sobre este assunto.

Todos estes trabalhos apontam na mesma direcção. Assim, numa análise do consumo da álcool de 333.693 pessoas de 14 países, os investigadores encontraram que nas longas jornadas de trabalho o risco de alcoolismo aumentava em 11%. 

Os autores não encontraram diferenças entre homens e mulheres, grupos etários ou status socioeconómico.

Considerou-se de risco o consumo habitual mais de 14 bebidas por semana para as mulheres e 21 para os homens. Esta quantidade de ingestão de alcool aumenta o risco de doenças hepáticas, cancro, hemorragia cerebral, doença coronária e perturbações mentais.

A importância deste estudo é que não se fica pela pura investigação científica e aponta estratégias de prevenção do abuso de alcool.

No editorial que acompanha o artigo, Cassandra A Okechukwu, da Escola de Saúde Pública de Harvard, sublinha que a regulação do numero de horas de trabalho poderia constituir uma eficaz medida de saúde pública, agora que cada vez mais trabalhadores se vem pressionados a violar as normas que limitam as jornadas laborais na Europa.

Estes estudos referem-se aos trabalhadores em geral ou seja mais de metade da população activa.

E os trabalhadores de saúde em Portugal? 


O maior trabalho de investigação foi realizado pelo Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa em 2016. Envolveu uma amostra de 9.176 médicos e mostrou que 66,1% sofriam de exaustão emocional, dois terços dos quais num patamar elevado




  










terça-feira, 10 de abril de 2018



10 de Abril de 1911, nasce na Maia, o meu pai Abílio da Costa Mendes.
10 de Abril de 1965, passo a salto a fronteira, perto de Figueira de Castelo Rodrigo.
São duas datas importantes.
Esta foto mostra uma paragem de repouso num camping.
Todos os anos, os meus pais, vinham visitar-me em caravana, à Suiça..

Em sua homenagem, publico um dos vários textos de divulgação médica que escreveu, sempre no intuito de ajudar os pais na sua função de educadores.


A CRIANÇA
PRIMEIRAS NOTAS

No dia a dia da criança tudo se programou em horas de trabalho e de repouso: em permanente actividade neuro-muscular quando acordada e em relaxamento ou recuperação mnésica quando dorme.
A criança dos nossos dias dorme menos durante o dia solar e,portanto, a sua aprendizagem ou o período informativo é mais longo.
Firmada já nos sistemas nervosos a boa limitação dos seus movimentos voluntários, esboça também propósitos intencionais de preensão dos objectos, levando-os à boca e de mão para mão, agitando-os de modo a ouvir neles ruídos mais ou menos musicais. Deixou de os introduzir furiosamente na boca até ao engasgamento e à maneira que ordena a posse e os movimentos até aqui atrabiliários inicia a definição da sua individualidade. Segura avaramente os brinquedos marcando o seu direito de propriedade. 
A linguagem vai ter inicio com o balbuceio continuo de monossílabos até definir, como os primitivos, as primeiras palavras onde a entoação ajudará a completar a escassês de vocábulos. Ma..ma, pa..pa, compõem as primeiras notas de uma canção inacabada. Logo depois, aprende que uma e outra formam as palavras figurativas de Mãe e Pai. Aqui, ainda como nos primitivos, estas sílabas representarão, a um tempo, todas as mulheres semelhantes à Mãe e todos os homens semelhantes ao Pai. Cedo apontará com o indicador uma Mãe e um Pai. Embora o conceito de tudo quanto define os seus progenitores esteja traduzido numa atitude bem marcada de se inclinar francamente para um e outro, logo que no ambiente familiar componham o quadro diverso de avós, pais e irmãos, etc.,estes rudimentares vocábulos representarão, durante alguns meses, mais de uma mulher e mais de um homem.

No programa estabelecido à criança desde recém-nascido, procuramos vincar a necessidade de respeitar os intervalos digestivos e, com menos importância, o intervalo reparador do sono.
Cedo, a partir do 6º mês, evitamos as refeições da noite. É durante a vagotonia do sono, isto é, no predomínio deste sector do sistema vagosimpático que as células se refazem da tarefa quotidiana e as funções digestivas diminuem a sua actividade consideravelmente.E se assim é, vale mais dormir do que comer. Ao despertar, principia a predominância do sector simpaticotónico e todas as actividades digestivas e emunctórias entrarão no seu máximo rendimento.
É boa norma ingerir no jejum um pouco de água e a partir dos seis meses ensinar a criança a controlar os seus esfíncteres Bastará para isso, ao iniciar a sua higiene física, procurar diariamente ensiná-la, após a mudança das fraldas, a evacuar na posição sentada. A enurese será mais tarde evitada, deixando de constituir mais tarde um trauma psíquico de embaraçosa solução e tão presente na biografia dos grandes homens.
Quando do sexto ao oitavo mês a criança se senta é o indicativo de que estão definidas as suas relações com os objectos circundantes e o seu equilíbrio é perfeito. Fá-lo-à por conta própria e sem apoio de almofadas. Exercitando-se em pavimentos macios, as almofadas apenas servem para lhe aliviar o choque e nunca jungidas ao tronco, pois a criança,encostando-se em apoio acabará por deformar a sua coluna. Tarde ou cedo virá a cifose ou escoliose embora ligeiramente.

O dedo polegar, que desde  o primeiro trimestre serviu a saciedade afectiva do bebé numa sucção extasiante, vai no segundo semestre entrar no treino da preensão e oponência, marcando assim uma função nova no seio dos primatas. Não será este prazer frenético que o levará a deformações do intermaxilar; quando muito ao emagrecimento do seu dedo.Outrossim acontece mais frequentemente com a detestável chupeta de borracha que, num mastigar e estiraçar intermitentes, fará pelo menos avançar os incisivos superiores e recuar os inferiores. Neste desalinhamento fatal a razão da sua fragilidade e próxima fractura. A chupeta é-lhe oferecida, embora no mais inocente dos propósitos; porém, o dedo irá sempre à boca da criança, de evolução normal, como enriquecimento dos seus registos sensoriais.
Agora o polegar apreende e exibe ruídos musicais nos objectos de borracha; adiante agarra-os veemente num desejo imperioso de posse que se não deve contrariar. Aqui a criança não representará egoísmo, mas o direito à propriedade.
Caberá ao seu educador muito tempo depois, noutra idade psicológica, ensiná-lo a dar os primeiros gestos no sentido do altruísmo. Como seria útil nas festas da CNE* levar as crianças a oferecerem-se os seus brinquedos e prendas!

Este texto foi escrito em Junho de 1967

* Companhia Nacional de Electricidade


segunda-feira, 9 de abril de 2018

Literacia Médica




Se à chupeta adicionarem açucares ou soluções açucaradas o resultado será fatalmente a podridão dos incisivos superiores

FELIZMENTE ESTE HÁBITO JÁ VEM RAREANDO.
Porém, ainda se encontra muita gente que molha a chucha no Aero Om.

quarta-feira, 28 de março de 2018


AS WE CONTINUE TO DRIFT INTO A TOTALITARIAN MEDICAL SYSTEM: A VIEW OF A COUNTRY BOY
É o titulo de um editorial da revista “Scandinavian Journal Surgery”, escrito por um cirurgião norte americano que não assina porque, segundo diz, "I am not going to sign this document. I still need my job for a few years …"

Apesar dos Estados Unidos praticarem um sistema de saúde muito diferente do nosso e de outros países europeus, encontramos neste editorial muitos pontos em comum. O que nos leva a crer que existe uma globalização da gestão dos serviços de saúde que conduz inevitavelmente a um Sistema Médico Totalitário. Este texto é um abrir de olhos para vermos o que está a acontecer, com os novos métodos de gestão dos serviços de saúde, nos países desenvolvidos.
O nosso "country boy" começa por definir o sistema médico que sempre tivemos acesso, com cariz capitalista. Define-o há alguns anos como uma forma benigna de capitalismo conservador, contrapondo ao sistema vigente que representa outra forma de capitalismo: duro, rígido, disciplinado, controlado e cruel, conduzido ao longo de um padrão clássico totalitário-ditatorial.
Os médicos, motores da máquina clínica, não têm voz. São meros peões. Naturalmente, os pacientes, aqueles para quem a máquina existe, foram  sempre peões. They were always led as herds to the water; the ignorant greedily buying the prevailing propaganda that “this is the best medical system in the world”.  Onde é que eu já ouvi isto!

Mais adiante, avisa que a tendência para uma medicina totalitária tem sido lenta e gradual, por isso difícil de nos apercebermos.
Caracteriza os hospitais como industrias monstruosas, crescendo cada vez mais e ganhando poder de fusão para fusão. Onde " Profit is the key word "
E continua: Geridos por um sem número de administradores, gerentes e parasitas não médicos, com uma miríade de títulos ridículos impressos nos seus crachás, funcionam como fábricas gigantes na China - embora menos eficientes.
A pirâmide nos hospitais encontra-se totalmente invertida. Em hospitais de pequena dimensão, qualquer dia existem mais administradores do que doentes.
Somos os melhores, o centro de excelência, melhores médicos, melhor tecnologia é a mensagem de propaganda otimista destes hospitais.
O editor chama aos médicos "providers" . Eles são empregados contratados e demitidos. A enfase está no recrutamento: um processo no qual inúmeras agências de recrutamento se beneficiam. Uma vez contratados, se não produzirem e se não alinharem com a propaganda serão descartáveis.
Se você pretende discutir e alertar para os problemas que o preocupam é apelidado de "criador de problemas", de inimigo do sistema. O seu destino é decidido nos bastidores, com as portas fechadas. E uma vez decidido livrar-se de si, não haverá muito a fazer. Demitir-se ou ser despedido!  Isto faz-me pensar que em Portugal deve haver muitos gestores com estágios nos States.
Senão vejamos. Caso se demita, terá de assinar um termo de confidencialidade que o impossibilita de revelar a razão da sua demissão. A chamada lei da Rolha.
O sigilo sempre foi uma arma crucial dos sistemas totalitários, diz o nosso colega.
Depois de analisar o comportamento das companhias de seguros e da facturação hospitalar com exemplos: um hospital num Estado pode facturar 50.000 dólares por uma operação, quando outro, dentro do mesmo país, pelo mesmo procedimento, pode cobrar 15.000 dólares.
Acrescenta que muitos dos nossos serviços e cargos são duplicados por enfermeiros e empresas prestadoras de serviços médicos. Mais baratas(?), menos reivindicativas e mais fáceis de dominar.
O artigo continua com a caracterização da nova geração de médicos, mais focados na qualidade de vida: dinheiro e dispensa de tempo. Mudam-se para onde lhes oferecem mais dinheiro.
A geração mais velha que é a do articulista, sente-se tão desanimada com o Sistema que já equaciona pedir a aposentação. Mas também há outros que se adaptam. Para estes, é melhor ser alimentado pela mão dos oligarcas do que sofrer com a plebe.
No subtítulo ACADEMIA, refere que a era dos grandes líderes académicos chegou ao fim e foram gradualmente substituídos por doutores - gerentes, contratados com base nas suas habilidades para a gestão de departamentos lucrativos.
Critica também as revistas académicas (a maioria sem qualquer revisão científica) e acrescenta: muito do que está a ser publicado na medicina pode ser falso ou tendencioso.
Os PARASITAS, outro subtítulo, cita gestores que viajam para conselhos de administração com a missão de ser mais eficiente (ou seja mais impiedosamente totalitário). Exemplifica com o recurso a fornecedores e agências de recrutamento que controlam o movimento e a contratação de qualquer pessoa. Quer um cirurgião para o fim de semana, paga 1500 dólares/ dia e 500 dólares vão para a agência. "And so, the TMS (sistema de saúde) has become the most wasteful medical system in the world, more and more so each year. I mean wasteful to society and the plebs. Not to the dictators/oligarchs who lead it."

Em conclusão, podemos garantir que tudo isto se vai reflectir na qualidade dos cuidados de saúde. Os doentes são tratados por uma equipa sempre em mudança de "hospitalists" trabalhando por turnos.

Para ler o artigo completo
SCANDINAVIAN JOURNAL OF SURGERY
http://journals.sagepub.com/doi/pdf/10.1177/1457496918757579

terça-feira, 27 de março de 2018




VACINAÇÃO OBRIGATÓRIA ?


O recente surto de sarampo no nosso país, que se iniciou no Porto e que foi detectado como primeiro transmissor um cidadão estrangeiro, veio levantar de novo, a velha polémica da vacinação obrigatória.

O sarampo é uma doença altamente infecciosa que pode ter complicações graves, necessitando muitas vezes de hospitalização. Tem como consequência, um absentismo escolar de cerca de 10 dias com um custo elevado para os serviços de saúde e para a sociedade no seu conjunto.

Graças ao alto índice de vacinação, em Portugal há mais de 20 anos que não se detectava um caso de sarampo. Isto não acontecia em muitos países, nomeadamente da Europa.

A Itália, por exemplo, faz parte dos 18 Estados europeus onde a transmissão endémica não foi interrompida* de 2008 a 2012, 14 375 casos foram declarados, atingindo pessoas de todas as idades.  Lácio, região central da Itália, registou 295 casos (20,5%) dos quais 27% atingiram crianças com menos de 14 anos. Neste período, a taxa de cobertura vacinal aos 2 anos era de 84,5%. Entre os 248 doentes que recorreram às urgências do hospital pediátrico de Lácio, 113 (45,6%) foram hospitalizados.

Apesar dos esforços dos serviços de saúde de todos os países que seguem as recomendações da OMS, os maus resultados devem-se ao crescimento do movimento anti vacinas que se tem espalhado por vários países e continentes.

O movimento anti vacinas não é novo. Contudo, seria mais compreensível no início do século XX. As medidas corretas de saúde pública tomadas ao longo dos séculos foram muitas vezes impostas às populações, recorrendo não poucas vezes às forças da ordem (isolamento dos casos de lepra, etc..).

Lembremos como a primeira vacina isolada, a antivariólica, nem sempre foi bem aceite. Mas, foi devido a ela e à teimosia dos profissionais de saúde pública que se conseguiu erradicar do planeta esta terrível doença.

A sua obrigatoriedade, no Brasil, ficou conhecida como a revolta da vacina**

Vejamos: entre os dias 10 e 18 de Novembro de 1904, a cidade do Rio de Janeiro viveu o que a imprensa chamou de "a mais terrível das revoltas populares da República". O cenário era desolador - bondes tombados, trilhos arrancados, calçamentos destruídos - tudo feito por uma massa de 3000 revoltosos. A causa foi a lei que tornava obrigatória a vacina contra a Varíola. E a personagem principal, foi o jovem médico sanitarista Oswaldo Cruz.
No meio do conflito, com saldo de 30 mortos, 110 feridos, cerca de 1000 detidos e centenas de deportados, aconteceu um golpe de Estado… A revolta foi sufocada e a cidade, remodelada… O Rio de Janeiro perderia o título de " túmulo dos estrangeiros"… A futura "Cidade Maravilhosa" era, então, pestilenta. A situação era tão crítica que durante o verão, os diplomatas estrangeiros, se refugiavam em Petrópolis, para se livrar do contágio. Em 1895, ao atracar no Rio, o contratorpedeiro italiano Lombardia perdeu 234 de seus 337 tripulantes pela febre amarela.
Apesar de todos os incidentes, foi com a mesma firmeza que Oswaldo Cruz bancou a campanha contra a Varíola. Na noite de 14 para 15 de Novembro, enviou a mulher e os filhos para a casa do amigo Sales Guerra e seguiu, ele mesmo, para a casa do cientista Carlos Chagas, que mais tarde descobrira a causa do mal de Chagas.
(Cássio Leite Vieira - https://super.abril.com.br/historia/oswaldo- cruz-e-a-varíola-a-revolta-da-vacina) **

Entre nós, a causa próxima da revolta da Maria da Fonte deveu-se à proibição, pelo ministro Costa Cabral, de enterrar os mortos nas igrejas. Uma medida correta de saúde pública.

Porém, em pleno seculo XXI, a contestação às medidas de saúde pública são mais sofisticadas e apresentam argumentos pseudocientíficos (taxa de mercúrio, etc..).

O substrato apresentado para a não obrigatoriedade da vacinação é apenas filosófico - a liberdade de escolha e a relação médico doente. O médico deve esforçar-se por explicar ao seu interlocutor os benefícios da vacinação para ele e para a comunidade.

A obrigatoriedade de cumprir o plano nacional de vacinações não pressupõe que este seja feito apenas por decreto e em nada retira o papel importantíssimo das equipas de saúde de proximidade no esclarecimento das populações. Mas o que fazer quando uma minoria de pais recusa a vacinação dos seus filhos e por outro lado exige a sua frequência escolar.

Na defesa da obrigatoriedade da vacinação está o facto de que a liberdade individual não se pode sobrepor ao interesse da colectividade

Por isso defendo que a obrigatoriedade da vacinação para crianças e profissionais de saúde seria uma medida correta, na certeza de que não levaria a uma nova revolta da Vacina.


*Ciofi degli Atti M e Coll. : Measles cases in children requiring hospital acess in na academic pediatric hospital in Italy, 2008-2013. Pediatric Infect. Dis J.,2017;36:844-848
**Figueiredo Lima: Serendipidade e outras histórias na Medicina, ed. Chiado, 2018;164-165