domingo, 6 de agosto de 2017

Pais poderão acompanhar os filhos no Bloco Operatório


Pais poderão acompanhar os filhos no Bloco Operatório
…Mas as crianças, Senhor, porque lhes dás tanta dor?! …
Augusto Gil. Balada da Neve

Despacho n.º 6668/2017, publicado no DR nº 148/2017, serie II de 2017-08-02, ao permitir aos pais acompanharem  os filhos, na indução anestésica e durante o recobro,  veio legalizar aquilo que já se praticava há muitos anos nos serviços de cirurgia pediátrica em Portugal, como na maioria dos países desenvolvidos.
Quando iniciei a minha carreira cirúrgica, nos anos setenta, a entrada das crianças no bloco operatório e mesmo nas salas de tratamento era um verdadeiro drama. Arrancavam-se as crianças ao colo das mães eram anestesiadas aos gritos em choro convulsivo e todas elas acordavam também aos gritos.
Apesar de já existirem nos hospitais comissões de humanização que nada opinavam, eram quase sempre constituídas por médicos e enfermeiras de adultos.
Os direitos da criança hospitalizada e dos pais foi uma conquista alcançada como quase  todas com oposição de grande parte da classe médica e de enfermagem.
Estou a falar dos anos logo a seguir ao 25 de Abril de 1974.
Lembro-me da resistência que houve da parte de enfermeiras chefes em permitirem aos pais da criança doente permanecerem durante a noite nas enfermarias. Foi uma luta que os Pediatras juntamente com os pais das crianças ganharam*
Contudo, conseguir o acompanhamento dos pais até ao bloco operatório foi mais longo e difícil.
Deve-se aos cirurgiões e anestesistas pediatras, os pais poderem ir até ao momento da indução anestésica e ficarem depois no recobro quando a criança acorda.
Foi assim em todos os estabelecimentos de saúde onde trabalhei, depois dos mais velhos se terem aposentado ou convencido.
Foi prática no Hospital de Santa Maria, no IPOFGL e no Hospital Inglês.  Nunca houve nenhuma infecção hospitalar  e o mau comportamento dos pais foi excepção. Aqui tenho de fazer justiça às enfermeir@s que rapidamente aderiram ao novo procedimento tendo sido uma ajuda preciosa.
Segundo as últimas noticias que vi na comunicação social, hoje este procedimento  é norma em todos os serviços de cirurgia pediátrica do país e julgo saber também nos serviços de Otorrinolaringologia.
É evidente, que compete às direcções de serviços arranjarem condições para esclarecerem os pais e as crianças através de sessões explicativas de preferência na véspera seguidas de visita à enfermaria e ao bloco. Aliás, vem expresso no preambulo do despacho:

a)- A formação do pai ou da mãe ou de pessoa que os substitua, através de consultas pré-operatórias a realizar por parte da equipa de saúde, que podem incluir visitas pré-operatórias e vídeos informativos, no caso das intervenções cirúrgicas programadas;

b) A existência de local próprio onde o pai ou a mãe ou pessoa que o substitua possa trocar de roupa e depositar os seus pertences;
c) A prestação adequada de formação sobre o cumprimento de todas as regras relativas ao equipamento de proteção individual e de higiene inerentes à presença em bloco operatório e unidade de recobro;
d) A definição de um circuito em que o pai ou a mãe ou pessoa que o substitua possa movimentar-se, sem colocar em causa a privacidade de outras crianças ou jovens e seus familiares, nem o funcionamento normal do serviço.

Curiosamente foi devido as estes pressupostos que no Hospital de Santa Maria, a Cirurgia Pediátrica, conseguiu não ficar com salas operatórias nas obras realizadas do novo bloco cirúrgico ambulatório, exatamente por não terem sido previstas as determinações citadas  nas alíneas  b e c
Esperemos que no novo hospital a construir em Chelas/ Marvila se cumpra na integra o estipulado na carta do direito da criança hospitalizada**
Há cerca de 20 anos que se iniciou este caminho, por isso espanta-me a atitude de certos médicos, não querendo acreditar que seja a do colégio de anestesiologia da Ordem dos Médicos, que estão contra este despacho.
São estas atitudes que vão de encontra a chalaça que os hospitais são um sítio agradável mas sem os doentes.

* Os médicos norte americanos e europeus vieram do Vietnam impressionados positivamente pela atitude das vietnamitas a não se deixarem separar dos filhos doentes e do seu comportamento nas enfermarias que auxiliavam em muito as poucas enfermeiras existentes. Os exemplos vem de onde menos se espera.

** Carta aprovada por várias associações em 1988, em Leiden.

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

segunda-feira, 31 de julho de 2017

4ª e última parte



A Despedida de Jerónimo



Jerónimo era uma figura querida e conhecida em Ouchy, atrevo-me mesmo a dizer em toda a cidade. Tinha conquistado o coração de toda a comuna de Ouchy, desde os empregados e donos dos inúmeros restaurantes como da própria polícia que, como referi no capítulo anterior, exibia por detrás do balcão um enorme falo representante da nossa louça popular das Caldas.
Um dia aziago, estava eu a estagiar no Hospital Cantonal, no serviço de neurocirurgia do Professor Eric Zander ( 1918-1982), quando entrou o nosso amigo com o diagnóstico de tumor cerebral.
O Professor Zander começava a sua visita à enfermaria às 7 horas, não tivesse ele o posto de tenente coronel do exército suíço. Os seus assistentes chamavam à visita o içar da bandeira.
Para quem não sabe, abro aqui um parêntesis: os suíços cumprem o serviço militar obrigatório  até aos 45 anos, normalmente durante 3 semanas ou mais conforme o tirocínio para  oficiais.
Quase todos os meus professores eram de altas patentes, nunca abaixo de coronel.
Imaginem o meu espanto quando numa sexta-feira vi muitos colegas meus fardados e a guardar as espingardas metralhadoras nos respetivos cacifos.

Mas voltemos ao Jerónimo, foi-lhe diagnosticado um tumor cerebral, ainda na época pré TAC,
localizava-se no lobo frontal  e para os médicos suíços, com o seu pragmatismo, a personalidade desinibida do meu amigo era já um sintoma da sua doença. Nunca acreditei nesta causa-efeito.

A sua alegria de viver e o seu caracter desinibido em nada tinham a ver com a presença de um tumor. O Jerónimo era assim.
Uma vez, mostrou-me um verdadeiro dicionário fonético francês- português que ele ia escrevendo conforme ouvia uma nova palavra. Era uma maravilha e ainda hoje arrependo-me de não ter ficado com uma fotocópia.

Após ser operado e extraído o tumor convidou toda a equipa da neurocirurgia para uma almoçarada em Ouchy. Quando chegámos ao lago e nos aproximámos do seu lugar de aluguer de barcos um cheiro muito meu conhecido, mas desconhecido para os suíços, exalava a quilómetros de distância. O Jerónimo tinha presenteado os suíços com umas ótimas sardinhas assadas.

Durante o almoço, várias foram as excursões de nativos curiosos com aquele odor de um novo perfume que inundava o passeio à beira lago.



Ainda viveu o 25 de Abril de 1974, mas com o meu regresso a Portugal nunca mais vi o Jerónimo. Anos mais tarde fui a Lausana e já não existiam os barcos de recreio Mendes-Rouge e, provavelmente, o das Caldas estará guardado na casa do chefe da polícia aposentado.
Ficam as memórias desse tempo….





















RACE DE CHAUVINS


Ontem fiz uma saída pelo centro da cidade e foi impressionante o número de turistas franceses que encontrei. Parece que no Porto e no Algarve sucede o mesmo.

Assistimos à 4ª invasão, depois das três incursões das tropas napoleónicas, mas em vez dos jovens soldados e oficiais que por cá ficaram e certamente uniram-se em matrimónio a muitas portuguesas,* hoje somos invadidos por sexagenários e neo-precários.

Estas considerações vêm a propósito de um longo artigo publicado na revista Marianne**.
Depois de muitas apreciações sobre o nosso país e características do nosso povo, sob o sub-título "Le Portugais est beau", a revista escreve, com espanto e admiração, que as portuguesas estão mais bonitas.
Não sei o que se passou? Será da alimentação ou da descoberta do depilador elétrico?, diz a jornalista e continua, até já têm uma top model, a Sara Sampaio.
Este é o perigo das generalizações e dos preconceitos. A imagem das portuguesas para os franceses, é das emigrantes dos anos sessenta com estatura mediana baixa, peitos grandes, ancas largas e bigode. Race de Chauvin!!

Claro que perante estas considerações, apetece-me também generalizar e concluir que os franceses não se lavam, por isso desenvolveram a indústria dos perfumes. Nos idos anos sessenta, mais de 60% das habitações em Paris não tinham casa de banho e muitos dos portugueses exilados, oriundos de famílias da burguesia, frequentavam os banhos públicos.

Quem escreve este artigo desconhece, certamente, a beleza das portuguesas descritas por Oscar Wilde que afirmava nunca ter visto olhos tão grandes e húmidos, contrastando, com o olhar baço das britânicas. Nem sequer do nosso Eça quando comenta que a francesa mais bonita de Paris era oriunda de Marco de Canavezes e a paixão de Mariana Alcoforado e do oficial francês Noel Bouton de Chamilly, conde de Saint Léger. ***

Ou também o que escreveu Augusto Walhelen, numa obra acerca dos usos e costumes dos povos: "a bela carnação das portuguesas, os seus grandes olhos negros, os seus dentes brancos e bem alinhados, os seus longos cabelos de ébano e a sua amável vivacidade colocá-las-iam na linha das europeias mais sedutoras, se à graça das francesas unissem a pequenez do pé espanhol”.

O Grande Dicionário Universal do Século XIX, que começou a publicar-se em França em 1866, coloca as mulheres de Guimarães como as mais belas de Portugal: "A cidade de Guimarães está povoada de encantadoras portuguesas, notáveis pela beleza do colo e pela energia das suas paixões amorosas”. E acrescenta: "As inglesas e quase todas as alemãs são frias ou indiferentes ao amor; as portuguesas, as italianas e as espanholas são mais susceptíveis de o sentir que as francesas”.****


*Dizem dever-se ao cruzamento com os franceses a pronúncia dos setubalenses carregando nos rr
** Portugal, la belle vie low cost. (nº 1061, pgs 74,75,76,77)

*** Cartas de amor de uma freira portuguesa
****http://umaszona.blogspot.pt/2007/02/as-portuguesas-vistas-por-estrangeiros.html

quinta-feira, 27 de julho de 2017

Lago de Ouchy




As Vacanças

(Termo que ainda hoje é patognomónico dos emigrantes portugueses em terras francófonas)

A explicação do uso do termo vacanças deve-se a que a grande maioria, se não a totalidade, dos nossos emigrantes nos anos sessenta e setenta, nunca tinha tido férias, e pela primeira vez gozavam o direito a vacances nos países que os acolheram.
Além disso "a féria", para eles, estava associada ao pagamento do trabalho executado. " Hoje recebemos a féria", dizia-se.

Voltemos ao nosso Jerónimo. Mesmo depois de ter o negócio em Ouchy a funcionar em pleno, bem visível na enorme tabuleta, à beira do lago, com os dizeres: "Mendes-Rouge  bateaux et pédalo ", Jerónimo trabalhou muitos anos sem nunca ter ido a Portugal.
O apelido do Jerónimo era Mendes, talvez ainda fossemos primos, pois da Maia a Matosinhos a distância é muito pequena.

Passado algum tempo, Monsieur Mendes et Madame Rouge meteram-se no seu carro e foram a caminho para Portugal. Resolveram atravessar o país de Norte a Sul, com algumas paragens obrigatórias. Uma delas foi nas Caldas, onde compraram um enorme falo, que julgo ainda permanecer na esquadra da polícia marítima de Ouchy, oferta do Jerónimo.
A outra paragem foi no Algarve, onde o nosso amigo resolveu parar numa pastelaria em Vila Real de Santo António e pedir para si e para a sua querida uma torrada.
Não conheço nenhum país que faça torradas como em Portugal, para os lados de França e da Suíça chamam-se toast, mas qualquer semelhança é pura coincidência.
Qual foi o espanto do casal quando viu chegar à mesa seis pratos de torradas. Jerónimo tinha visto em outro lugar uma torrada com seis fatias, como se faz no pão de forma, e por isso tinha pedido seis torradas! Os algarvios malandrecos quiseram gozar com o emigrante "ignorante", mas este deu uma enorme gargalhada e convidou todos os empregados, e provavelmente o patrão, a comerem com eles as seis torradas, oferecendo também os galões.

Este episódio que ele contou ao chegar à Suíça depois das férias, mostrou a lhaneza deste emigrante e a razão por que gostávamos dele e nos riamos com ele.

Continua…


sexta-feira, 21 de julho de 2017

Segunda Parte

OUCHY


Jerónimo instalou-se na zona mais aprazível da cidade de Lausanne, no pequeno porto à beira do lago Leman. Este é um dos maiores lagos suíços que faz fronteira com a França, com as suas estações balneárias de renome, Thonon e Évian-les-Bains, situadas na região da Alta Saboia, território que pertenceu ao governo de Vichy durante a segunda Guerra Mundial.
Muitos foram os resistentes franceses (1940-1945) que passaram por lá e mais tarde, durante a guerra da Argélia (1956-1962), muitos patriotas atravessaram a região fugindo das perseguições policiais.

Em dias de neblina, com as águas do lago agitadas e com a costa francesa escondida pelo nevoeiro, fazia recordar, aos mais nostálgicos, o Atlântico da nossa costa
.
Quando o nosso amigo chegou a este lugar, onde a beleza da natureza está em todo o seu esplendor, havia apenas alguns barcos a pedais para recreio durante o Verão. No Inverno, com a agitação das águas do lago, o porto de recreio estava sempre fechado.

Jerónimo não poderia ficar parado muito tempo. Assim, começou a fabricar redes de pesca como tinha visto fazer, em miúdo, aos pescadores da sua terra natal, e também barcos, como um verdadeiro armador. Garantiu-me que nunca tinha sido pescador, nem armador.
Guardava os materiais num pequeno barracão junto ao lago, propriedade de um velho suíço de quem se tornou amigo.

Jerónimo tornou-se no pioneiro da pesca do lago, prendendo la perche* nas suas redes, que vendia aos restaurantes da zona e que era muito apreciada, acompanhada por um Fendant** fresquinho.

Passado algum tempo, Jerónimo casou com a filha do velho suíço, a Madame Rouge. Certamente um casamento de amor. Presenciei muitas vezes as carícias apaixonadas que trocavam, com a Madame Rouge a chamar-lhe mon querridô e ele a responder mon petit choux.

Todo o casamento é um contrato social e neste ninguém ficou lesado, pois o meu amigo expandiu o negócio construindo mais barcos de recreio e continuando com a pesca mesmo durante o mau tempo.

* A perca é um peixe de água doce, muito saboroso.
**Vinho branco

quinta-feira, 20 de julho de 2017

Contos da Emigração




Contos da Emigração
Primeira Parte
(escrita em género de novela…)

O Jerónimo, conheci-o em Lausanne e rapidamente ficámos amigos.
Oriundo de Matosinhos saiu a salto de Portugal, ainda muito novo, atravessou a nado o rio Minho e a pé os Pirenéus, onde muitos portugueses se perderam abandonados pelos passadores.
Pouco tempo ficou em Paris, onde a vida nos bidonvilles não lhe agradou.
Chegou a Lausanne no início dos anos sessenta. Como? Não sei, nunca lhe perguntei, nem ele me contou.
Quando precisei de um carpinteiro, indicaram-me o Jerónimo. Estava inscrito no consulado com esta profissão.
A representação de Portugal em Lausanne era feita, à época, por um cônsul honorário de nacionalidade suíça e durante alguns anos muitos portugueses fugidos do país obtinham aí passaporte, alegando que lhe tinham roubado os papéis.
Jerónimo era forte, moreno e de estatura mediana, alegre e folgazão, e guardava uma pronúncia forte do norte.
Como muitos emigrantes, fugiu da fome que grassava em Portugal, sem nenhuma preparação profissional ou instrução. Jerónimo era analfabeto.
Mas tinha aquela característica do povo português, referida por muitos filósofos e pensadores, o desenrascanço*.
Lembro-me do nosso primeiro contacto. Telefonei-lhe (era o tempo dos telefones fixos. Telefonávamos para Portugal de cabines públicas, onde segurávamos uma moeda com uma pastilha elástica e um fio longo e assim que atendiam do outro lado puxávamos a moeda. Mais um desenrascanço…) e perguntei-lhe onde queria que nos encontrássemos e como o iria conhecer. Ele respondeu prontamente: "Na estação de metro*, em Ouchy, e estarei com uma mama de fora". Claro que mal desci na estação reconheci-o imediatamente, não precisou de mostrar um peito fora da camisa. Era facílimo identificar aquele português brincalhão no meio dos sorumbáticos suíços.
*dicionário Priberam: Capacidade de solucionar problemas ou resolver dificuldades rapidamente e sem grandes meios
** em 1965, o metro em Lausanne era um transporte de superfície que só tinha uma linha que ligava a praça central da cidade, Saint François, ao lago do Leman. Os habitantes da cidade chamavam-lhe Ficelle (o fio).
(Continua  ...)
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